A cada dia, duas unidades de saúde do município do Rio suspendem atendimento

Município já interrompeu serviços médicos 552 vezes este ano devido à violência

A Secretaria municipal de Saúde informou nesta segunda-feira que, de 1º de janeiro a 30 de setembro, unidades de sua rede fecharam as portas 552 vezes por falta de segurança — o que corresponde a uma média de duas interrupções por dia no atendimento à população. No ano passado, no mesmo período, foram 380 paralisações, chamadas pela prefeitura de “episódios vermelhos”. Houve ainda 1.246 registros classificados de “amarelos”, ou seja, situações em que atividades externas de médicos e enfermeiros são suspensas por causa da violência. O levantamento veio à tona um dia após um cirurgião da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) da Maré ter sido sequestrado por uma quadrilha para socorrer um traficante baleado.

Os códigos vermelho e amarelo fazem parte de um protocolo do Comitê Internacional da Cruz Vermelha implantado na rede municipal de saúde desde 2009. Cada cor está relacionados a um treinamento específico: médicos, enfermeiros e funcionários de apoio são preparados para enfrentar vários tipos de situações que oferecem riscos à própria equipe e aos pacientes. Apesar de serem seguidas à risca pelos profissionais, as orientações de segurança não foram suficientes para evitar o fechamento definitivo de uma unidade no Complexo do Alemão.

Uma equipe da Clínica da Família Palmeiras, que funcionava em uma das estações do teleférico do Alemão, realizavam uma atividade, inclusive com a participação de crianças, quando teve início um tiroteio entre bandidos e policiais militares, que se abrigaram na unidade. Dezenas de pessoas ficaram na linha de tiro. Segundo a Secretaria municipal de Saúde, após o incidente, que ocorreu em dezembro do ano passado, os funcionários foram transferidos para outros centros de atenção básica da região.

Em nota, a Secretaria municipal de Saúde destacou que vem cumprindo sua obrigação legal de levar seus serviços à população, inclusive mantendo o atendimento médico nas comunidades carentes que mais precisam de assistência. Além disso, o órgão também frisou que segurança pública é uma atribuição do estado. O secretário estadual de Saúde, Luiz Antônio Teixeira Júnior, reconheceu que o problema da violência está afetando gravemente o funcionamento de clínicas e hospitais de toda a rede pública.

— Nessas últimas semanas, a UPA da Rocinha precisou ser fechada em vários momentos, em função dos confrontos na região. Temos que brigar para que essas unidades, que funcionam em locais onde as pessoas mais precisam, continuem abertas. Mas, independentemente da vontade do governo estadual ou municipal, os profissionais já não querem mais trabalhar em áreas conflagradas. Essa guerra urbana afeta todo mundo — afirmou o secretário.

Uma profissional de enfermagem de uma UPA da Zona Oeste — que, por razões de segurança, pediu para não ser identificada — disse que o medo vem marcando os plantões da madrugada na unidade:

— Bandidos entram com comparsas intoxicados por cocaína e mostram que estão armados. Uma vez, um menor que se drogou num baile morreu na UPA, e um grupo de dez bandidos batia nas paredes e gritava que ele precisava viver. Foi um inferno.

Com apenas porteiros trabalhando na entrada das UPAs, médicos e enfermeiros sofrem ameaças constantemente.

— Na UPA em que trabalho sequer há porteiro de madrugada, já que os salários dessa categoria deixaram de ser pagos. A entrada da unidade é tomada por mendigos e usuários de crack, que dormem nos bancos — contou um profissional que trabalha na Zona Norte.

SEQUESTO FOI “OPERAÇÃO DE GUERRA”

“Foi uma operação de guerra”. Assim o delegado Wellington Vieira, titular da 21ª DP (Bonsucesso), descreveu o sequestro de um cirurgião da UPA do Complexo da Maré, na madrugada de domingo, para o atendimento de um traficante baleado. Segundo testemunhas, cerca de 50 homens participaram da ação: eles invadiram a unidade, renderam todos os funcionários e chamaram uma ambulância, que, de acordo com investigadores, levou dois integrantes do bando, o médico e o bandido ferido para uma clínica na Baixada, provavelmente no município de Queimados.

— Ainda não sabemos quem era o bandido. Pode ter sido o TH (Thiago da Silva Folly, um dos chefes do tráfico na Maré) ou alguém de destaque na hierarquia da quadrilha. Só isso justificaria uma mobilização como a que foi feita, uma verdadeira operação de guerra. Foi uma ação desesperada e ousada — disse o delegado.

O médico sequestrado prestou depoimento ontem na 20ª DP (Vila Isabel). Ele contou que, enquanto prestava os primeiros socorros ao traficante, baleado em um braço, recebia ordens para operá-lo. Como o projétil havia rompido uma artéria e o ferido sangrava muito, o cirurgião disse à quadrilha que era necessário levá-lo rapidamente a um hospital. Poucos minutos depois, um dos criminosos avisou que uma ambulância já estava chegando.

Sem saber o que estava acontecendo, a central de atendimento da rede municipal de saúde acionou um motorista que fazia plantão na UPA do Engenho Novo. Quando a ambulância entrou no pátio da unidade da Maré, o motorista foi retirado à força do veículo e obrigado a entregar seu uniforme para um bandido, que o vestiu e assumiu a direção. Um outro criminoso também entrou no veículo, que rodou quase 50 quilômetros, passando pela Rodovia Washington Luís. O médico ficou seis horas sob poder dos bandidos.

Agentes da 21ª DP estiveram ontem em três clínicas de Queimados. O diretor de uma delas será intimado para comparecer à delegacia.

Fonte: “O Globo”

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