A violência entra em cena

onibusrj-iloveimg-resized-iloveimg-cropped

Dia 2 de maio, terça-feira da semana passada. No Rio de Janeiro, o crime mandou queimar ônibus urbanos no meio das vias que confluem para a Cidade Maravilhosa. Nove ônibus foram incinerados e, no frigir do transporte público, pipocaram saques, roubos e outras escaramuças. Os cidadãos não têm para onde correr. De onde poderia vir o remédio? Quem sabe do Ministério da Justiça?

Talvez. Acontece que, naquela mesma tarde, o cenário do dito ministério não era melhor. No saguão do belo Palácio da Justiça, agentes penitenciários em passeata protagonizaram um desses protestos que lembram filmes de zumbis. O órgão, que supostamente tem responsabilidade direta ou indireta pelos contingentes policiais do país, foi tomado por um batalhão de agentes penitenciários que, em vez de obedecer ao ministro que ali trabalha, decidiu atropelar os controles da portaria para gritar palavras de ordem pedindo um regime previdenciário especial para si mesmos. Há fotos de um cidadão que botou seus coturnos sobre uma mesa da repartição, empertigou-se e fez discurso.

Para as pessoas comuns que vivem no Brasil, cenas desse tipo não são fáceis de assimilar. Para os brasileiros que acordam de manhã e vão trabalhar (quando ainda têm um emprego) ou para os que acordam de manhã e vão procurar uma vaga com carteira assinada em algum lugar (o que virou rotina para 13 milhões de conterrâneos nossos), a visão de um ônibus circular em labaredas no meio da avenida não é propriamente um deleite para os olhos. Aturdido, o sujeito se pergunta: mas onde estão as forças da lei?

Antes que alguém levante a voz para dizer que essa é uma pergunta “de direita”, é bom avisar. A pergunta não é “de direita”. O que pode ser “de direita” ou de mau gosto são as respostas. Quem aciona a repressão armada para dar cabo do mal-estar causado por manifestações políticas é autoritário — e dá uma resposta fascista para um impasse que pede solução política. Mas perguntar pelas forças da lei quando tudo está de ponta-cabeça não é “de direita”. É apenas legítimo. Não há nada de errado com quem quer viver num ambiente de paz, liberdade, justiça e segurança, dentro da normalidade de um Estado minimamente democrático.

Há algo de muito errado, isto sim, com um país em que a normalidade vai pelo ralo e a violência come solta. No dia da greve geral, 28 de abril, a violência marcou presença. Além dos Black Blocs que, como de costume, jogaram paus e pedras em vitrines e nos escudos da tropa, as forças policiais bateram pesado demais. Em Goiânia, um homem fardado quase matou um jovem com um golpe de cassetete na testa. Não é só nas cidades que a selvageria ganha espaço. No dia 20 de abril, um massacre promovido por um bando de encapuzados (não se sabe quem são) deixou dez mortos num pequeno assentamento de trabalhadores rurais, no interior de Mato Grosso. Um mês antes, em fevereiro, a tal “greve” dos policiais no Espírito Santo aterrorizou a população com 21 dias de paralisação que fizeram explodir as taxas de homicídios.

É verdade que, no Brasil, a violência é constitutiva. A escravidão atravessou quatro séculos de nossa história, como se fosse um dado “natural” — e o racismo está aí até hoje. Dizimar povos indígenas era parte da rotina — e, agora mesmo, há poucos dias, 13 membros da tribo indígena gamela foram feridos, um deles com a mão amputada, por pistoleiros no interior do Maranhão. É verdade ainda que os presídios no Brasil sempre foram masmorras medievais, assim como é verdade que a pobreza extrema violenta todos os dias direitos fundamentais de milhões de seres humanos.

Tudo isso é verdade, mas a violência que vem eclodindo agora traz um dado novo: ela parece ser o indício de um esgotamento das instituições que deveriam ser capazes de resolver e superar conflitos. A violência que vem roubando a cena na cidade e no campo tem raízes históricas ancestrais, sem dúvida, mas tem também relações com a crise generalizada que enfrentamos hoje. Como não acreditam mais nos canais regulares, os inconformados querem fazer justiça com os próprios pés. De seu lado, os governantes sem credibilidade tentam apelar para a repressão mais brutal, mas já não conseguem comandar seus próprios leões de chácara e não têm como impedir que funcionários públicos armados se rebelem contra o Estado e contra a sociedade.

Essa violência que vem crescendo é produto de uma ordem política que se deixou corromper. Quando a cúpula do Estado se vende, a bandidagem barata se instala na base. Cenas de convulsão social não estão descartadas para o próximo período.

Fonte: “Época”, 11 de maio de 2017.

RELACIONADOS

Deixe um comentário