Cidades terão papel crucial no aumento da produtividade no Brasil

Doutor em economia pela universidade de Chicago, o colombiano Daniel Gómez Gaviria é responsável pela área de competitividade do Fórum Econômico Mundial, instituição que, além de organizar encontros em Davos, produz respeitados estudos e rankings. Gómez Gaviria esteve recentemente no Brasil a convite da Comunitas, ONG criada pela ex-primeira-dama Ruth Cardoso, para falar de planejamento de longo prazo nas cidades, um dos focos do Fórum Econômico Mundial.

Exame – Qual é o principal conselho que o senhor daria aos prefeitos brasileiros que vão assumir em 2017?
Daniel – O objetivo deve ser aumentar a competitividade. O primeiro passo é fazer uma análise. Usando os rankings disponíveis, qual é a posição da cidade? Quais são os pontos fortes e os fracos? Uma vez feito isso, é preciso definir as prioridades e ter um plano para garantir a execução.

Exame – Cidades conseguem ganhar competitividade?
Daniel – É preciso ter claro o significado de competitividade. Para nós, quer dizer um grupo de fatores e condições que aumentam a produtividade da economia. Isso inclui desde a elevação da qualidade das instituições até o reforço da infraestrutura.

Exame – Esses temas não são, em muitos casos, da alçada do governo estadual ou do federal?
Daniel – Em alguns casos, é verdade que os prefeitos têm pouca ou nenhuma margem de manobra. Um exemplo disso é a política macroeconômica. Mas em vários outros temas eles podem fazer muito. Falo do combate à corrupção, da diminuição da burocracia, da melhoria da infraestrutura, do aumento da qualidade dos serviços de saúde e de educação… Até mesmo na área do trabalho os prefeitos podem ajudar.

Exame – Mas as mudanças nas leis trabalhistas não dependem de votação no Congresso?
Daniel – É verdade. Ainda assim, as prefeituras podem montar um sistema para que as empresas em busca de mão de obra encontrem os profissionais certos.

Exame – Qual é a área em que as cidades podem ter um papel mais relevante?
Daniel – Sem dúvida é na área de sofisticação do ambiente de negócios e de estímulos à inovação. Esses fatores dependem de um ecossistema e da cooperação entre instituições. Um bom exemplo é o que acontece em Medellín, na Colômbia. Lá foi criado um comitê entre prefeitura, universidade e empresas. Um dos resultados foi a criação de uma rede de apoio a startups. A tecnologia também tem um papel importante como ferramenta para o poder público.

Exame – O senhor se refere ao uso de aplicativos para aumentar a qualidade dos serviços públicos?
Daniel – Exatamente. Quando a população usa apps que medem, por exemplo, o tempo de espera em postos de saúde, isso ajuda o governo a identificar gargalos. Estamos até mudando um pouco a metodologia do nosso ranking de competitividade. Vamos passar a medir melhor o impacto da tecnologia, inclusive no serviço público. Trata-se de um esforço para mensurar as transformações da atual revolução digital.

Exame – De que outras maneiras as cidades podem tirar proveito da tecnologia?
Daniel – Os prefeitos e os funcionários públicos não precisam mais ser a única fonte de soluções. Hoje é possível uma prefeitura informar o tipo de problema que quer resolver e pedir a pessoas e empresas que apresentem soluções. Tudo online.

Fonte: “Exame”, 17 de dezembro de 2016.

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