Sábado, 10 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Vem aí a ‘Competição entre Globalizações’

Ainda há elementos abundantes no cenário internacional contemporâneo alinhados à tese do “G-Zero”, formulada pelo influente cientista político Ian Bremmer.

Não obstante uma economia global com alguma recuperação, os países continuam a operar na lógica egoísta do “cada um por si”. Para Pedro ganhar, Paulo tem de perder.

Economia de mercado e democracia representativa não representam unanimidade

Comparados aos “Exuberantes Anos 90” (The Roaring Nineties), título de um livro do economista Joseph Stiglitz, ganhador do Nobel, os atuais fluxos de comércio estão mais seletivos. Os movimentos de capitais e trabalhadores, mais restritos. Agências internacionais como o Banco Mundial e o FMI, menos globais.

Esta fase de “desglobalização”, a que contribuíram eventos como o 11 de Setembro ou as crises financeiras de 2008 (subprimes) e 2011 (passivos soberanos europeus), ainda não se dissipou.

Por que a “Globalização 1.0”, aquela que se seguiu à Queda do Muro de Berlim, foi tão severamente abalada?

Há, por um lado, um mundo inquestionavelmente mais conectado por tecnologias. Hoje é bastante mais fácil o acesso a viagens internacionais. Aprofundou-se o fenômeno das redes produtivas globais. A economia mundial tornou-se mais interdependente.

O Brasil se apresenta inerte ao embate entre projetos globalizadores

Por outro, a Globalização, em termos conceituais, deveria ter ido muito além do que o mero avanço nas comunicações e nos transportes. Ela deve abranger instituições e consensos de alcance cada vez mais planetário.

Dessa perspectiva, são muitos os sinais de que o mundo se desglobalizou.

A ONU não está mais forte. A OMC não se apresenta funcional e consolidada. A opinião pública global não se manifesta de modo mais uniforme.

Economia de mercado e democracia representativa não representam unanimidade. O Ocidente não triunfou de forma absoluta. A história não acabou.

Diferentes fatores concorreram para minar a Globalização 1.0.

A crença cínica dos EUA em sua excepcionalidade afastou-os da adesão ao Tribunal Penal Internacional e ao Protocolo de Kyoto.

Os anacrônicos subsídios europeus ao seu paparicado agricultor depreciaram o capital moral de Bruxelas para negociações comerciais.

Soberba e miopia dos cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU imobilizaram qualquer dinâmica de reforma e atualização daquele órgão central da diplomacia multilateral.

Apego ao protecionismo, substituição de importações e afinidades ideológicas pelas relações Sul-Sul afastaram países como Brasil, Argentina e África do Sul das potências na Europa e América do Norte.

Todo esse acervo antiglobalização acabou por gerar curiosas e incidentais alianças de conveniência.

A esquerda “progressista” brasileira bradava contra a Alca, assim como o discurso oficial da Venezuela chavista ou a porção mais nacionalisticamente à direita do Partido Republicano nos EUA.

Ativistas contra a tecnologização do campo na América Latina e na Índia caíram como luva às posições mais protecionistas do lobby agrícola europeu.

O outsourcing global direcionado à China e as robustas taxas de retorno que tais atividades industriais propiciaram ao capital manufatureiro consolidaram uma ética de padrões duplos.

Potências ocidentais preferiram “olhar para o outro lado” quando o assunto era a problemática relação direitos humanos/condições laborais na China ou o rarefeito oxigênio democrático naquele país.

Socorro oficial e crescente intervenção governamental nos EUA e Europa ofereceram munição renovada a entusiastas do Capitalismo de Estado nos Brics.

O mais interessante, no entanto, é que o atual quadro “desglobalizado” não tem produzido vencedores.

Ninguém ganhou com o malogro da Globalização 1.0. O mundo está mais perigoso e menos economicamente dinâmico. Os mais confortavelmente céticos rotulam a presente conjuntura de “O Novo Normal”.

O paradoxal, contudo, é de que agora em diante a própria projeção do interesse nacional de potências como EUA e China tem tudo para produzir mais, não menos Globalização. E tal dinâmica será bem distinta do que se observou com o fim da Guerra Fria.

A família de novas instituições financeiras sinocêntricas (diferentes bancos para Brics, infraestrutura na Ásia, etc.); a pujante presença chinesa como investidora direta e de portfólio no mundo, e ambicionada internacionalização do renminbi constituem alguns dos muitos veículos da Globalização projetada por Pequim.

Uma nova onda de cooperação tecnologia; a unificação de regras de investimento e propriedade intelectual em novas geometrias de comércio lideradas pelos EUA junto à Europa e à Ásia-Pacífico, perfazem algumas das pontas da Globalização engendrada por Washington.

Durante um certo tempo, trabalhamos com o paradigma do “Choque de Civilizações”, formulação do cientista político Samuel Huntington, que sugeria conflitos de diversas proporções alimentados por diferenças de cultura – e, portanto, de visão de mundo.

O mais provável, no entanto, é que estejamos ingressando numa fase de “Competição entre Globalizações”.

Na Globalização 1.0, a aposta era no fortalecimento de instituições multilaterais; economias indistintamente mais abertas e integração regional. Uma marcha vagarosa, porém progressiva, rumo a democracias representativas e ao que, em termos amplos, poderíamos chamar de “sociedade aberta”.

Na Globalização que vem por aí, instituições multilaterais têm menos papel efetivo e mais força simbólica. A ideia de esferas de influência não se restringe à vizinhança geográfica (vide a presença chinesa na América Latina e África ou a tentativa dos EUA em aumentar sua influência na Ásia).

Nesta “Reglobalização”, a identidade se dá menos na uniformidade da vida institucional (democracias cooperando com democracias) e mais na coincidência de interesses (EUA cooperando com autocracias no Oriente Médio; ou o regime chinês resolvendo indistintamente problemas de financiamento de democracias latino-americanas ou cleptocracias africanas).

Envolto num misto de incompreensão e paralisia ante a evolução do cenário global, o Brasil se apresenta inerte ao embate entre projetos globalizadores.

O país representa polo passivo na agenda definida por Pequim para a América Latina. Pouco se esforça para influir no desenho de acordos econômicos plurilaterais. Hesita em pragmaticante despriorizar o discurso pela improvável reforma do Conselho de Segurança da ONU. Não reconhece que concentrar fichas no jogo comercial a partir da OMC é um sonho. Finge que o Mercosul ainda é para valer.

Sem qualquer estratégia, e às voltas com seus demônios internos, lembra um distante e desinteressado espectador.

Fonte: Folha de S.Paulo, 05/06/2015.

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