Terça-feira, 6 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Vamos nos arrastar bom tempo na lama

Como diz o povão, e também o zé povinho, desgraça pouca é bobagem. E o Brasil de hoje, infelizmente, para mal de todos e infelicidade geral da Nação, tornou-se prisioneiro de grandes desastres simultâneos que o ameaçam perigosamente.

Não há hierarquia entre eles. São desastres de grandes dimensões e de profundo impacto em nosso futuro, próximo e remoto. Podemos escolher citá-los, por exemplo, pelo espalhafato que causam na imprensa, nos meios de comunicação em geral e na boca do povo. Neste desfile carnavalesco, com péssimo enredo, os destaques do momento podem ir, por exemplo, para dois desastres: o surto, ao que parece inesgotável, de corrupção generalizada vazando aos borbotões da Petrobras e da Operação Lava Jato, com metástases a serem ainda apuradas no BNDES e em vários órgãos do governo; e o mar de lama que matou o Rio Doce, acabou com uma cidade inteira de Minas Gerais, dispersou sua população e se espalha pelo Oceano Atlântico, onde fauna, flora, turismo e atividades pesqueiras estão à espera das brutais consequências.

Os dois desastres, o ambiental e o da corrupção, de resto interligados, convivem com o desastre da economia, em que inflação, desemprego, fuga de capitais e queda de rendimentos estão apenas no começo

Um jornalista dos meus tempos de foca, Carlos Lacerda, falava de um outro mar de lama, o da política brasileira, que, vejam vocês, é hoje mais uma grande desgraça a se mencionar neste pobre levantamento. A Câmara dos Deputados e o Senado brasileiros foram tomados de assalto por uma súcia de notórios aproveitadores e bajuladores que se empenham em cuidar exclusivamente dos seus interesses mais imediatos, largando ao deus-dará qualquer projeto de construção de uma verdadeira nação de Primeiro Mundo – que, aliás, proclamam ser os seus objetivos.

Os dois desastres, o ambiental e o da corrupção, de resto interligados, convivem com o desastre da economia, em que inflação, desemprego, fuga de capitais e queda de rendimentos estão apenas no começo. Esse é um desastre que tem autoria conhecida: os longos anos em que a Nova Matriz Econômica, gerada pelos gênios do PT, foi posta em prática por economistas fascinados pelo salvacionismo lulo-dilmista.

Mas ainda temos um desastre político que, além de transformar a corrupção em forma de governo, torna quase impossível sair da paralisia de Legislativo e Executivo, que deixa o Brasil entregue quase que só ao Poder Judiciário, assoberbado com a Operação Lava Jato e, agora, à espera de como decidir a situação da presidência da Câmara dos Deputados, obviamente incapaz de decidir qualquer assunto importante, enquanto o deputado Eduardo Cunha fica no cargo e a Comissão de Ética não o condena, deixando-o livre para chantagear o governo inteiro.

Esse impasse de governabilidade, de que tratei em artigo anterior e é dos grandes desastres da hora, vem crescendo há vários anos, com base em equívocos da Constituição de 1988. Na ânsia de redemocratizar o país, ela deixou a política brasileira entregue a dezenas de despropositadas “bandeiras” de politiqueiros negocistas, interessados em apenas aparecer na TV, candidatar-se ao Fundo Partidário e, com alguma sorte, chegar com cacife eleitoral ao balcão de grandes negociatas do Congresso.

Esse sistema político desastroso levou o aventureirismo às últimas consequências, agravado pelos horários ditos gratuitos nas TVs e pelo “presidencialismo de coalizão” – muito criticado pelos chefões políticos, mas bem aproveitado por eles – que Lula tornou a principal regra nacional.

Se eu fosse um desses profetas midiáticos que invadiram as TVs para “confundir o juízo do povo” – como diz uma trabalhadora evangélica aqui, do jornal -, eu diria que estamos diante de quatro cavaleiros do apocalipse. Pela ordem, mas sem hierarquia: a lama da corrupção, a lama do Rio, a lama da política e a da derrocada da economia. Ou seja, um lamaçal para derrotar qualquer trator de esteira.

E sem nenhum Rodrigo Díaz de Vivar para ser o nosso El Cid Campeador e nos tirar desse brejo.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 26/11/2015

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