Há cem anos, o jornal “O Estado de S. Paulo” publicou uma carta de um leitor em forma de artigo com o título em epígrafe. Era um inconformado, que logo no primeiro parágrafo reclamava que a todos em nossa terra não sobravam olhos para enxergar os males caseiros.

Autodenominou-se uma voz do sertão para dizer às gentes da cidade os problemas do país. Ao artigo seguiram outros e depois livros. Monteiro Lobato, um ilustre paulista, nacionalista apaixonado, acreditava que o Brasil podia fazer melhor. Inconformado, fez campanhas pelo petróleo brasileiro, por melhorias na saúde, por divulgação da cultura, por sustentabilidade na agropecuária e pela criação da siderurgia local, entre outras. Em algumas, teve sucesso notável.

O quadro institucional do Brasil é das décadas de 1930 e 1960, complementado com a Constituição de 1988. Tem partes obsoletas, urge sua adequação aos novos tempos

Também deixou uma vasta obra literária. Seu legado mais importante foi sua influência no pensamento nacional de que é possível melhorar o país sonhando. Uma frase dele resume bem: “Tudo tem origem nos sonhos. Primeiro sonhamos, depois fazemos”. Hoje, o Brasil está à procura de um sonho.

Há um ano, jovens tomaram as ruas de São Paulo e depois do Brasil, manifestando às gentes da cidade seu inconformismo. A eles se somaram o número recorde de eleitores indecisos e empresários descontentes com a política econômica.

Sobejam motivos para o inconformismo: uma educação fraca, a saúde com remendos, inflação em alta, a indústria nacional encolhendo, uma parcela crescente do PIB em juros para rentistas, privilégios sem sentido, corrupção impune e encolhimento do potencial do país, para citar alguns.

Está gerando um círculo vicioso de menos confiança no futuro, menos investimento e menos crescimento. É cada vez mais consenso que 2015 também será um ano difícil. Os inconformados estão certos em que o quadro está ruim, mas o país não.

O cenário internacional é favorável e o potencial interno existe. É possível um futuro promissor. Para tanto, é necessário acabar com a velha praga brasileira que é o conservadorismo, a aversão a mudanças. A realidade mudou e o país pode se transformar e avançar.

A primeira modificação a ser feita é na campanha eleitoral. Tradicionalmente, os candidatos a liderar o país apresentam propostas difusas com boas intenções para agradar aos eleitores. Prometem mais do mesmo, com o discurso de que é melhor ser rico e saudável do que pobre e doente. É necessário mais.

Falta um sonho de Brasil, um projeto de futuro, um programa de governo crível, um documento coeso identificando as oportunidades e os problemas a serem superados e detalhando as soluções, as definições de como chegar lá, seu sequenciamento e a quantificação das variáveis.

Os planos têm de ter horizontes definidos e uma quantificação de metas, custos e resultados esperados para que possam ser aferidos pelos eleitores, que irão analisar sua consistência, abrangência, viabilidade e conveniência para decisões mais criteriosas na hora de votar

O plano, na parte econômica, deve ser incluir: a) a visão do Brasil; b) controle da inflação; c) destravamento do crédito; d) gestão fiscal; e) reformas; f) inclusão; g) inserção externa; e h) políticas setoriais.

a) A parte mais importante do projeto é o Brasil que propõem entregar ao final de seu mandato especificando os propulsores do crescimento, os setores a serem privilegiados, as projeções das principais variáveis macroeconômicas e as metas a serem atingidas.

b) É necessário descrever as ações anti-inflacionárias com um aperto fiscal e uma redefinição da política monetária. Se bem aplicadas, seu efeito, em razão da sinalização, seria expansivo e não recessivo. Reverteria o pessimismo e tornaria virtuoso o circulo vicioso de pouco investimento e pouco crescimento.

c) Destravar o crédito, que está na metade de seu potencial, pode tornar a fazer com que tenha um papel importante para o crescimento. Impõem-se um programa focado para minorar o superendividamento no varejo, estreitar a cunha bancária, melhorar os mecanismos de transmissão para diminuir a taxa de juros neutra, racionalizar a tributação do setor e redefinir o rol do Banco Central e as políticas para segmentos específicos.

d) A gestão fiscal deve ser consistente intertemporalmente e combinar adequadamente a dinâmica do endividamento com o volume e composição de gastos e receitas do setor público.

e) O quadro institucional do Brasil é das décadas de 1930 e 1960, complementado com a Constituição de 1988. Tem partes obsoletas, urge sua adequação aos novos tempos. Destacam-se as reformas tributária, da previdência, do judiciário e a trabalhista.

f) A redução da pobreza implica ações de curto e de longo prazos. As imediatas aliviam os estragos da miséria celeremente com programas específicos. As mais duradouras objetivam eliminar suas causas promovendo o acesso à educação, saúde, alimentação, trabalho digno e justiça.

g) Com a crescente abertura do país, as relações internacionais assumem um lugar de destaque. Um plano deve estabelecer o tipo de relacionamento desejado com a Argentina, o resto da América Latina, os Estados Unidos, a Europa, a União Europeia, a África e a China.

h) Em razão de sua importância para o crescimento do país, assumem proeminência as políticas cambial, agrícola, industrial, tecnológica, empresarial, energética e de infraestrutura.

Um programa de governo tem outras partes também importantes como a da educação, do meio ambiente, de segurança, de direitos humanos, da saúde, do tamanho e eficiência do estado, da reforma política, de medidas para combater a corrupção, da burocracia, da cultura, da questão urbana e da moradia.

Os planos têm de ter horizontes definidos e uma quantificação de metas, custos e resultados esperados para que possam ser aferidos pelos eleitores, que irão analisar sua consistência, abrangência, viabilidade e conveniência para decisões mais criteriosas na hora de votar.

O ilustre autor também escreveu: “Tudo é loucura ou sonho no começo. Nada do que o homem fez no mundo teve início de outra maneira”. O momento é de sonhar o Brasil.

Fonte: O Estado de S.Paulo, 16/06/2014

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