Quinta-feira, 8 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

A hora da recuperação

por Jairo Martins

A crise tem feito muitas empresas fecharem suas portas. Mas como recuperá-las e evitar que fechem suas portas? O assunto é tão sério que é suportado pela Lei 11.101/2005 – Lei de Recuperação de Empresas e Falência. A medida prevê solucionar conflitos privados e salvaguardar empresas, assegurando sua finalidade social, ou seja, a manutenção de empregos e a geração de riquezas ao país. O encerramento de uma companhia resulta não só em prejuízos corporativos, mas também em danos à sociedade, com a redução de empregos diretos e indiretos.

No caso das micro e pequenas empresas, quais aspectos da gestão empresarial precisam ser analisados para a recuperação de seus negócios? Em uma primeira análise, podemos citar os processos de gestão que, por terem sido realizados de forma inadequada ou negligenciados, foram responsáveis por deixar a empresa vulnerável. Aprimorá-los pressupõe certas competências, como  identificação das necessidades dos clientes, análise e solução de problemas, fixação de objetivos, alocação de recursos e pessoas, negociação, tomada de decisão, adequação dos custos e preservação do conhecimento.

Na reestruturação de seu negócio, é indispensável transparência junto aos credores, e também na prestação de contas ao administrador judicial. Além disso, devem ser analisados os pontos críticos da gestão, para que a situação econômico-financeira não se agrave ainda mais. Conheça abaixo os principais processos a serem considerados na hora de fazer o resgate da empresa.

1. Gestão da produção: Ter estoques elevados, com as taxas de juros atuais, é uma da sete perdas da produção enxuta, que são decorrentes de planejamento e controle da produção ineficientes. Essas perdas normalmente absorvem capital de giro, que fica parado dentro da empresa, sujeito a riscos e à deterioração. O problema fica ainda mais grave se esse recurso vier de fontes externas, e a empresa estiver pagando juros pelo seu uso. Deve-se considerar, também, se não estão ocorrendo desperdícios com transportes ou movimentações de materiais desnecessários, que tomam tempo e consomem recursos. Outro ponto de atenção é perda de produção por conta de itens defeituosos. Auditorias internas podem servir para assegurar o cumprimento dos padrões, quando existentes.

2. Gestão das finanças: É importante controlar o fluxo de caixa, e não apenas o montante de receitas e de despesas. Muitas vezes, a simples gestão sobre as entradas de recursos e de contas a serem pagas evita a necessidade de contrair empréstimos – e, consequentemente, o pagamento de juros, que absorvem recursos vitais para a companhia. Podem ser necessários também ajustes na política de concessão de crédito, trazendo um reflexo positivo sobre a inadimplência. As medidas podem abranger, ainda, a revisão e a negociação de prazo para pagamento de clientes e fornecedores. Eventualmente, pode ser preciso identificar novos parceiros, em condições de crédito mais favoráveis.

3. Gestão de pessoas: É importante engajar a equipe na redução de despesas e na busca por uma maior produtividade. Isso pressupõe a otimização da estrutura organizacional, com a redistribuição de tarefas, considerando as competências de cada um. Não se trata apenas da redução de custos, mas também da busca de oportunidades que possam aumentar a percepção de valor pelo público-alvo – e, com isso, alavancar os resultados. O conhecimento sobre as necessidades e expectativas reais dos clientes, além de tendências de mercado e das novas tecnologias, pode contribuir para o desenvolvimento de novos produtos ou para a melhoria dos existentes. Pressupõe-se, ainda, sinergia interna, identificação e tratamento de gargalos, compreensão da missão, visão, valores e objetivos organizacionais.

4. Gestão dos custos e precificação: É preciso identificar e reduzir os custos fixos, variáveis, diretos e indiretos e as despesas administrativas.  Isso pode envolver,  por exemplo, a redução/substituição de matérias-primas que não causem impacto na qualidade final dos produtos e serviços. É importante implementar campanhas para a redução de consumo de água, energia, telefone. Também é fundamental diminuir a reprodução de documentos, fazendo o seu envio em forma digital, na medida do possível. Cabe ainda buscar conhecimento sobre mecanismos disponíveis para redução da carga tributária, parcelamento de dívidas etc.  Considere a participação em entidades de classe, com o objetivo de lutar pela redução da burocracia e por uma tributação mais justa do setor.

Consciente de seu papel e da sua responsabilidade no processo de recuperação da empresa, o empresário poderá postular, paralelamente, seu pedido de recuperação junto aos órgãos competentes, conforme lei pertinente, apresentando as documentações necessárias.

Jairo Martins é superintendente-geral na Fundação Nacional da Qualidade (FNQ).

Fonte: “Pequenas empresas & grandes negócios”, 16 de março de 2016.

Escreva um comentário

Seu e-mail não será publicado.