Da web para as ruas: ativismo digital muda paradigma dos movimentos sociais

Carlos U. Pozzobon

Um dia após o incêndio na boate Kiss, que vitimou 237 jovens em 27 de janeiro, em Santa Maria (RS), internautas organizaram uma passeata pela paz que reuniu 35 mil pessoas no centro da cidade. Ainda sob os efeitos da tragédia, moradores do Rio de Janeiro postaram fotos denunciando a precária condição das vigas de sustentação do Elevado do Joá, uma das principais vias de acesso entre a Zona Sul e a Barra da Tijuca. Nos dois casos, a internet foi a ferramenta escolhida para expressar os anseios da sociedade.

O consultor em Tecnologia da Informação (TI) Carlos U Pozzobon acredita que as redes sociais assumirão cada vez mais o papel de detonador de mobilizações. Pozzobon explica que a emotividade do povo brasileiro funciona como um forte incentivo para tirar as pessoas da frente dos seus computadores e levá-las as ruas, como aconteceu no Rio Grande do Sul. “O que vamos assistir daqui para a frente são as redes sociais assumindo o papel de uma espécie de detonador das mobilizações. Para um país emotivo isso significa uma mudança de paradigmas”.

O que vamos assistir daqui para a frente são as redes sociais assumindo o papel de uma espécie de detonador das mobilizações

Sobre o caso do Joá, Pozzobon diz que o apelo deve ser direcionado às pessoas ameaçadas, nesse caso aos usuários do viaduto. Como ativista digital, ele torce para que a manifestação cresça. No entanto, lembra que é preciso que ela vá para as ruas e realimente os próprios grupos digitais.

O desafio do ciberativismo

Transformar as reivindicações de grupos sociais mobilizados através da internet em ações práticas seja com a criação de novas leis, a queda de ditaduras ou a denúncia de abusos contra os direitos humanos e os princípios democráticos é, sem dúvida, o maior desafio do ciberativismo. No entanto, ativistas digitais de todas as partes do mundo já deram provas de que é possível mudar a realidade a partir de movimentos iniciados na web.

O sucesso do uso das redes sociais como instrumento de mobilização dos cidadãos em casos como a “Primavera Árabe”, no Oriente Médio, as manifestações na Plaza Del Sol, na Espanha, o Occupy Wall Street, nos EUA, motivam o surgimento de novas experiências.

No Irã, onde há um rígido controle da mídia, os manifestantes 2.0 driblaram a censura e fizeram protestos contra a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad, em 2009, através do Facebook, do Flickr e do Twitter. Em nova tentativa de controlar a circulação das informações na rede, o chefe da policia nacional do Irã, Esmail Ahmadi Moghadam, anunciou a criação de um novo software para monitorar o conteúdo publicado nas redes sociais, segundo notícias veiculadas pela mídia iraniana, no início de janeiro.

No Brasil, destacam-se a elaboração da Lei da Ficha Limpa, a criação da página “Diário de Classe”, usada pela aluna Isadora Faber, de 13 anos, para denunciar a precária infraestrutura da escola municipal Maria Tomázia Coelho, em Santa Catarina, e os movimentos anti-corrupção que exigiram o julgamento do mensalão.

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