Sempre que alguém desfruta um privilégio, outros “alguéns” pagam por ele, sem ganhar nada com isso. São tantos os privilegiados no Brasil que nem sabemos quanto eles nos custam.

Passagens, cartões corporativos e mordomias dos políticos e seus funcionários (viagens de parentes e amigos, tapioca, além da corrupção) foram todos pagos com nosso dinheiro. Por isso trabalhamos até fins de abril só para pagar os gastos “do governo”.

Em 2008 trabalhamos 117 dias para sustentar a farra. Sobraram apenas 249 dias para viver, cuidar da educação, da saúde… Só começamos a ganhar para isso lá por fins de abril. E no dia 30 acertamos o Imposto de Renda (IR), pagando mais um pouco ou recebendo uns caraminguás de restituição quando a “Receita liberar os lotes”.

Numa palestra, o então deputado Delfim Netto falou da ideia de não pagar impostos, mas advertiu aos presentes à audiência: “Não vão sair por aí falando que as pessoas não devem pagar impostos porque isso é crime!” Assim, caro leitor, você pode ficar triste, zangado ou irritado por pagar impostos. Mas não estou dizendo que não os pague.

Meu esforço é simplesmente para que saiba dos impostos escondidos que você paga, além daqueles cujas contas acertou no último dia 30. Porque você paga impostos em tudo o que compra, ou vende, ou dá (só escapa esmola).

Os gaúchos tiveram uma boa ideia: criaram o Dia da Liberdade de Impostos (27 de maio). A intenção é mostrar como seriam baratas as coisas sem eles.

Funciona assim: um grupo de voluntários (você pode ser um deles) se organiza e consegue convencer pessoas ou empresas que têm dinheiro (atenção: não são privilegiados, mas cidadãos que o ganharam com o esforço de seu trabalho e se dispõem a patrocinar a campanha) e topem pagar o imposto relativo a, por exemplo, xis litros de gasolina de um determinado posto (são necessários, no mínimo, quatro voluntários para cada posto).

O governo não tem do que reclamar, pois acaba recebendo o dinheirinho que lhe cabe nesse latifúndio e ninguém está cometendo nenhum crime.

Acertado que os patrocinadores vão pagar o imposto incidente sobre, digamos, 2 mil litros de gasolina, há a necessidade de anunciar que naquele posto, em 27 de maio, a partir das 9 horas, os motoristas que receberem as 100 senhas (é bom começar a distribui-las de madrugada) têm direito a comprar um máximo de 20 litros do combustível e pagar o preço sem imposto. Há faixas, filas, imprensa, televisão e toda essa parafernália. Esse é o objetivo da campanha.

Espera-se que a polícia, que também é paga com o seu imposto, compareça, se necessário for, para ajudar a organizar a fila e o respeito à ordem de chegada.

Dá trabalho? Dá, e muito. Mas a propaganda é a alma do negócio, mãos à obra. O objetivo é criar massa crítica suficiente para que os legisladores vejam que há muitos interessados em que os impostos baixem, para pararem de pagar passagens aéreas e outros desperdícios e corrupções que ainda não chegaram às manchetes.

Pode dar certo ou não. Na eleição de Barack Obama deu. A campanha presidencial de Obama não recebeu um tostão furado do governo. Com isso ele pôde arrecadar quanto quis. Seu concorrente, John McCain, tinha um limite para receber de doadores privados porque havia recebido dinheiro público (isto é, dos pagadores de impostos).

Aqui não vamos eleger o presidente, vamos só dar um gostinho e um saberzinho às pessoas de como a vida poderia ser muito melhor com impostos mais baratos. Você que comprou seu carro ou seu eletrodoméstico com redução de impostos já sabe como isso é bom. Melhor seria se assim fosse o tempo todo, com todos os produtos.

Mas para isso teríamos de cortar privilégios. Os camarões comidos nos palácios do governo saem nadando do seu bolso. O uísque bebido nas recepções do Itamaraty foi confiscado de algum brasileiro que pagou sua passagem internacional com o seu dinheiro e trouxe um pouquinho mais do que o governo gostaria que ele trouxesse.

Não se iluda, ilustre passageiro, foi apreendido dos brasileiros sem privilégios. Porque os privilegiados passam pelo “canal azul” da alfândega. Ah, você achava que só existiam os canais verde e vermelho? O azul existe, mas é invisível. Por ele passam os privilegiados e os que corrompem funcionários corruptíveis. Você nem chega a saber que ele existe.

Moro numa quadra, em Brasília, onde vivem muitos magistrados de tribunais superiores e por isso canso de ver ministros andando pelas poucas calçadas da cidade, comprando remédios, pão, frutas e outras coisas que tais.

Assustei-me, no entanto, quando cruzei no aeroporto com um ministro torto acompanhado por um segurança saindo do avião. Em 26 anos de Brasília, eu nunca tinha visto isso.

Infelizmente, parece que não se fazem ministros direitos como antigamente, quando, numa segunda-feira à tarde, encontrei oito ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) comendo pizza com refrigerante numa cantina popular a menos de 200 metros da casa deles.

A cultura do privilégio ameaça tornar raros os ministros direitos, facilitando o aparecimento dos ministros tortos. Essa é uma das razões por que a gasolina deveria ser mais barata.

Em tempo: também não custava nada o lixo do prédio dos ministros do STF ser colocado num lugar mais discreto do que a entrada da superquadra. Lixo na entrada dos outros, além de privilégio, é escárnio.

Privilégio, meu caro leitor, é tudo isso que é outorgado de graça a alguém e é pago por todos. Está demais. É hora de reclamar!

(O Estado de S. Paulo – 11/05/2009)

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1 comment

  1. Gerson Alves de Souza

    Faltou o ilustre PhD Alexandre Barros mencionar outros “privilégios”, digamos, menos reprováveis ao crivo dele (autor), por puro corporativismo, mas bem mais portentosos, tais como: incentivos fiscais setoriais, renúncia fiscal, subsídios agrícolas ao agro-business, licitação fajuta (perdoem-me a redundância) de bens e obras públicas/empreiteiras/privatização, empréstimos a fundo perdido, perdão de dívidas empresariais, socorro a bancos quebrados, vultosas indenizações públicas superdimensionadas, etc, etc, etc…São os bilhões de reais lastreadores destes grandes privilégios, que respondem, de forma inviesada e marota, pela manutenção dos outros privilégios de pequena monta [(mordomias, passagens aéreas, “empréstimo” de diretor do Senado a senador em apuros na França, “canal azul” das alfândegas (juro que nem imagino do que se trata), etc, etc, etc)], os quais (os pequenos), infelizmente, mostram-se mais execráveis ao autor e à opinião pública, claro, por conta de sua relativa publicidade, ao contrário dos grandes, que somente a poucos interessa saber, nunca mostrar.

    Quanto aos impostos pagos (quando realmente pagos, e neste caso, apenas pelos consumidores), inclusive os oriundos das esmolas (toda moeda atirada aos miseráveis volta ao mercado, seja que por vias for), é puro sofisma atribuir tão-somente à carga tributária os elevados preços dos produtos vendidos no Brasil. É querer ignorar, num faz-de-conta macabro, a não menos elevada margem de lucro dos comerciantes pátrios.
    A diminuição dos impostos, necessária, desejosa e benfazeja, não tem, por si só, o condão (como diria o douto e belo e rico e sensível Dr João Accioly) de baixar os preços dos produtos a níveis satisfatórios e/ou justos. A recente redução de tributos do setor de montadoras de automóveis é prova inequívoca disso. O impacto nos preços dos carros foi mínimo, quase imperceptível, muito aquém da taxa cortada.

    A VERDADE é como um cubo: única, íntegra e sólida, mas possui faces, arestas e diagonais, que lhe dão forma e sustento.

    Dizer a verdade é algo bem fácil e prazeroso…mostrar seu intento ao dizê-la é que é penoso e detestável.