Brasil tem 59,4 milhões de inadimplentes, mostra pesquisa

Desemprego e queda na renda são apontados como as principais causas

A cabeleireira Sandra Rita dos Santos, de 38 anos, viu sua renda cair pelo menos 40% nos últimos meses com o movimento mais fraco do salão de beleza onde trabalha em São Paulo. O resultado foi o atraso nas contas de casa. Seu nome não está “negativado” na praça, já que ela não deixa as contas atrasarem três meses consecutivos. Mas ainda está no vermelho.

“Minha renda caiu em torno de R$ 800. Atrasei o pagamento de contas como telefone e internet por pelo menos dois meses, desde março passado. Ainda não consegui colocar tudo em dia. Mas não deixo passar três meses consecutivos para não ficar negativada”, conta Sandra.A cabeleireira se enquadra no perfil do brasileiro inadimplente, segundo pesquisa inédita do Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil) e da Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL). O levantamento mostra que há no país hoje 59,4 milhões de pessoas com o CPF negativado — o que significa que o nome já foi parar nas listas de inadimplentes, após 90 dias de atraso. Em janeiro, eram 58,3 milhões de inadimplentes. A dívida média em atraso é de R$ 2.980, mas 43% não sabem ao certo o quanto devem.

Mesmo com sinais de melhora da economia, como a geração de vagas formais de trabalho (no primeiro semestre foram criados 67,3 mil postos, segundo o Ministério do Trabalho), o desemprego (26%) e a queda na renda (14%) ainda são apontados como os principais fatores da inadimplência. A falta de controle financeiro (11%) e o empréstimo do nome a terceiros (5%) também aparecem como causas.

Segundo o SPC Brasil, a maioria dos inadimplentes é de mulheres (56%), reflexo da população do país. Por faixa etária, a maior concentração de calotes está na faixa entre 25 e 49 anos, que detém 65% da amostra. E nove em cada dez inadimplentes pertencem às classes C, D e E (93%), enquanto os 7% restantes são das classes A e B.

“Mesmo com inflação abaixo de 3% e queda nos juros, o brasileiro ainda não sentiu no bolso os efeitos desse processo. O desemprego continua elevado, e a renda segue deprimida, afetando a vida financeira das pessoas”, diz Marcela Kawauti, economista-chefe do SPC Brasil.

O estudo revela ainda que, de cada dez endividados, cinco (48%) não creem que conseguirão pagar nem parte das pendências nos próximos três meses.

“Houve um impacto grande da crise no setor de serviços, onde muita gente das classes C, D e E trabalha informalmente. O resultado foi a diminuição da renda”, comenta Maurício Prado, diretor executivo da Plano CDE, empresa que pesquisa esse segmento da população.

Ele observa que as pessoas fazem uma “seleção das dívidas”. A pesquisa do SPC mostra que, entre os compromissos prioritários, estão os considerados básicos, como plano de saúde (93% dos que têm esse compromisso), condomínio (89%) e aluguel (84%). As contas que mais estão em atraso, mesmo sem ter gerado negativação do CPF, são as de juros mais elevados, como cartão de loja (84% entre os que têm essa conta), empréstimo em banco ou financeira (74%), cartão de crédito (74%), cheque especial (72%) e crediário (67%).

A pesquisa revelou que os inadimplentes atrasam até mesmo o pagamento de compras de supermercado, responsável por 31% das contas não pagas e feitas com cartão de crédito, cartão de lojas, cheque ou crediário. Em primeiro lugar está a compra de roupas, calçados e acessórios, com 60% das respostas.

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