Este ano, o Grupo Bio Ritmo deve deve atingir o faturamento de 1 bilhão de reais

Basta os termômetros da cidade marcarem temperaturas mais altas para que as academias e os clubes registrem um aumento de 30% no número de matrículas. É a largada do projeto verão. Na corrida em busca de um corpo enxuto para exibir na temporada mais quente do ano, boa parte das pessoas bate às portas de Edgard Corona, de 60 anos, criador do Grupo Bio Ritmo.

O negócio começou em 1996 com uma academia homônima em Santo Amaro (hoje são 21 unidades na capital). Mas foi a versão low cost (baixo custo, em inglês) do empreendimento, a Smart Fit, inaugurada treze anos depois, que acabou fazendo um sucesso maior, com mensalidades a partir de 59,90 reais. No lançamento, poucos acreditaram na capacidade de alguém conseguir competir em pé de igualdade com as pequenas salas de ginástica dos bairros, que já tinham tradição de cobrar menos. Além disso, se fosse bem-sucedida, a marca popular poderia roubar público da própria Bio Ritmo. “Se alguém vai chutar a minha b…, que seja eu mesmo”, comentou Corona na época, bem ao seu estilo direto e sem rodeios, numa conversa com uma pessoa da área.

A fórmula copiou modelos como o da Planet Fitness, empresa americana sediada em Newington, no Estado de New Hampshire, e atualmente com 1 000 unidades nos Estados Unidos. Se não é o campeão da originalidade, Corona teve os méritos de ser o primeiro a apostar na ideia por aqui e de trabalhar incansavelmente para viabilizar esse projeto. Na sua escalada até o topo do mercado fitness, quase quebrou por duas vezes, deu cotoveladas nos concorrentes e virou o inimigo número1 dos sindicatos e associações de professores de educação física, que se mostram inconformados com a perda de espaço.

O motivo? Na Smart Fit, parte dos profissionais malhados que costuma ficar zanzando pelo salão para orientar os alunos foi substituída por monitores de TV. Esses aparelhos passam tutoriais e dicas de como fazer os exercícios. Foi uma das medidas tomadas para economizar e garantir uma operação enxuta. “Edgard é tão arrojado que o apelidei de Loucura”, diz Paulo Akiau, sócio-fundador da Tribes, companhia especializada em criar aulas de fitness.

Atualmente, a Smart Fit tem 265 unidades no Brasil (53 delas na metrópole). Tornou-se a maior rede do gênero não só daqui, mas também de toda a América Latina. Possui outros 100 endereços em países como México, Chile, Peru e República Dominicana. No total, soma mais de 1 milhão de alunos e representa 80% da receita do Grupo Bio Ritmo. Impulsionada pela marca low cost, a companhia vem crescendo, em média, 30% ao ano desde 2009, uma façanha em meio à crise econômica. O faturamento previsto para 2016 é de 1 bilhão de reais, recorde nacional no setor.

Corona não descansa com esses números “bombados”. Promete inaugurar até o primeiro trimestre de 2017 mais seis endereços na capital e continua pegando pesado com a concorrência. Nos bastidores, o adjetivo “bélico” é o mais ameno da lista usada para classificar seu estilo. “É só a gente começar a negociar um ponto para o pessoal dele tentar pegar o local”, reclama um empresário do setor, na condição de não ser identificado.“Sou agressivo mesmo”, assume Corona. Ele conta que, por ter uma boa rede de relacionamentos,“olheiros” no mercado imobiliário o avisam quando alguém está cobiçando um endereço vago para montar uma academia. “A turma me oferece o negócio e, se é bom, assino o contrato”, completa.

Enquanto vários donos de academia constroem músculos e barrigas de tanquinho para transformar o próprio corpo em propaganda do negócio, Corona parece tão distante da imagem de “muso fitness” quanto Arnold Schwarzenegger da figura de um intelectual. Isso não significa que não se cuide. O empresário malha três vezes por semana, em sessões de trinta minutos que misturam musculação e corridas curtas. A rotina o ajuda a manter os 84 quilos distribuídos por 1,72 metro.

Seu plano original de carreira passava longe desse universo. Diplomado em engenharia química pela Faap, trabalhou por mais de duas décadas em um negócio criado por seu avô paterno, José Corona: a Usina Bonfim, de açúcar e álcool na região de Jaboticabal, a 340 quilômetros de São Paulo. Seu objetivo de se tornar presidente do negócio acabou frustrado quando o conselho da companhia resolveu profissionalizar a gestão, afastando a família do comando. Corona pediu para sair. “Sou um cavalo muito bravo para ficar sentado, disputando poder”, explica.

Assim, aos 40 anos, viu-se desempregado. Para virar o jogo, tirou do papel um antigo projeto de uma escola de natação. Essa ideia foi rascunhada em meio a uma roda de amigos regada a caipirinha numa das praias de Ubatuba, no Litoral Norte. A primeira Bio Ritmo, no bairro de Santo Amaro, foi construída ao redor das atividades de uma piscina. Aos poucos, Corona a transformou em uma academia completa. No começo, pagou o preço da inexperiência. “Era tudo tão errado que faltavam até divisórias nos chuveiros do banheiro masculino”, lembra.

Quando iniciou a expansão do negócio, abrindo uma unidade na Avenida Paulista, bateu de frente com os medalhões do mercado na época (Cia Athletica, Competition, Fórmula, Raia 4 e Runner). “Os concorrentes passaram a proibir seus professores de dar aula nos meus espaços. Com isso, foi uma debandada geral”, conta.

Em duas ocasiões, quase foi à falência. Em 1997, sem dinheiro e sem clientes, arriscou tudo fazendo um empréstimo de 50 000 reais para espalhar sete outdoors pela cidade. “Fiquei desesperada, mas a estratégia deu certo e a gente começou a crescer”, lembra a jornalista Soraya Corona, que começou a namorar o empresário naquela época e, depois, virou assessora de imprensa da Bio Ritmo. Casaram-se em 2000. Atualmente, ela ocupa o cargo de diretora do grupo. Em 2007, o negócio enfrentou outro sufoco, quando um problema em um software de gestão gerou tamanho descontrole nas contas que quase afundou a companhia.

Mesmo com esses percalços, a Bio Ritmo conseguiu se firmar como uma das maiores redes do ramo. No processo de criação da Smart Fit, Corona também bancou alguns riscos. Um ano depois da inauguração da primeira unidade, ele vendeu imóveis e pegou novos empréstimos para financiar a expansão da marca. Mas não conseguiu captar dinheiro suficiente. A salvação apareceu em 2010.

O Patria, um dos maiores fundos de investimento do país, comprou 50% do Grupo Bio Ritmo, com um aporte inicial de 70 milhões de reais. Depois, a empresa de Corona recebeu outros 450 milhões de reais, montante que inclui recursos do Patria, do Fundo Soberano de Singapura e de outros sócios minoritários. O Patria indicou ainda o atual diretor financeiro do Grupo Bio Ritmo, Afonso Sugiyama. “A ajuda foi fundamental para garantir o sucesso da Smart Fit”, reconhece Corona.

O bom desempenho animou outros empreendedores a apostar na mesma fórmula de baixo custo. Uma das concorrentes, a Just Fit, com onze endereços na metrópole, nasceu de uma costela da Smart Fit. Até 2012, Marco Lara, criador da Just Fit, era um dos principais executivos da Bio Ritmo. Sua mulher, Audrea, representava a franquia americana Xtend Barre, de aulas de balé fitness. A Bio Ritmo comprou de Audrea os direitos para oferecer essa atividade aos alunos durante um ano.

O contrato não foi renovado e, na sequência, a equipe de Corona lançou a Bio Classic, com uma proposta parecida. Indignado com o que classificou de atitude antiética, Marco se demitiu. Sua mulher entrou na Justiça pedindo uma indenização de 862 000 reais. Em agosto de 2013, a Bio Ritmo foi condenada, em primeira instância, a pagar 130 000 reais. “Foi um mal-entendido e torço pelo sucesso deles, pois há espaço para todos”, jura Corona, que continua contestando a dívida nos tribunais.

Quem conhece o estilo do empresário enxerga uma boa dose de ironia na frase. Na parte que diz respeito às oportunidades de mercado, no entanto, ninguém pode duvidar de sua sinceridade. Na cidade de São Paulo, só 30% dos adultos fazem atividades físicas regulares, segundo dados do Ministério da Saúde. “Um terço dos meus alunos não frequentava academia”, diz Corona. Desde o ano passado, ele vem selecionando fornecedores para vender roupas e suplementos alimentares a preços abaixo da média do mercado na Smart Fit. Os produtos devem ser lançados em 2017.

Fora do ambiente dos negócios, Corona faz o gênero caseiro. Mora em um apartamento nos Jardins, com Soraya e as gêmeas Maria Clara e Maria Paula, de 10 anos. O empresário tem três filhos mais velhos (Carolina, 30, Diogo, 28, e Camila, 26) de seu primeiro casamento, com a atriz Eliana Ferraz. Sempre que pode, escapa nos fins de semana para o seu sítio, em Campinas.

No sábado, 22, celebrou por lá seus 60 anos com um festão para 200 convidados. O menu não era nada fitness. O anfitrião encomendou dezenas do tradicional porco no rolete de Bragança, seu prato predileto, e chamou o funkeiro Latino para animar a turma. Ele diz que, com muito trabalho, desfruta o auge de sua carreira. “Está tudo tão favorável que até o Verdão passou a me dar alegria”, comemora o palmeirense fanático, feliz da vida com a liderança da equipe no atual Campeonato Brasileiro.

Fonte: “Veja São Paulo”

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