Longe das capitais e do olhar atento de muitos empreendedores, o interior brasileiro parece sofrer menos com a desaceleração econômica do país.

Dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostram que o interior ultrapassou as capitais na criação de empregos formais desde 2013. De janeiro a setembro deste ano, foram 412 mil postos de trabalho gerados fora dos grandes centros dos nove principais estados, quase o dobro dos 227 mil cargos observados nas zonas metropolitanas.

Uma estimativa do Boston Consulting Group (BCG) afirma que este ‘Brasil profundo’ deve responder por quase metade do consumo adicional das famílias até 2020. Segundo o instituto, o consumo nacional deve crescer R$ 307 bilhões em seis anos. Desse montante, R$ 141 bilhões serão gastos no interior, contra R$ 83 bilhões nas capitais e outros R$ 83 bilhões nas áreas metropolitanas.

O levantamento também indica que a população fora dos grandes centros está mal servida, já que durante muito tempo esse contingente foi considerado disperso e difícil de alcançar. Das 98 cidades com mais de 5 mil famílias consideradas ricas, apenas 38 tinham concessionárias de carros de luxo, por exemplo. Além disso, o brasileiro do interior ainda gasta 19% menos com serviços pós-pagos de telefonia celular e 45% menos em educação privada do que nas capitais.

Para Olavo Cunha, sócio do BCG e coautor do estudo, esse mercado é interessante para pequenos e médios por dois motivos. Primeiro, ele não foi ainda abocanhado pelos grandes. Segundo, porque a profissionalização desses lugares vai gerar uma demanda forte por serviços. “Para quem está na capital, a experiência do ambiente competitivo e o repertório de negócios pode ser uma vantagem em relação aos empreendedores locais”, afirma.

O estudo mapeia uma lista de cidades com crescimento atrativo, em geral motivadas por ondas de investimentos em áreas estratégicas, como na mineração ou no agronegócio. Ao redor de si, essas regiões criam uma espécie de ‘bolsão’ de renda. E o empresário que tem receio em migrar seus negócios para o interior pode correr atrás desse filão, seja focando no consumo final ou no fornecimento de produtos e serviços para as grandes empresas instaladas.

Um exemplo de como esse movimento opera na prática pode ser conferido em Rio Grande, no extremo sul do Rio Grande do Sul. Ali, o surgimento do polo naval em 2006 fez com que o PIB saltasse de R$ 3,4 bilhões naquele ano para R$ 8,2 bilhões em 2011, segundo o IBGE. Diversas indústrias se instalaram na cidade, trazendo consigo mão de obra especializada. Uma delas foi a Megasteam, de Porto Alegre. Segundo o diretor comercial, Gilvan Teixeira, a empresa que trabalha com inspeção e testes de válvulas e instrumentos percebeu a movimentação do polo e correu atrás das certificações necessárias para trabalhar para empresas lá estabelecidas, como Petrobrás. Hoje, cerca de 19% do faturamento de R$ 22 milhões referente a 2013 provém da cidade litorânea. “No ano que vem, nossa expectativa é que o faturamento ali dobre em função dos investimentos que já estão chegando.”

Cuidados

Para o presidente do Sebrae, Luiz Barretto, embora o interior ofereça menos concorrência, alguns cuidados precisam ser tomados. Além da pesquisa prévia, para compreender os hábitos locais, e do aumento de custos, como de logística, pode haver dificuldade para encontrar mão de obra especializada. “As grandes cidades têm escala. É preciso botar tudo isso na balança”, diz.

Uma das saídas, ele aponta, é procurar a parceria de um empreendedor local, alguém que te ajude na ‘aclimatação’. “Um sócio da cidade conhece os hábitos da população e faz parte da comunidade. Isso é importante em cidades menores”, afirma Luiz Barretto.

Fonte: O Estado de S.Paulo.

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