Presidente estreia programa de rádio e critica rivais por não participarem de sua conferência de paz, considerada ‘farsa’ e ‘encenação’ por seus opositores

A terça-feira de protestos contra o governo chavista da Venezuela terminou com novos confrontos e a morte de mais um estudante. O universitário Daniel Tinoco foi baleado no peito durante um ato na cidade de San Cristóbal, capital do Estado de Táchira – também ocorreram manifestações na capital Caracas e nos Estados de Lara e Mérida. Com isso, o número de mortos nos protestos iniciados há um mês chegou a 22. Um estudante afirmou à agência Reuters que homens trajando roupas civis, alguns deles com coletes à prova de bala, chegaram em uma caminhonete até perto de uma barricada montada pelos manifestantes e atiraram.

A nova fatalidade provocou uma troca de acusações entre governistas e opositores a respeito da origem da violência nos manifestações. “As mortes não ficarão impunes. Agora, mais que nunca, continuamos na rua”, escreveu no Twitter o líder estudantil Juan Requesens, que mencionou ainda o assassinato de outro estudante, Angelo Vargas, no Estado de Bolívar. Segundo o jornal venezuelano El Universal, porém, a morte de Vargas – de tendência governista – não teria relação com os protestos.

“Eles buscam mortos para provocar a intervenção na Venezuela”, disse o chavista Diosdado Cabello, presidente da Assembleia Nacional, em referência à oposição. Enquanto isso, no mesmo dia o presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, estreou um programa transmitido por todas as rádios estatais e atacou os representantes da coalizão opositora Mesa da Unidade Democrática (MUD) por se recusarem a participar da Conferência de Paz lançada pelo governo em 26 de fevereiro.

“Quero vê-los tête-à-tête, não sejam covardes! Venham se sentar e conversar! Covardes da MUD! É o que nossa pátria quer, renunciem às atitudes violentas, mesquinhas, oposicionistas, obstrucionistas”, afirmou. “A pátria segue seu caminho, agora seguirá sem vocês”, acrescentou o presidente.

Líderes da oposição, como o ex-candidato presidencial Henrique Capriles, anunciaram que não iriam participar da conferência por considerá-la uma encenação. Para Capriles, não há espaço para diálogo enquanto o país estiver em “uma situação de violação de direitos humanos e repressão”. Já o prefeito de San Cristóbal, o opositor Daniel Ceballos, afirmou que os pedidos de diálogo do governo venezuelano são uma “farsa” para “limpar sua barra” com a opinião pública.

Segundo ele, durante os dias dos diálogos de paz na capital de Táchira, “a repressão na cidade não parou, não deixou de chover gás lacrimogêneo, não pararam de aparecer pessoas feridas e presas”. “Não existe diálogo de verdade, o que o governo está fazendo é uma farsa para diminuir a pressão da opinião pública nacional e internacional”, destacou o prefeito, membro do partido Vontarde Popular, o mesmo do dirigente opositor Leopoldo López, detido desde o dia 18 de fevereiro em uma prisão militar.

Investida
Chamado “Em Contato com Maduro”, o programa radiofônico é uma nova investida do herdeiro político de Hugo Chavez nos meios de comunicação, um ano depois de ele ter apresentado, à moda de seu mentor, um programa na TV antes das eleições presidenciais. Maduro declarou na transmissão que não permitirá que novas manifestações sejam realizadas no distrito da capital Caracas. “Enquanto houver ‘guarimba’ (barricadas), o golpe de Estado estiver em vigor, a MUD se negar a dialogar, as manifestações da direita não vão entrar em Caracas”, disse.

Estudantes e opositores convocaram uma manifestação na capital para esta quarta-feira, quando completa um mês dos primeiros grandes protestos contra o governo. O porta-voz da Universidade Católica Andrés Bello (UCAB), Carlos Vargas, afirmou em uma entrevista coletiva que a intenção dos universitários era que esta quarta tivesse “uma massa de estudantes” que têm como objetivo uma luta que classificou como “pacífica” contra o governo venezuelano.

Vargas explicou que o destino final da marcha seria a Defensoria Pública. Segundo ele, a titular desse órgão, Gabriela Ramírez, “calou direta ou indiretamente” seus companheiros e “protegeu as torturas contra eles”. Além das 22 mortes, a onda de protestos que sacode a Venezuela desde o dia 12 de fevereiro teve mais de mil prisões em todo o país, muitas sem qualquer acusação formal.

Fonte: Veja

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