Washington e Pequim lançam novos olhares sobre Europa e América Latina

No momento em que dezenas de Chefes de Estado da União Européia e da CELAC (Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos) se reuniam em Santiago, também voltavam os olhos para a capital chilena os estrategistas de Washington e Pequim.

Para os EUA, o principal interesse é avaliar o comportamento da UE como bloco. Washington atribui grande importância à manutenção da configuração comunitária — incluindo o Reino Unido. O desmantelamento atrapalha seus objetivos geoestratégicos, sobretudo neste instante em que sua economia parece recuperar-se e a área de livre comércio em que estão inseridos, a NAFTA, é dos poucos arranjos regionais que opera sem problemas. Os EUA — e também a China — acompanham de perto a movimentação da América Latina como “Comunidade”, já que seus membros encontram-se em diferentes velocidades — Colômbia, Peru e México decolam; Argentina, Brasil e Venezuela patinam.

Já da ótica chinesa, a Europa em crise faz observadores cogitarem que a América Latina poderia ser considerada alternativa como destino para ainda mais exportações chinesas. O fato, porém, é que o intercâmbio comercial entre China e União Européia supera meio trilhão de dólares ao ano. É quase o mesmo nível de comércio entre China e EUA — hoje a maior parceria comercial do mundo. Embora o comércio chinês tenha crescido exponencialmente com a América Latina na última década, ele não representa alternativa às relações comerciais de Pequim com a Europa.

Em termos de “outras opções” para a economia chinesa, hoje os próceres de Pequim conscientizaram-se de que a lenta retomada econômica de EUA e Europa, e o ingresso mais seletivo de exportações chinesas nesses mercados tradicionais, ditam a inviabilidade da continuação de uma grande receita comercial por parte da China. As próprias políticas contracíclicas adotadas por Pequim ante a crise global conduzem a um quadro em que os chineses têm salários mais altos – consomem mais; poupam e investem menos. Hoje opera-se a reinvenção de um modelo em que a China crescerá de forma mais desacelerada – mas talvez melhor. O modelo chinês anterior ancorava-se na adaptação criativa realçada por seus baixos custos de produção. O fato é que a maciça acumulação de excedentes por parte do governo e das empresas chinesas permite ao país uma escalada em seus investimentos em ciência e tecnologia. Esta reinvenção chinesa tem na ideia de inovação sua palavra de ordem, com grande ênfase no fortalecimento do mercado interno chinês.

O mote do encontro CELAC-UE foi o desenvolvimento sustentável; o que é bom para o Brasil, que nos últimos anos virou o jogo e apresenta mais ativos do que passivos nessa dimensão. O Brasil tem uma grande chance de utilizar suas vantagens comparativas nos biocombustíveis e no agronegócio para direcionar sua economia a setores mais intensivos em tecnologia. No entanto, o tema da sustentabilidade provavelmente ficará apenas nas “empatias conceituais”. No limite, estamos observando uma “pausa” nas dinâmicas de integração regional e o ressurgimento do Estado-nação como protagonista. É o mundo do “o meu primeiro”. E sem dúvida a prioridade individual de cada país latino-americano ou europeu nesse contexto é crescer, o que acaba por eclipsar a dimensão ambiental do desenvolvimento, como aliás atestam os resultados pouco práticos da Rio+20.

É igualmente difícil ressuscitar o diálogo concreto UE-Mercosul

É claro também que no comércio agrícola, onde os europeus continuam campeões mundiais de protecionismo, mais acesso a mercados seria bem-vindo. No entanto, com a voracidade da demanda chinesa por exportações latino-americanas de commodities agrícolas e minerais, este tema não tem a mesma premência de 10 anos atrás.

É igualmente difícil ressuscitar o diálogo concreto UE-Mercosul. De um lado, temos a União Européia ainda atolada em sua própria areia movediça fiscal e o crescimento estagnado. De outro, hoje o Mercosul está mais mais para um “clube de empatias ideológicas” do que um bloco que se movimenta de acordo com objetivos pragmáticos de comércio e investimento.

Hoje, num nível mais amplo há uma “deseuropeização” dos focos prioritários da América Latina. A boa saúde dos fundamentos econômicos latino-americanos e o magnetismo exercido pela China têm contribuído a essa fase mais deseuropeizada. Da ótica específica do Brasil, temos a maior economia da região, mas isso não se deve por sermos um paradigma de competitividade. Praticamos um bom-mocismo conservador na gestão macroeconômica, elevadas barreiras tarifárias a importações, fortalecimento das megacorporações de economia mista que atuam em commodities agrícolas e minerais, política industrial defensiva. E, há que ressaltar, esquálidos níveis de poupança e investimento internos, ambos inferiores a 20% do PIB.

Temos recebido fluxos volumosos de IEDs sobretudo porque o mercado brasileiro, bastante protegido, acena a empresas globais com margens de retorno muito superiores à média dos mercados da OCDE. Se o Brasil flexibilizasse suas exigências de conteúdo local, sobretudo em áreas relacionadas a infraestrutura, transportes e logística, inauguraria uma fase “qualitativamente nova” como destino de investimentos europeus.

Fonte: Blog do Guilherme Barros

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