Bernardo Santoro: “Aumento do consumo não é demonstração de riqueza”

Por Bernardo Santoro

Um dos assuntos mais comentados da semana foi a discussão entre Diogo Mainardi e Luiza Trajano sobre a economia brasileira em geral e sobre a saúde do setor varejista brasileiro em especial. O jornalista expôs alguns motivos pelos quais a economia brasileira vai mal. A empresária argumentou que a economia brasileira vai bem ao comprovar o crescimento do setor varejista. A pergunta que fica é: a empresária tem razão e o Brasil está mais rico?

Quando um cidadão comum, como você, leitor, consome todo o dinheiro que ganhou em um mês, o extrato bancário do dia 30 deixa claro que não houve enriquecimento. Mas, quando sobram R$ 10 mil, o extrato bancário deixa claro que o cidadão, ao fim daquele mês, ficou mais rico. Pode ser ainda que a conta bancária esteja zerada porque o cidadão investiu em um imóvel ou em ações. Aquele dinheiro, o imóvel e as ações devem ser entendidos como poupança, e poupança – não o consumo – é o verdadeiro indicativo de que houve enriquecimento.

A grande função da poupança, para fins de crescimento exponencial da economia, é seu uso como investimento em avanços tecnológicos. Quanto mais avançado tecnologicamente um país, mais bens e serviços ele produz, e mais poupança é gerada.

A política econômica do governo petista, acentuada no período Dilma, superestimula o consumo na tentativa de acelerar o processo de crescimento econômico

O ciclo real de crescimento econômico funciona, então, através do seguinte paradigma: “produção – poupança – investimento – avanço tecnológico – aumento da produção”. Essa é a ordem lógica das coisas, e o consumo, sem estímulos externos ao mercado, aumenta com sustentabilidade na medida em que se aumenta a produção e a poupança.

A política econômica do governo petista, acentuada no período Dilma, superestimula o consumo na tentativa de acelerar o processo de crescimento econômico. Como é o avanço tecnológico que cria saltos de produtividade, e isso não ocorre no Brasil dados o precário nível educacional, a péssima infraestrutura e a baixa poupança interna, o resultado é um crescente endividamento das famílias e do próprio Estado brasileiro, cujo déficit de caixa já ultrapassa R$ 2 trilhões.

Sob uma perspectiva de longo prazo, portanto, essa política é uma tragédia, já que a poupança brasileira estará eternamente condenada a ser usada para o pagamento da dívida pública. Mas no curto prazo é uma excelente política eleitoral, pois o consumo superestimulado cria uma imensa sensação fictícia de bem-estar e enriquecimento para o povo. Além disso, favorece certos setores da economia ligados ao consumo, como o setor varejista, transferindo de fato a poupança nacional e o que se arrecada em títulos da dívida pública para empresários que se tornam, logicamente, defensores do governo.

O grande equívoco do jornalista Mainardi foi ter negligenciado a explicação do quadro econômico geral do Brasil para focar especificamente no setor varejista, um dos grandes vencedores da política de deterioração fiscal e econômica do governo, o que possibilitou à empresária a utilização de um expediente de retórica conhecido como “salto indutivo”, que é comprovar o sucesso de um caso particular para tentar iludir os ouvintes de que a ideia geral também é um sucesso.

O que a empresária com boa retórica esquece é que, quando o endividamento nacional chegar a um nível insustentável, nem mesmo o seu setor varejista crescerá mais. Esse modelo econômico precisa ser repensado imediatamente para que toda a economia brasileira, não só o varejo, possa se desenvolver com sustentabilidade.

Fonte: Gazeta do Povo

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