Vozes pela ética

A imprensa tem papel fundamental na defesa dos interesses da sociedade. Os jornalistas brasileiros vêm cumprindo esse papel com louvor, não apenas denunciando o que está errado, como mostrando bons exemplos de cidadania e comportamento ético.

É esse o papel da imprensa. Apurar e disseminar a informação, para mudar o comportamento e melhorar o país.

O repórter Ricardo Mioto, desta Folha, escreve a série “Pesadelo Fiscal”, publicada desde maio de 2013, mostrou que a carga tributária do Brasil chegou em 2012 “a inéditos 36,27% do PIB, minando a competitividade”.

O exemplo usado pelo repórter é uma garrafa de vinho. No Brasil, a garrafa paga 45% de impostos. Na concorrente Argentina, 26%. Mais do que o peso, entretanto, o que conspira contra o ingresso do Brasil no grupo dos grandes é a complexidade para o pagamento de tributos. Unindo carga tributária e complexidade para pagamento o que vemos é uma barreira a investimentos estrangeiros no país.

Em outra reportagem, publicada em fevereiro, as repórteres Ana Paula Pedrosa e Queila Ariadne, do “Portal O Tempo Online”, relembram a mudança ocorrida em dez anos no centro de Belo Horizonte, com a inauguração do primeiro shopping popular criado para abrigar os camelôs que superlotavam as calçadas.

Em uma década, caíram os índices de criminalidade e a área se valorizou. Mesmo quem era contra a criação do shopping popular acabou concordando com a solução, baseada no Código de Posturas, elaborado em 2000.

Bruna Martins Fontes e Júlia Pitthan, na reportagem “Negócios com Causa – a Escolha é sua”, publicada em maio pela “Pequenas Empresas & Grandes Negócios”, contam a história de jovens que estudaram no exterior, ou em boas escolas brasileiras, e tinham todas as possibilidades de vencer no mundo clássico dos negócios. Mas pertencem a uma nova geração: a dos empreendedores com causa. São jovens que, além da boa formação, têm como “denominador comum o desejo de melhorar a vida de outras pessoas”.

O “Fantástico” exibiu em 2012 reportagem de Eduardo Faustini e André Luiz Azevedo revelando como são feitas as licitações com cartas marcadas. Com ajuda da direção do hospital de pediatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o repórter assumiu durante dois meses o lugar do gestor de compras.

O que a reportagem revela é chocante. Os fornecedores falam da comissão ao agente público como coisa normal. A praxe no mercado é 10%, dizem eles, em gravações filmadas e levadas até o último momento antes da liberação do pagamento.

Como a lei prevê concorrência, mesmo em regime emergencial, a empresa que corrompe se oferece para indicar outras concorrentes, em um esquema com cartas marcadas. Por que uma empresa entra em uma concorrência para perder? Porque fica acertado que, na próxima, o resultado será em seu favor.

O ministro-chefe da Controladoria Geral da União, Jorge Hage, defende maior rigor para os maus empresários, como aliás prevê a recém-aprovada Lei Anticorrupção.

Os repórteres Lucas Scherer e Bruno Feitosa, da “Rádio BandNews FM” de Brasília, levaram ao ar em julho a série “Indústria da Pirataria”. No setor comercial de Brasília, ambulantes vendem seus produtos piratas à vontade. Três CDs custam R$ 10,00. E o camelô explica: “É genérico.”

Apenas em 2012, mais de 1 milhão de produtos piratas foram apreendidos. No mesmo ano, calcula-se que o Brasil deixou de arrecadar mais de R$ 1 bilhão em impostos por causa da pirataria.

Tributação, economia informal, corrupção, ética nos negócios e pirataria são temas caros ao Instituto Brasileiro de Ética Concorrencial. Para ampliar o conhecimento sobre os benefícios das práticas de negócios alinhadas com a ética concorrencial, o instituto criou este ano o Prêmio ETCO de Jornalismo. O resultado foram 203 reportagens inscritas, o que demonstra a preocupação da imprensa com o assunto.

A comissão julgadora teve trabalho para escolher os vencedores nas categorias jornal, jornalismo online, revista, radiojornalismo e telejornalismo. Foram as cinco reportagens citadas acima as vencedoras, e a reportagem de Faustini e Azevedo foi eleita a vencedora do Grande Prêmio ETCO de Jornalismo, em cerimônia realizada em 7 de novembro em São Paulo.

É esse o papel da imprensa. Apurar e disseminar a informação, para mudar o comportamento e melhorar o país.

Fonte: Folha de S.Paulo, 20/11/2013.

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