Assistencialismo ainda é a receita de candidatos para ter votos

Candidatos a vereador e a prefeito mantêm projetos sociais para perpetuar seus nomes junto a eleitores

O trabalho social desenvolvido por vereadores resulta em votos certos. Alguns parlamentares já mantinham esse tipo de atividade antes de se candidatarem; outros enxergaram nas ONGs voltadas aos mais carentes uma fábrica de votos. Invariavelmente, os centros criados pelos políticos levam os nomes dos próprios ou de parentes. Uma forma de perpetuar na cabeça do eleitor quem é o seu benfeitor. Associações ou institutos de vereadores atuam onde falta a ação do Estado, como mostra esta reportagem do especial “Raio-X das Câmaras”.

Troca de favores
E pelo Brasil afora não é difícil encontrar a ausência do poder público constituído, dando espaço para a exploração política das dificuldades dos moradores. O eleitor, por sua vez, acaba procurando um lugar onde sabe que será atendido, de graça, num espaço de tempo mais curto e, por vezes, em melhores condições do que nas dependências públicas.

O cientista social Ricardo Caldas, da Universidade de Brasília (UnB), avalia que os vereadores e a população exercitam uma troca. Os eleitores buscam os parlamentares da cidade atrás de demandas pessoais, como empregos para si ou para a família, além de outros benefícios. E os políticos aproveitam para fidelizar seus votos:
— As pessoas recorrem aos vereadores para fazerem demandas pessoais. A função deles fica distorcida.

Em Maceió, o Instituto Galba Novaes, do presidente da Câmara e candidato a prefeito, tem 20 médicos para atender ao público e, às terças-feiras, oferece cortes de cabelo gratuitamente. O vereador Galba Novaes explica que a ONG não leva o seu nome, mas o do seu pai, que é o mesmo dele, com a diferença que tem Castro no final. E o filho de Galba também é candidato a vereador.

Devido às eleições, os políticos têm restrições legais para frequentar o local onde funciona o instituto. Mas na última quinta-feira de julho, um carro da campanha do candidato estava estacionado em frente ao local. Na hora em que a reportagem do GLOBO esteve no endereço, pela manhã, não havia ninguém nas instalações — a explicação é que, no mesmo horário, Galba pai inaugurava um comitê de campanha em outro bairro da capital alagoana. Ou seja, todos do instituto estavam no ato de campanha. Uma placa em frente à ONG informava que às terças-feiras é possível cortar cabelo de graça.

— Temos um trabalho muito forte na área social, e passei muito tempo à frente das duas instituições comandadas por minha família — disse Galba Novaes de Castro Neto, o candidato a vereador.

De acordo com ele, a ONG existe há 12 anos e conta com 20 médicos de diferentes especialidades, além de fisioterapeutas. Também desenvolve um trabalho de apoio às mulheres vítimas de violência, ministra aulas de ginástica e de educação infantil. A verba para financiar esses custos — cujo valor ele não revelou — vem de doações de amigos, quer também não tiveram a identidade informada.

Em Campo Grande, o presidente da Câmara Municipal, Paulo Siufi (PMDB), fundou em fevereiro de 2001, junto a casais da Igreja Católica, a Beneficência de Amigos Reunidos da Criança Amparada, gerida pelo Centro de Educação Infantil Paulo Siufi. A escola que leva seu nome atende 280 crianças entre 0 e 6 anos.

A entidade é presidida pela esposa do vereador, Zeina, e ele é o presidente de honra. A ONG foi reconhecida como de utilidade pública em agosto de 2003 pelo governo do estado, durante gestão do PT. Para aumentar a arrecadação, a ONG recorre a doações e promoções de eventos. Em datas festivas, como o Natal, o vereador dá presentes e cestas natalinas.
Abuso econômico

No Rio, a vereadora Vera Lins (PP) é diretora da fundação Dionísio Lins, nome do marido dela, que é deputado estadual. Em 2010, a Procuradoria Regional Eleitoral do Rio de Janeiro entrou com ação de investigação judicial contra o deputado, candidato à reeleição, acusando-o de abuso econômico, captação ilícita de votos e conduta vedada. De acordo com a Procuradoria, Dionísio Lins se valia dos três centros de sua fundação para angariar votos, transformando-os em “verdadeiros currais eleitorais”, segundo a denúncia.

Na sede da fundação foram apreendidas, entre outros itens, listas com mais de três mil nomes de alunas, em alguns casos com seus números de título de eleitor, zona e seção eleitorais e fichas de filiação não preenchidas com o timbre do PP, seu partido.

Desde que vieram à tona escândalos sobre desvio de recursos públicos pelas fundações e ONGs mantidas por políticos, nos anos 90, ficou mais difícil identificar os verdadeiros responsáveis por essas entidades. O nome do político desapareceu da entidade e das fachadas de suas sedes, na maioria dos casos, mas não significa que a atividade “filantrópico-eleitoral” dos políticos tenha diminuído.

Fonte: O Globo

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