Segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

‘Anjos’ dispostos a correr riscos para apoiar a busca de inovação

Colocar parte das suas economias em um negócio que está apenas começando, com alto risco de insucesso e retorno (se houver) apenas a longo prazo pode parecer uma ideia pouco, ou nada, atraente para o investidor tradicional. Mas é justamente esse tipo de empreendimento que atrai o chamado investidor anjo, que, além de aportar recursos em empresas que estão em fase inicial, as chamadas start-ups, atua como uma espécie de conselheiro para os gestores do projeto.

O investimento anjo, em geral, é voltado para empresas consideradas inovadoras, na maior parte dos casos da área de tecnologia, e que possuam um grande potencial de crescimento. Mas, para que essa promessa se cumpra, é preciso dinheiro, que costuma vir de diferentes anjos. E se a possibilidade de ganhos elevados é grande, a da perda do capital investido também, então a primeira recomendação para quem quer ser um anjo é buscar o aporte recursos em mais de uma empresa — a média está em 3,4 empreendimentos, segundo levantamento da Anjos do Brasil e do Centro de Empreendedorismo da Fundação Getulio Vargas (FGV).

Retorno pode ser elevado

O engenheiro Marco Poli conhece bem esse tipo de investimento. Ele entrou nessa área em 2010, depois de perceber, em sua experiência como empreendedor, as dificuldades de montar uma start-up. Poli, então, decidiu entrar não só com o capital, mas atuar como uma espécie de conselheiro para os empreendedores dos projetos escolhidos. Esse é um conceito conhecido no meio como smart money: o investidor pode apresentar potenciais clientes a esse grupo de empreendedores, ajudar com conhecimento técnico ou vivência profissional de quem já passou por situação semelhante.

— O investimento em uma start-up é de alto risco, já que a chance de falha individual é grande, de mais de 80%. Por isso é importante investir em mais de uma empresa. Porque o retorno, quando acontece, é gigantesco, compensando as perdas dos outros investimentos — diz Poli, que atualmente é anjo de oito empresas.

Para reduzir as chances de perda, ele explica que, além de olhar o potencial da empresa, é primordial analisar a capacidade de execução dos empreendedores que vão tocar o projeto. É uma forma de driblar a falta de resultados da empresa, já que vai levar alguns anos para que estes se materializem.

Marcelo Nakagawa, professor de empreendedorismo do MBA do Insper, também recomenda avaliar quem são as pessoas envolvidas na start-up. Esse é um passo para minimizar as chances de perda, que, pela própria natureza do investimento, são grandes. Para isso, vale entrar em contato com profissionais que já trabalharam com aquele grupo.

Patrimônio razoável

A escolha do negócio em si deve ser feita com base no potencial de crescimento. Os melhores são aqueles com escala global, ou seja, um produto ou serviço que possa ser oferecido em qualquer lugar. Isso porque o investimento anjo só vale a pena se puder dar um alto retorno, e é a escala que fará com que isso se torne realidade.

— O terceiro passo da análise é ter uma estratégia de saída. Além de ver se é um bom negócio, ver como vai sair dele para ter o retorno. Em geral ocorre pela venda. A distribuição de lucros também é possível, mas é um processo menos comum em start-ups. Essa é uma área que está crescendo, mas quem mais se interessa são executivos e empresários — explica Nakagawa.

Apesar do crescimento e maior interesse, a natureza do investimento anjo faz com que este seja limitado a quem tem quantias maiores para investir. Isso porque o risco é alto, e a liquidez, inexistente. O recomendado é investir no máximo 10% de seu patrimônio líquido nessas empresas. A média do investimento inicial em cada uma está entre R$ 30 mil e R$ 100 mil, ou seja, é preciso ter um patrimônio razoável para ser um anjo. Isso explica a média de idade desses investidores, de 44,3 anos.

— Tem muito empresário e profissional liberal. São pessoas com patrimônio, mas não milionárias. Esse anjo não é um investidor puramente financeiro. Ele quer ajudar na construção de negócios inovadores — afirma Cássio Spina, presidente da Anjos do Brasil, rede criada por ele para unir investidores e empreendedores.

Do digital ao mundo físico

A Anjos do Brasil também funciona como um filtro para os investidores. Eles recebem os projetos e avaliam se o negócio é de fato inovador e se tem potencial de crescimento. A partir daí, divulga para os anjos, que vão escolher o projeto de acordo com a afinidade.

Na maior parte dos casos, os empreendedores têm projetos ligados à área de tecnologia. É o caso, por exemplo, do Hand Talk, que converte em tempo real conteúdo de texto e voz para a linguagem de sinais (libras), bem como do Trakto Pro, que auxilia profissionais liberais e freelancers na execução de orçamentos e propostas comerciais. Mas também há projetos inovadores no chamado mundo físico, como a 33/34, destinada a vender sapatos com essa numeração.

Fonte: O Globo

Escreva um comentário

Seu e-mail não será publicado.