Yoani corre perigo

Fiquei surpreendido com a capacidade de Yoani de responder as calúnias que lhe foram imputadas. Ela é muito mais articulada do que imaginei. No programa “Roda Viva”, da TV Cultura, desmontou argumentos ridículos, deu uma rasteira em entrevistadoras petralhas e enfrentou sem constrangimentos a pergunta típica do jornalismo de segunda, sobre o que ela achava de Fidel e Raul Castro. Era para suar frio e, no entanto, ela foi além do limite que a prudência adverte ao falar dos tiranos. Para quem acompanha os fatos associados com a revolução cubana, pode ter sido sua danação ao retornar a ilha. Os irmãos Castro não toleram que se critique suas atividades. Todos, absolutamente todos em Cuba foram condenados por críticas ao regime. Até caricaturistas sofreram pesadas penas por se aventurarem a fazer uma piada de Fidel.

Significativamente um sinal da derrota imposta as hostes petralhas veio da pergunta da jornalista Laura Capriglione da “Folha de SP”. Disse que quando esteve em Cuba ao perguntar sobre Yoani nas ruas, não encontrou ninguém que a conhecesse. E emendou: “o que você tem a dizer do fato de todo mundo te conhecer no Brasil e você não ser conhecida em Cuba?” Vejam bem, esta é uma pergunta de uma jornalista que sabe que em Cuba só tem uma fonte da informação para todas as mídias que se chama governo. A jornalista disse que combateu o regime militar. Não é, portanto, uma jovem saída da faculdade. E, no entanto, fala como se uma celebridade cubana seja alguma coisa como ser atriz da Rede Globo. Ninguém da Band TV e TV Cultura fez uma pergunta sequer sobre a cultura cubana e seus escritores clandestinos, a dificuldade da vida dos compositores, a favelização da capital e por aí afora.

Ninguém enalteceu uma das culturas mais impressionantes que já apareceu na face da terra e que foi destroçada pelo regime. Se limitaram a falar da agenda petralha que circulava na Internet, a qual Yoani respondeu como uma esgrimista que apara golpes e os devolve na mesma altura, sem perder a postura de mosqueteira da liberdade. A despeito das acusações que circulam na Internet de que ela seja uma agente de Fidel com o mesmo grau de inferência daqueles que dizem ser uma agente da CIA, acho que seu risco de se danar na volta a Cuba é tanto maior quanto mais ela triunfar sobre seus detratores. Pelo menos esta tem sido a lógica na história dos dissidentes. E até agora ela arrasou e tripudiou sobre todos eles. O complexo de vira-lata do brasileiro não vai deixar que uma apóstata escape da vigilância da Nova Inquisição. A repressão cubana que montou o desfile de cães raivosos para assedia-la nos eventos públicos está certamente a par do perigo que representa suas palavras em peregrinação por um mundo onde regimes semelhantes foram destroçados.

De sua passagem pelo Brasil ficou apenas a impressão de que ela é feita do mesmo mistério que algum dia criou o bolero e o neobarroco literário. Um cometa prestes a se despedaçar ao entrar em sua atmosfera doméstica.

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1 comment

  1. Vicente

    Pessoal do Instituto Millenium, vocês precisam de autores melhores pra difundir as suas ideologias…

    Esse texto é muito ruim… e pior, é perene. Se ela voltar pra Cuba e nada acontecer, como é óbvio que não acontece nem acontecerá, todo o fraco argumento deste texto vai por água abaixo…

    Pelamor, arrumem alguém que saiba juntar 2 + 2.