Quarta-feira, 7 de dezembro de 2016
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Brasil cai 18 posições em ranking de competitividade

O aumento dos gastos do governo, a incapacidade de fazer o ajuste fiscal, a crise política e a corrupção investigada pela operação Lava Jato contribuíram para que o Brasil perdesse 18 posições no ranking global de competitividade, de acordo com o Relatório Global de Competitividade do Fórum Econômico Mundial, e atingisse sua pior posição na série histórica. Na edição 2015/2016 do levantamento, o país aparece na 75ª posição entre 140 nações, frente ao 57º lugar ocupado no levantamento anterior. Em 2012, o Brasil chegou a ocupar a 48ª posição no ranking, seu melhor desempenho considerando a atual metodologia do ranking.

— O país foi o que mais perdeu posições no ranking porque sofre com a deterioração de fatores básicos para a competitividade, como falta de confiança nas instituições, situação das contas públicas, incapacidade de inovar e problemas com o sistema de educação – diz Carlos Arruda, coordenador do Núcleo de Inovação da Fundação Dom Cabral que coordena a pesquisa no Brasil.

Na atual posição, o Brasil aparece com a menor competitividade entre os Brics, grupo de nações emergentes integrado por Rússia (45ª posição no ranking), China (28ª), Índia (55ª) e África do Sul (49ª). Já em relação aos países da América Latina, o Brasil só está à frente de Argentina (106ª), Bolívia (117ª), Paraguai (118ª), Venezuela (132ª). Mesmo sendo a sétima maior economia entre os 140 países do ranking, o Brasil perde em competitividade para países pequenos como o Uruguai (73ª posição) e o Chile (35º colocado).

Segundo Arruda, há fatores conjunturais como o baixo crescimento econômico e a crise política, que começaram a se evidenciar desde o ano passado. Mas há problemas estruturais de longa data que já vem sendo apontados nos últimos levantamentos e continuam empurrando o país para a parte inferior do ranking. Entre eles, estão o sistema tributário inadequado, falta de um marco regulatório, infraestrutura deficiente, baixa produtividade e educação de má qualidade.

— Perdemos a oportunidade de fazer reformas importantes no anos 2000 e tudo isso resulta numa economia frágil, incapaz de promover avanços na competitividade doméstica e internacional – diz Arruda.

As entrevistas com 197 executivos do país, que são a parte opiniativa do levantamento, foram feitas entre março e maio deste ano. Já as estatísticas referentes à situação econômica, educacional e saúde, entre outras, de cada país são dados referentes a 2014. Os resultados mostraram que o Brasil ‘andou para trás’ em nove dos 12 pilares que garantem competitividade aos países. O Brasil foi mal avaliado no pilar “instituições” e as questões éticas nas relações entre o setor público e privado, além da corrupção, foram citados como fatores de desconfiança do Estado. No quesito ‘ambiente econômico’, a percepção negativa foi ainda maior com os entrevistados citando como problemas o déficit do orçamento do governo.

— O aumento de gastos do governo, a perda de controle do orçamento evidenciam um modelo estrutural que é inviável no longo prazo, com a deterioração rápida das contas públicas e a incapacidade política de se fazer o ajuste fiscal – diz Arruda.

No capítulo da educação, o levantamento mostrou perda de qualidade geral na educação primária e redução das matrículas. Em relação ao ensino superior, há deficiências na disponibilidade e na qualidade das instituições que apoiem o desenvolvimento e o treinamento técnico e profissional. Em relação ao mercado de trabalho, o Brasil tem dificuldades em atrair e reter talentos.

— No Brasil, adotamos o modelo de crescimento pela via da manutenção do emprego e do estímulo ao consumo. Educação não é prioridade. É preciso repensar esse modelo, inclusive pelo aspecto econômico, ou vamos comprometer nossa competitividade futura – diz o pesquisador da Fundação Dom Cabral.

No quesito mercado financeiro, a pesquisa apontou que há pouca disponibilidade de crédito com a piora dos acessos aos financiamentos. Entre as variáveis que medem a inovação, o país recuou em itens como capacidade de inovar, qualidade das instituições científicas, gastos em pesquisa e procura do governo por produtos tecnológicos avançados.

— Isso se explica pela crise econômica, já que empresas e governos cortam gastos. Mas é preocupante porque os países mais competitivos são os que mais vêm incorporando tecnologia em seus processos produtivos – explica Arruda.

A pesquisa também perguntou aos executivos quais as maiores barreiras para se fazer negócios no país. No Brasil, a grande quantidade de impostos foi apontada como o maior entrave, seguida por leis trabalhistas restritivas, corrupção, infraestrutura ineficiente e burocracia.

No topo do ranking, pelo sétimo ano consecutivo, ficou a Suíça. O país é apontado pelo levantamento como líder em inovação, com excelente sistema de educação e mercado de trabalho eficiente. Na segunda posição, ficou Singapura, seguida de Estados Unidos, em terceiro, e Alemanha, em quarto. No quinto lugar, veio a Holanda e, em sexto, o Japão. Hong Kong aparece em sétimo, Finlândia está em oitavo e Suécia e Reino Unido aparecem em nono e décimo, respectivamente.

— Os países mais competitivos têm em comum o fato de nutrir, atrair, apoiar e desenvolver talentos – diz Arruda, lembrando que o relatório aponta um ritmo menor de crescimento global desde 2009. Segundo estimativa do órgão, a expansão será de 3,3%.

Com baixo crescimento de sua produtividade, taxa de desemprego crescente e retração da economia prevista para este e para os próximos anos, o Brasil corre o risco de entrar num círculo vicioso.

— Temos ainda baixo investimento, instabilidade econômica e instituições degradadas. Para sair dessa situação de piora contínua, não há como fugir de reformas fiscais e controle do orçamento do governo. O risco inflacionário, com a elevação do déficit público e a desvalorização cambial é uma receita para um círculo vicioso. O desafio do Brasil é investir em setores exportadores de produtos com maior valor agregado, em lugar das commodities, e em acordos bilaterais em vez dos multilaterais – observa Arruda.

Fonte: O Globo.

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