Carlos Alberto Sardenberg

A privatização atrasou e foi atraso de anos. No Galeão, por exemplo, os novos donos nem assumiram ainda

Estava no portão 15 do Aeroporto de Guarulhos, esperando um voo da Gol para Recife, sexta à tarde, 20 de dezembro, pessoal já partindo em férias. Logo, tudo lotado. De repente, o sistema de som informa que esse voo estava na última chamada, no portão 17. Não era só eu que havia bobeado. Muitas pessoas levantaram-se preocupadas e correram para o outro portão. Na maior pressa, os funcionários acomodaram os atrasados em um ônibus e… nada.

Depois de um bom tempo de espera, alguém percebe que não havia motorista. Pergunta daqui e dali, e eram dois problemas. De fato, esperava-se por um condutor, mas, além disso, 12 passageiros ainda não haviam embarcado. Quando apareceu o motorista, o ônibus partiu, sem os 12, e encostou na escada do Boeing. Pessoal sobe, se acomoda e ficam duas pessoas de pé, sem assentos.

Comissária e agentes de terra travam uma inquieta conversa: como já pode estar com “overbooking” se ainda faltam passageiros para embarcar? Foi aí que uma comissária teve um estalo. Pegou o microfone e anunciou que aquele era um voo para Recife.

Recife? Várias pessoas se levantaram. Iam para o Galeão. Estava explicado: passageiros para o Recife estavam no avião do Rio e inversamente.

Está certo que o aeroporto é pequeno para o volume de tráfego que tem. Mas parece também que isso aí é falta de tecnologia, métodos e pessoal treinado. Umas trinta pessoas haviam tomado o ônibus errado e ninguém percebeu?

No auge da confusão, um funcionário me reconhece e comenta: o senhor precisa falar disto. Este é aeroporto da Copa!

De férias

Embarque internacional em Guarulhos, em 6 de janeiro. Maior confusão naqueles portões que ficam no térreo e não têm pontes de acesso aos aviões. De novo, rolo com os ônibus. Como o espaço ali é muito pequeno, fica praticamente impossível organizar as filas de embarque. Pessoal da American Airlines ainda tenta, depois desiste e tenta colocar todo mundo no ônibus do jeito que dava. Estou subindo, uma funcionária me detém e também pede: fale disto, por favor, isso aqui é para a Copa, nós vamos enlouquecer!

Imaginem os passageiros.

Bom, todos embarcados, o comandante informa que está esperando uma nova rota de voo. Ah! e também faltava completar o tanque.

Voo sai com uma hora de atraso, sem qualquer problema de clima. Chega em Dallas, estrangeiros seguem para carimbar o passaporte. Aí, sabe como é, muito cedo, só quatro “oficiais” da imigração estão trabalhando. Mais uma hora…

Atraso

No voo para os EUA, leio que o chefão da Fifa, Joseph Blatter, diz que o Brasil foi o país que teve mais tempo para preparar a Copa, sete anos, mas é o que apresenta o maior atraso nesta altura do campeonato.

O governo brasileiro não nega o atraso, mas diz que estará tudo pronto no dia do jogo.

É claro que não estará. Vai sair na base do quebra-galho, dos puxadinhos, voos de madrugada, confusão nos embarques, pessoal suando a camisa para chegar aos estádios.

De quem á a culpa? Alguns dizem: bom, o aeroporto de Guarulhos já está nas mãos da iniciativa privada, assim como o de Brasília, e as confusões continuam.

Verdade.

Mas é verdade também que a privatização atrasou e foi atraso de anos. No Galeão, por exemplo, os novos donos nem assumiram ainda.

Sem contar os atrasos ou os cancelamentos de obras de apoio, especialmente as de mobilidade.

A culpa é do setor público como um todo, incluindo, pois, governadores e prefeitos. Mas a responsabilidade principal era e é do governo federal. Assim como Lula foi aplaudido quando conseguiu a Copa — e alardeou isso — agora ele e a presidente Dilma ficam com os ônus.

Fonte: O Globo, 09/01/2014

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