Brasil defende Argentina na ONU

Durante a defesa da Argentina feita pelo ministro da Economia do país, Axel Kicillof, nas Nações Unidas, o embaixador do Brasil no órgão, Antonio Patriota, manifestou seu apoio ao país na disputa judicial contra os chamados “fundos abutres”. Kicillof foi à ONU a convite do G-77, grupo de países em desenvolvimento, para falar sobre a crise da dívida argentina, detonada pela decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, na semana passada, de que o país tem de pagar US$ 1,5 bilhão a um grupo de credores. Kicillof alertou para o risco de calote pelo país.

— O caso dos “fundos abutres” expõe a irracionalidade de decisões judiciais domésticas, com implicações sistêmicas no plano internacional — afirmou Patriota.

Ele defendeu ainda que a ONU estude maneiras de responder aos problemas enfrentados pela Argentina, bem como de evitar que o setor privado se comporte “de forma insensível e insustentável”.

— Essa decisão (da Suprema Corte) nos empurra para uma situação de calote técnico. Para o sofrimento do povo argentino — disse Kicillof na ONU.

Aos membros do G-77, Kicillof disse que a Casa Rosada ainda não tem uma resposta do juiz de Nova York Thomas Griesa sobre o pedido de uma liminar suspendendo a decisão. Na próxima segunda-feira, a Argentina tem de pagar um vencimento de bônus, no total de US$ 900 milhões, e teme que os “fundos abutres” embarguem esses recursos. Segundo o ministro, não se pode aceitar “que em três dias um país não tenha outra opção além de ter uma dívida nova de US$ 15 bilhões ou US$ 120 bilhões” — que poderia resultar de novas demandas de credores.

— A Argentina quer continuar pagando mas não deixam, é um caso insólito — disse Kicillof. — A Argentina pediu para negociar de boa-fé, e solicitamos uma suspensão da sentença para poder ter uma negociação justa e equilibrada.

Dirigindo-se aos presentes, ele perguntou se a decisão de Griesa “não era uma maneira de derrubar uma reestruturação bem-sucedida”.

E os problemas da Argentina não terminam aí. Segundo o jornal “La Nación”, um grupo de credores italianos pode obter uma sentença favorável no tribunal arbitral do Banco Mundial, no valor de US$ 2,7 bilhões. O caso se arrasta desde 2006. O grupo é formado por cerca de 50 mil detentores de bônus, liderados por Nicola Stock.

Preocupados com essa possível decisão, funcionários da Secretaria de Finanças, liderados pelo advogado Matías Isasa, foram a Washington, onde fica a sede do Banco Mundial. Segundo fontes informaram ao “La Nación”, eles depois foram a Nova York, para negociar com representantes dos “fundos abutres”.

Não há acordo, dia mediador

Uma fonte que participou das audiências no Banco Mundial disse ao jornal argentino que as perguntas “foram muito duras e fazem prever uma decisão negativa para o governo”. O painel, integrado por um árbitro holandês, um suíço e um espanhol, terminará as audiências esta semana. Stock declarou estar otimista sobre a decisão, que deve sair nas próximas semanas.

Stock disse ainda que a decisão da Suprema Corte dos EUA em favor dos “fundos abutre” aumentou a disposição do grupo de negociar com a Argentina. “Se houver acordo, será mais fácil para que o país receba investimentos e volte a crescer”, explicou ele ao “La Nación”.

Com relação à negociação com os “fundos abutre”, o mediador designado pelo juiz Griesa, Daniel Pollack, afirmou nesta quarta-feira que ainda não há acordo. Ele explicou ter se reunido pessoalmente com ambas as partes na terça-feira e que, além disso, todos têm mantido contato telefônico. Pollack disse ainda que o teor das conversas é confidencial.

Críticas aos EUA

A decisão de Griesa recebeu críticas da imprensa internacional. No jornal britânico “Financial Times”, o colunista Martin Wolf afirmou nesta quarta-feira que, se o governo for obrigado a pagar o que deve aos “fundos abutres”, o povo argentino é que vai arcar com as consequências. “Isso é uma extorsão apoiada pelo Poder Judiciário dos Estados Unidos”, argumentou, recorrendo ao mesmo termo usado por Cristina Kirchner quando a Suprema Corte anunciou sua decisão.

E na revista “Foreign Affairs”, Felix Salmon foi duro: “Não há muitas instituições poderosas o bastante para colocar uma nação soberana de joelhos. A maior parte delas maneja seu poder com muito cuidado; as demais são fundamentalistas perigosas. Na semana passada, a Suprema Corte americana deu a entender que se enquadra na segunda categoria.”

Fonte: O Globo.

 

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