Sexta-feira, 26 de agosto de 2016
Mantenedores mantenedores

Paula Guedes questiona o papel de “super-heróis” dos empreendedores

Waterboarding: Empreendedores salvarão o Brasil…
se não morrerem afogados antes

Se a crise é a mãe das oportunidades, o mundo atual oferece um cardápio amplo e variado para pessoas criativas e empreendedoras.  É essa a esperança de governos com finanças arruinadas, que competem para atrair aqueles dispostos a montarem negócios gerando empregos e novas fontes de receita às máquinas públicas tão decadentes quanto os magníficos castelos da idade média.

Ironia da história, a China é um dos governos que proativamente declarou grandes mudanças estruturais sinalizando seu incentivo ao empreendedorismo.  Durante o ano de 2015, o país reduziu impostos em 300 bilhões de yuan (~46 bilhões de dólares) direcionados principalmente à pequenos negócios e ao setor de inovação. Segundo o State Tax Administration of China (Administração Tributária do Estado da China), o principal motivo para redução das tarifas foi a expectativa de que o empreendedorismo em massa geraria empregos e tiraria o país da crise no médio prazo.

Já o Brasil optou pela direção contrária… infelizmente parecemos guiados por princípios que nortearam nossos vizinhos bolivarianos e peronistas. Parecemos realmente acreditar que Deus é brasileiro.  Em 2016, nosso país, cujo os impostos e juros estão entre os mais altos do mundo, dá indicações de que pretende aumentá-los ainda mais.  Não é preciso ser um gênio para concluir que diante dessas condições o apetite para empreender fique apenas para o gosto fino dos amigos do rei ou loucos (prefiro me enquadrar neste grupo).

Waterboarding é a prática de tortura que simula o afogamento para conseguir que um capturado (geralmente de guerra) entregue segredos.  Nos EUA, essa prática foi bastante debatida no contexto de terroristas após os ataques de 11 de setembro.  A prática é sofisticada e exige cautela: exagere na simulação e o capturado morre, assim levando os segredos.  Não aperte o suficiente e não conseguirá as informações que precisa.  No caso do empreendedor no Brasil, parece que o governo tenta fazer o mesmo:  movimentam as alavancas pausadamente, piorando as condições de se empreender de forma controlada a fim extrair o máximo de seus bolsos sem matar a presa.

Em uma entrevista recente, Jorge Paulo Lemann (eterno empreendedor e advocate da causa) eleva empreendedores ao status de super-heróis e proclama: “ Os empreendedores é que vão salvar o Brasil”.  Eu humildemente tendo a discordar, Jorge Paulo.  O Brasil não dá sinais de quem deseja ser salvo.  E embora alguns empreendedores se prontifiquem à convocação (eu felizmente contribuo da forma que consigo), suplico ao governo que demonstre uma postura minimamente respeitosa perante estes heróis para merecer tamanha responsabilidade e comprometimento que virá com a operação de resgate.

Afinal de contas há muitos países que hoje avidamente tentam recrutar empreendedores para trabalharem no seu quintal.  Os verdadeiros empreendedores, aqueles que acreditam que podem mudar o mundo, acreditam no potencial humano e querem trabalhar onde este é respeitado.  O Brasil, por não ser um destes países, corre o grave risco de sofrer um êxodo de empreendedores em rumo à Galt’s Gulch.   Ignorar essa possibilidade é um tremendo desrespeito ao empreendedor brasileiro.

Ao continuar removendo os incentivos da classe que produz empregos, o Brasil não terá a menor chance de prosperar…  As gerações anteriores saqueiam as futuras de seus sonhos. Repetimos os erros anteriores e a década perdida, como nos livros de Gabriel García Márquez.

Aos governantes que desejam que continuemos empreendendo, criando empregos e gerando receita neste país: troquem seus castelos por estruturas eficientes e demitam a entourage de aproveitadores, tenham a coragem e a decência de capitanear uma reforma política integra antes de pressionarem aqueles que propulsionam o crescimento do país.  Depois que testemunharmos isso, aí sim, acreditarei que o Brasil quer ser salvo.  Pois embora seja bacana acreditar que a crise é a mãe da oportunidade “a la virgem Maria”, sabemos bem que não se faz um filho com a mãe, apenas.  E, se a crise é a mãe das oportunidades, pode-se dizer que um bom ambiente para se empreender seria o pai…  e este, anda ausente.

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