Domingo, 4 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Crise política já reduz a confiança dos consumidores

A crise política, que se agravou nos últimos meses, já abala a confiança do brasileiro na economia. Segundo dados que serão divulgados nesta segunda-feira pela Associação Comercial de São Paulo (ACSP) e pelo Instituto Ipsos, o Índice Nacional de Confiança (INC) caiu de 100 para 84 pontos na passagem entre junho e julho. É o menor patamar da série histórica, iniciada em 2005. Além disso, é a primeira vez desde aquele ano que o indicador, que vai de 0 a 200, fica no terreno do pessimismo — marcado por resultados abaixo de cem pontos.

A insegurança em relação à situação do país é maior entre os mais ricos, mais afetados pelo noticiário político, segundo Marcel Solimeo, economista-chefe da ACSP. Eles representam 25% dos 1.200 entrevistados. Nas classes A e B, o INC caiu para 75 pontos em julho, após ter ficado em 81 pontos em junho.

— É uma classe mais informada, não só em relação à economia, mas também em relação à política. O agravamento do pessimismo está relacionado ao agravamento da incerteza, com essa crise política que não dá sinal para onde vai — explica Solimeo.

Enquanto isso, os sinais de piora da economia real, principalmente no mercado de trabalho, fizeram despencar os indicadores das classes C, D e E, que foram, em um mês, do otimismo ao pessimismo. Na classe C, o resultado passou de 103 para 85 pontos. Já nas classes D e E, o índice recuou de 109 para 89 pontos.

— Essa baixa de confiança é esperada. É daí para mais, está dentro do contexto de piora de expectativa — avalia Fábio Silveira, diretor de pesquisas econômicas da GO Associados.

Quase metade dos entrevistados conhece um desempregado

A queda na confiança do consumidor brasileiro está em linha com o que indicadores econômicos e a análise do quadro político vêm mostrando nos últimos meses. Os dados mais recentes do IBGE mostram que o desemprego subiu para 6,9% em junho, e a inflação ultrapassou os 9% pela primeira vez em quase 12 anos. Soma-se a isso a percepção de que a presidente Dilma Rousseff e o Congresso enfrentam dificuldades para chegar a um entendimento. Para analistas, só a mudança desse quadro pode impulsionar uma retomada do otimismo no país.

O Índice Nacional de Confiança considera fatores como situação financeira pessoal, capacidade de investir no futuro e segurança no emprego para mensurar a avaliação da população. A amostra é de 1.200 pessoas, distribuídas por 72 municípios do país. Até junho, o indicador havia ficado no terreno do otimismo. Chegou a ficar em 137 pontos em janeiro, mas foi perdendo força ao longo do ano.

— O mercado de trabalho ainda não havia sido atingido mais fortemente (no início do ano). Duas coisas preocupam muito: desemprego e inflação, que pioraram. Já virou crise, porque agora o brasileiro também vê o vizinho perdendo emprego — explica Solimeo, economista-chefe da ACSP.

Os dados da pesquisa mostram essa disseminação do pessimismo. Em julho, 48% dos entrevistados afirmaram ter sido demitidos ou conhecer alguém que perdeu o emprego. Enquanto isso, 53% disseram estar menos confiantes em relação ao próprio emprego, de parentes ou conhecidos, na comparação com seis meses atrás. No mesmo mês do ano passado, só 33% dos entrevistados relatavam casos de demissão e apenas 24% relatavam menos confiança no mercado de trabalho.

Saída difícil pela política

Para analistas, existe uma espécie de retroalimentação entre os índices de confiança e o desempenho da economia. Com as incertezas, o consumidor gasta menos, contribuindo para piorar a recessão, que, por sua vez, gera nova onda de pessimismo. O ciclo abala não só a confiança do consumidor, como também a dos empresários — também afetados por incertezas políticas. Resultado: menos investimentos e mais demissões.

— É importante que haja algum evento para que haja alguma expectativa favorável. O fato novo tem que ser primeiro o político, para depois ter a condução da política econômica. Por enquanto não há sinais de qual seria esse evento — avalia Silveira, da GO Associados.

Solimeo, da ACSP, arremata:

— Precisa haver um entendimento.

Aloísio Campelo, superintendente adjunto de ciclos econômicos do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vagas (Ibre/FGV), afirma que a inflação menor em 2016 pode ajudar. Mas o economista lembra que o tempo de boas notícias ainda está distante. O segundo semestre ainda reserva a divulgação de um PIB fraco no segundo trimestre. As manifestações contra o governo previstas para este mês também devem aquecer a onda de pessimismo.

— Quando chegar janeiro vamos entrar numa fase de inflação em queda, isso será um fator positivo, ainda que o mercado de trabalho esteja ruim. Temos visto isso historicamente — avalia Campelo.

Fonte: O Globo.

Escreva um comentário

Seu e-mail não será publicado.