A universitária Bruna Coelho, de 22 anos, trabalha num escritório de Engenharia, mas vende bolos para complementar a renda mensal. Com o trabalho de confeitaria, a moradora de São Gonçalo, na Região Metropolitana do Rio, acrescenta cerca de R$ 2.500 ao rendimento com encomendas feitas pela internet. O peso das contas em casa e a necessidade de pagar a mensalidade da faculdade fizeram com que a jovem investisse em outra atividade. Essa é a realidade de um em cada quatro trabalhadores da classe C (42%), que precisam fazer bicos para honrar as contas — como mostra uma pesquisa do Data Popular.

— Eu tinha que terminar os estudos, sem comprometer todo o meu salário. A saída foi investir num segundo trabalho, fazendo bolos para vender. Não nego que a rotina é cansativa, mas é recompensadora— contou Bruna.

A necessidade de ter uma renda extra vem, principalmente, do agravamento da crise atual — com inflação acima da meta, juros altos e baixo crescimento econômico.

— A classe C teve acesso a uma nova forma de consumo, mas, agora, com esse cenário desfavorável, é preciso procurar outras fontes de renda para continuar com os hábitos adquiridos. Além disso, o salário real só diminui, com tantos aumentos nas contas básicas neste ano — explicou o presidente do Instituto Data Popular, Renato Meirelles.

Orçamento familiar

Ainda de acordo com a pesquisa, 62% das pessoas que não têm um rendimento mensal fixo procuram um trabalho autônomo para arcar com as despesas.

— Esse é o caso, por exemplo, da dona de casa que antes não trabalhava e era sustentada pelo marido, mas, agora, precisa procurar uma atividade para ajudar no orçamento — disse Meirelles.

Assim como Bruna, a analista de marketing Eliane Nascimento, de 45 anos, arregaçou as mangas e, nos fins de semana, trabalha como manicure. Mãe de duas crianças, a moradora do Andaraí conta que é difícil fazer o salário render.

— Se eu depender apenas do meu trabalho fixo, fica impossível arcar com todas as despesas de casa, como a própria alimentação dos meus filhos. Tive que correr atrás de um bico como manicure, nos fins de semana, além de ser analista de marketing de uma loja de segunda a sexta-feira.

Além disso, os trabalhadores não estão nada animados para este ano, mostra o estudo. Entre os entrevistados, 55% acreditam que 2015 será pior para conseguir emprego.

Alimentação é o que mais pesa no bolso

É para ajudar a aliviar o bolso com os custos da alimentação da casa que a auxiliar administrativa Giovanna Baum, de 33 anos, produz cupcakes para vender. Com a atividade extra, ela acrescenta R$ 600 por mês ao orçamento.

— Faço os doces depois das 22h40m todos os dias, logo depois da faculdade. É cansativo, mas é necessário, principalmente pela alta dos preços nos supermercados — disse a moradora da Tijuca.

Em abril, o item alimentação registrou um aumento de 0,97%, pelo Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) — indicador oficial da inflação no país.

Para o educador financeiro Elias Gonçalves, ter uma renda extra é uma opção para não entrar em dívidas.

— Sabemos que a inflação está atrapalhando o orçamento de todos. Então, acredito que uma atividade por fora do trabalho seja positiva. Mas é preciso ter um planejamento. Não adianta ter uma renda extra para gastar sem critérios — alertou.

Comparar preços para economizar

A pesquisa do Data Popular mostra que 79% dos trabalhadores da classe C comparam preços quando o orçamento familiar aperta. Além disso, 81% economizam nas contas básicas — como luz, gás e água.

— O brasileiro não costuma ter um planejamento financeiro, mas ele aprende com a necessidade. Vejo muitos consumidores descobrindo como pesquisar preços já na meia-idade. É uma cultura que precisa ser adquirida em situações de crise — disse o educador financeiro Elias Gonçalves.

Além de trabalhar como analista de marketing e manicure, Eliane Nascimento, de 45 anos, não compra nada no supermercado sem comparar os preços entre as marcas.

— Pesquiso muito para fazer meu orçamento render. Mesmo trabalhando em dois empregos, arrumo um tempo para ir a vários supermercados. Também aproveito as promoções semanais — contou a trabalhadora.

Fonte: Extra.

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