Desigualdade entre países avançou no mundo entre 1820 e 2010, diz OCDE

A desigualdade de renda cresceu no mundo entre 1820 e 2010, mostra um estudo inédito da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Esse movimento foi causado principalmente por um salto na desigualdade entre os países, mais do que dentro dos países. O relatório “Como era a vida” reúne pela primeira vez indicadores entre os anos de 1820 e 2010, percorrendo quase dois séculos de estatísticas que ajudam a explicar a qualidade de vida da população, como desigualdade de renda, Produto Interno Bruto (PIB) per capita, educação, expectativa de vida e altura da população, instituições políticas, qualidade ambiental e desigualdade de gêneros, entre outros aspectos.

O índice de Gini (que mede a desigualdade, entre zero e 100) que compara os países entre si aponta um aumento expressivo entre 1820 e 2010, passando de 16 para 54. Se for considerada a desigualdade entre os países, o índice oscila ao longo das décadas, mas chega a 2010 ao mesmo nível de 45 que estava em 1820.

“O aumento na desigualdade de renda vivido entre 1820 e os anos 2000 foi fortemente causado pelo crescimento na desigualdade entre os países mais do que na desigualdade entre os países”, aponta o documento.

O comportamento da desigualdade de renda variou entre os países ao longo das décadas. No Reino Unido, o índice de Gini estava em 59 nos anos 1820 e recuou para 40 nos anos 2000. Nos Estados Unidos, a taxa, que era de 57 em 1820, foi a 44 na primeira década do século XXI. Já no Brasil o índice de Gini avançou de 47 nos anos 1820 para 61 nos anos 2000.

Se consideramos as últimas três décadas, no entanto, houve um aumento da desigualdade dentro dos países. O índice de Gini mundial que considera a desigualdade intrapaíses passou de 36 na década de 80 para 39 na década de 90 e 45 na década de 2000. Essa tendência também pode ser observada nos indicadores das regiões. Na Europa Ocidental, o Gini subiu de 36 nos anos 80 para 38 nos anos 90 e 40 nos anos 2000. Nos países desenvolvidos do chamado Novo Mundo — Estados Unidos, Austrália e Canadá —, essas taxas foram de 37, 39 e 44, respectivamente. A região da América Latina e Caribe apresentou índice de Gini de 52,52 e 54, respectivamente.

Segundo a OCDE, esse aumento recente da desigualdade dentro dos países está ligado ao processo de globalização, que ao mesmo tempo leva a um declínio na desigualdade entre os países. Esse segundo movimento, no entanto, ocorre em ritmo bem mais lento: o índice de Gini entre os países se manteve em 56 nas décadas de 70, 80 e 90, e caiu para 54 na década de 2000.

PIB per capta cresceu mais de dez vezes em dois séculos

Quando se olha o Produto Interno Bruto (PIB) per capita mundial na passagem entre os séculos XIX e XXI, é possível afirmar que houve uma alta de mais de dez vezes entre 1820 e 2010, passando de US$ 605 para US$ 7.890. Os números consideram dólares americanos em paridade do poder de compra dos anos 90.

O relatório da OCDE aponta que não houve nenhum país ou região com recuo na renda real neste período, embora haja alguns casos de redução temporária, como na China no século XIX, o Leste Europeu depois do fim do comunismo e algumas partes da África nos anos 80 e 90.

Ainda há fortes diferenças entre as regiões e os países. O PIB per capita da Europa Ocidental subiu de US$ 1.226 na década de 1820 para US$ 20.841 na década de 2000. Na América Latina, o aumento foi de US$ 595 para US$ 7.109, considerando a mesma base de comparação.

No Brasil, o PIB per capita saltou de US$ 683 para US$ 6.879, mas houve um recuo do PIB per capita entre 1890 e 1900 — década pouco depois da proclamação da república e com a Revolta da Armada e a Guerra de Canudos.

Um destaque no relatório é o caso da Argentina, que tinha PIB per capita de US$ 998 nos anos 1820, maior do que a da Suécia (US$ 888). Depois de um crescimento contínuo até os anos 80 (com exceção da década de 1910), a Argentina viu seu PIB per capita oscilar, até chegar a US$ 10.256 nos anos 2000. Nesse período, o PIB per capita sueco correspondia a 2,5 vezes ao argentino.

O documento destaca ainda o crescimento mais rápido da economia dos países de renda mais baixa, em especial da Ásia, desde os anos 70 — movimento diferente do que ocorria até então.

Fonte: O Globo

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