A criação de vagas com carteira de trabalho na economia brasileira está no ritmo mais baixo em pelo menos 12 anos. Em 2014, até outubro, as empresas criaram 912,2 mil empregos formais, o pior resultado desde 2002, segundo o Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), do Ministério do Trabalho e Emprego.

O mercado de trabalho formal já estava em desaceleração nos últimos meses por causa do menor crescimento econômico, e os números de outubro confirmaram a tendência de piora. No mês passado, a economia brasileira fechou 30 mil vagas, resultado considerado atípico para mês. “Estamos num processo de queda de emprego”, afirma Hélio Zylberstajn, professor da Faculdade de Economia da Universidade de São Paulo (USP). “Em outubro, o desempenho do emprego formal chamou a atenção pelo fato de terem ocorrido demissões líquidas na indústria, num mês que particularmente há uma sazonalidade favorável por causa da contratação de profissionais temporários”, diz Rafael Bacciotti, economista da Tendências Consultoria Integrada.

Na avaliação de economistas, além do crescimento mais baixo, a piora do emprego na iniciativa privada reflete o desânimo com a economia brasileira. Os índices de confiança dos empresários de vários setores estão baixos, o que inibe novos investimentos e contratações, e há uma incerteza com os rumos do segundo governo da presidente Dilma Rousseff – somente na sexta-feira a presidente sinalizou quais os nomes deverão compor a sua equipe econômica a partir de 2015.

Os dados detalhados do Caged mostram que a redução no emprego formal tem sido puxada pela indústria e construção civil, dois grandes setores empregadores. Entre janeiro e outubro foram criados 46.981 empregos com carteira de trabalho no setor industrial, enquanto em 2013 foram abertos 320.386 postos nesse período. Na construção civil, nos dez primeiros meses deste ano, foram criados 71.809 ante 207.787 vagas em 2013. Por outro lado, os empregos formais no setor de serviços – principal empregador da economia brasileira – crescem em um ritmo mais baixo.

“A curva em 12 meses do Caged tem caído há muito tempo e esse ano deve bater nos 165 mil na soma de 2014”, prevê Sérgio Vale, economista-chefe da consultora MB Associados. Se a previsão for confirmada, será a pior geração de empregos formais desde 1996. “A presidente tanto usou os dados de trabalho para se diferenciar de presidentes do passado que corre o risco de entregar o pior resultado em décadas”, afirma Vale.

Mais sinais

A desaceleração de vagas formais também fica evidente na Pesquisa Mensal de Emprego (PME), divulgada mensalmente pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Embora a taxa de desocupação tenha atingindo o nível mais baixo da história para o mês de outubro (4,7%), é perceptível a perda de emprego na iniciativa privada.
Nas seis regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE (Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo), o contingente de brasileiros com carteira de trabalho no setor privado diminuiu em 33 mil na comparação com setembro, e em 178 mil ante outubro do ano passado. No caso dos trabalhadores empregados na iniciativa privada, mas sem carteira de trabalho, a queda foi 40 mil e 149 mil, respectivamente.

A taxa de desemprego se manteve baixa por causa do crescimento dos trabalhadores classificados como conta própria – o número de brasileiros nessa condição aumentou em 256 mil no período de um ano. “Em 2014, surpreendentemente as taxas de desemprego foram batendo recorde para baixo, mas elas bateram recorde pelo lado negativo. Não foi porque geramos muito mais vagas, mas porque as pessoas pararam de entrar no mercado de trabalho”, afirma Fernando de Holanda Barbosa Filho, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Futuro

Embora o cenário econômico para 2015 seja de baixo crescimento com um aumento da desocupação, não se espera que o desemprego volte aos patamares do passado – no início da década passada, a taxa de desocupação chegou a superar os dois dígitos.

A economia brasileira passa por uma mudança estrutural que evita uma pressão no mercado de trabalho e, consequentemente, uma forte retomada do desemprego: a População Economicamente Ativa (PEA), por exemplo, está caindo num ritmo mais rápido do que a população ocupada. Em outubro, no acumulado de 12 meses, o recuo foi de 0,9% e 0,2%, respectivamente.

Fonte: O Estado de S.Paulo.

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