“Somos da crise, se ela vier, banana para quem quiser!”
Alberto Ribeiro e João de Barro

Os americanos têm Obama e nós banana, conforme lembra a velha mas sempre atual marchinha carnavalesca de Alberto Ribeiro e do grande João de Barro, de 1938. Somos, o país da banana e, como lembra a música, da crise permanentemente enfrentada pelo prisma carnavalesco do populismo, da amoralidade, da propaganda e da mendacidade.

Das bananeiras saem as bananas e os psius distribuídos aos que nos chateiam. E também o embananamento, esse brasileirismo para a crise. E quem, em sã consciência, pode dizer que jamais deu uma banana ou viveu num Brasil sem embananamentos? A crise, como receita a música, deve ser enfrentada com o que temos com mais abundância: fálicas bananas entupidas de vitamina que engordam a fazem crescer. É bom saber que a música reconhece como estrutural o que alguns sofisticados comentaristas, com sua cultura de almanaque extremamente apreciada no Brasil, logo pressentiram: o elo entre a crise e a capacidade de dar banana!

A palavra “crise” significa em algum idioma oriental (nada, para o ocidente das trivialidades como o saber orientador do oriente!) oportunidade, abertura, transição. Neste sentido, é preciso não esquecer a receita da marchinha. Temos a vantagem de uma familiaridade com as crises. Mais: somos por elas enredados e constituídos. Ademais, nosso sistema não é todo amarrado pela lógica do mundo financeiro. Se não temos grana, temos banana na casa de parentes ou amigos, algo impensável no chamado grande país do norte. A crise, como se dizia antigamente, faz parte de nossa estrutura, é central em nossa cosmologia. Deus fez o país mais lindo do mundo, e quando os outros reclamaram da injustiça – pois, até então, o Brasil tinha inflação, mas não tinha tufão e furacão… – o Todo-Poderoso replicou: “Mas vocês vão ver o povinho que eu vou botar lá.” Disso resultou o populismo, o nacionalismo burro, a corrupção, a inflação e — como é que eu ia me esquecendo – a amizade como vício. E o esquecimento de que tudo tem dois lados.

A mídia, depois de descobrir que Obama não foi eleito presidente da boa vontade global, mas de um país concreto, comenta o embananamento do presidente americano que, no topo de todas as possibilidades, dá vários passos adiante, apresentando um plano que contém mudanças estruturais. Os enfrentamentos começam, mas Obama está cumprindo com a clareza dos planos escritos (e não dos meros discursos inflamados) suas promessas. Lá não tem banana, embora existam embananamentos. Fosse no Brasil, Obama simplesmente esquecia os chamados choques de ordem prometidos na campanha. Mas nos Estados Unidos, a crise demanda um novo rumo. Quem poderia imaginar que certos tabus do mercado fossem discutidos e eventualmente rompidos com tanta ênfase? Obama dá banana para os que nada entendem de liberalismo. Ele põe em prática o que sabem os estadistas cultos, e já dizia o velho Karl Polanyi: sem Estado não há mercado. A essas alturas, quem precisa de socialismo para transformar o capitalismo?

O que mostra o verdejante embananamento do “primeiro mundo”? Ora, ele revela uma enorme convergência e, nela, a tão temida e anunciada “brasilianização” dos Estados Unidos em paralelo a uma saudável “americanização” do Brasil. Lembro que o termo foi usado por Micheal Lind, no livro “The Next American Nation”, publicado com repercussão em 1995, e que – entre muitas coisas – arguia a transformação da América dos iguais numa sociedade dominada por uma overclass, um segmento superior, acima não só de qualquer suspeita e também de constrangimentos e responsabilidades sociolegais, no melhor estilo – como dizia Faoro – dos “donos do poder” brasileiros. Patrões de pura linhagem, como sabemos desde que começamos a dar bananas para a honestidade no uso do poder público e assumimos como verdade verdadeira que tudo deve ser feito em seu poder. Sobretudo a partir de 1889, quando instituímos formalmente a igualdade e começamos a embananar as velhas hierarquias. Entendo que o livro de Lind define sem saber as duas comunidades. A exemplar América, construída pelo calvinismo, para quem a igualdade e a liberdade são fatos autoevidentes. Por ela falam a Estátua da Liberdade, os quadros de Norman Rockwell, as músicas de Irving Berlin e os filmes de John Ford e Frank Capra. Eis uma comunidade cujos ideais são causas perdidas: as únicas – diga-se logo, invocando Capra – pelas quais vale a pena viver. A cada grande crise, a América aciona esses valores impossíveis de serem integralmente concretizados, mas sem os quais não existe democracia liberal. Sobra, porém, um outro lado. São os Estados Unidos que a encarnam num dado território e têm fundamentalismos, dogmas e problemas como todo mundo. A crise integra, e hoje testemunhamos a mistura entre a América e os Estados Unidos; entre os atordoados países modelares e nós, “subdesenvolvidos”. Não é um choque pensar que os chamados “Pais Fundadores” – os Adams, Madison, Jefferson, Franklin – foram pavorosamente substituídos pelos megamalandros que estão na raiz desta crise? E que, afinal de contas, podemos servir de exemplo?

O Globo – 04/03/2009

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