Brasil pode ganhar casas para escritores estrangeiros perseguidos

Grupo brasileiro, em parceria com ONG norueguesa que atua em mais de 40 cidades do mundo, quer colocar o país no mapa dos locais de refúgio para autores ameaçados

O poeta Mohsen Emadi, de 37 anos, deixou o Irã no dia 11 de agosto de 2009. Ele passara dois meses lutando nas ruas, entre tiros e bombas de gás lacrimogêneo, naquele que ficou conhecido como Movimento Verde. O grupo questionava o resultado das eleições de junho daquele ano, com a vitória do conservador Mahmoud Ahmadinejad sobre o reformista Hossein Mousavi. Envolvido em atividades culturais críticas ao regime dos aiatolás desde a juventude, ele sabia que a prisão era uma possibilidade real.

Depois de rodar por Finlândia, República Tcheca e Espanha, ele desembarcou em 2012 na Cidade do México, por enquanto a única cidade latino-americana a fazer parte da ICORN (Rede Internacional de Cidades de Refúgio, na sigla em inglês), uma ONG sediada na Noruega que oferece casas para escritores perseguidos em seus países em mais de 40 cidades do mundo, principalmente nos países escandinavos. Por enquanto, porque está em estudo a Casa Brasileira de Refúgio (Cabra), organização que vai articular a criação de residências para artistas em cidades brasileiras.

Quem está à frente do projeto no Brasil é a francesa Sylvie Debs, professora da Universidade de Estrasburgo, e o escritor e presidente do PEN Club do Brasil, Cláudio Aguiar. Sylvie tem uma relação de longa data com o país: é estudiosa do cinema e da literatura nacional e trabalhou, de 2006 a 2010, como adida cultural da França em Belo Horizonte. Foi após deixar a capital mineira e assumir um posto semelhante na Cidade do México, onde ficou até 2013, que ela acompanhou de perto o trabalho da ICORN.

— A ICORN faz um acordo diretamente com as prefeituras para que o escritor perseguido tenha um lugar para morar e ganhe uma bolsa para conseguir se manter. O período máximo de permanência é de dois anos, uma ajuda para que o artista consiga recomeçar sua vida em um novo país — afirma Sylvie. — O papel da Cabra será promover essa articulação entre a ICORN e os governos, cuidar da parte burocrática de vistos de permanência e incluir o escritor na vida literária do país, através de traduções e participações em festivais, por exemplo.

A seleção dos escritores acolhidos é feita pelo PEN Club Internacional, em Londres. A ICORN recebe os pedidos dos artistas e o PEN avalia se o candidato sofre perigo real, analisa seu perfil e decide para qual casa disponível ele será encaminhado. O problema é que a demanda é muito maior do que a oferta. No ano passado, 71 escritores se candidataram, mas só 13 foram aceitos.

Emadi, que chegou ao México sem conhecer quase ninguém, destaca a ajuda que o exilado recebe para se adaptar à nova vida. Hoje, ele trabalha intensamente na tradução para o persa de diversos poetas latino-americanos, como o argentino Juan Gelman, o peruano César Vallejo e o brasileiro João Cabral de Melo Neto.

— Quando cheguei ao México não conhecia quase ninguém, mas a equipe foi maravilhosa. Me apresentaram a escritores, me levaram a festas. Em poucos meses eu já conhecia bastante gente e tinha feito novos amigos — conta o poeta, que participou de um debate da Festa Literária das Periferias (Flupp), em Curitiba, além de encontros no Rio de Janeiro e em Ouro Preto, esta semana.

As conversas para colocar o Brasil no mapa das cidades de refúgio começaram em janeiro e andaram rápido. Neste primeiro momento, a busca ainda é por parceiros para a empreitada, com foco nas festas literárias que ocorrem no país. A vinda de Mohsen Emadi para a Flupp foi um primeiro passo nessa direção. Sylvie e Aguiar apontam Ouro Preto, Olinda e Teresina como fortes candidatas a receberem as primeiras casas para escritores refugiados, talvez ainda neste ano.

— Nós vamos entrar em contato com o Ministério da Justiça para fazer tudo de acordo com a legislação brasileira. A Cabra vai dedicar esforços também para trazer autores africanos para cá. O Brasil tem toda condição de fazer a interlocução com essa parte do mundo — diz o presidente do PEN Club.

Fonte: O Globo

RELACIONADOS

Deixe um comentário