Dilma acelera medidas anticorrupção

Presidente quer enviar projetos ao Congresso ao mesmo tempo em que Procuradoria denunciar políticos citados na Operação Lava Jato

Na tentativa de amenizar o impacto da ação da Procuradoria Geral da República, que após o carnaval enviará ao Supremo Tribunal Federal os inquéritos contra pelo menos 28 políticos suspeitos de desviar dinheiro da Petrobras, a presidente Dilma Rousseff mandou acelerar o pacote anticorrupção. Dos cinco projetos prometidos por Dilma na campanha eleitoral, dois serão encaminhados ao Congresso, ainda neste mês, com pedido de regime de urgência.

A estratégia do Palácio do Planalto consiste em enviar as medidas para o Legislativo quase ao mesmo tempo em que o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, denunciar os políticos – muitos dos quais da base aliada – por corrupção na Petrobras. Trata-se de uma operação casada para tentar se afastar do novo escândalo que se avizinha.

O ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, reuniu auxiliares, na noite de ontem, para dar os últimos retoques nos projetos de lei. Uma das propostas endurece as penas de funcionários públicos que tiveram enriquecimento ilícito. Outro projeto, para o qual o governo também deve pedir urgência, prevê o confisco dos bens oriundos da corrupção.

No momento em que o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto, é acusado de ser o operador de um esquema que desviou US$ 200 milhões da Petrobras para o partido – fato que ele nega -, Dilma vai bater na tecla da reforma política. A ideia é propor que o caixa 2 seja considerado crime.

Duas medidas “vendidas” na campanha, porém, devem ficar para depois: a criação de juizados especiais para crimes de improbidade administrativa e a aceleração dos julgamentos de processos contra políticos no Supremo. Essas ações, que mexem com a estrutura da Justiça e envolvem a tramitação de processos, dependem de maior discussão com os próprios juízes.

Reação- Sob o impacto negativo da Operação Lava Jato, Dilma quer mostrar, com o pacote no Congresso, que o governo não está acuado e enfrenta a corrupção. Na “batalha da comunicação”, a presidente decidiu dar mais entrevistas para divulgar as realizações da equipe e reagir à temporada de más notícias na política e na economia.

Dilma chegou a avaliar a possibilidade de fazer um pronunciamento em rede nacional de rádio e TV, após o carnaval, para anunciar o pacote anticorrupção, defender as medidas de ajuste na economia e divulgar uma agenda positiva, com agrados à classe média e aos empresários. Na noite de ontem, porém, a Secretaria de Comunicação da Presidência garantiu que Dilma não fará qualquer pronunciamento neste sentido.

A ideia do pronunciamento veio a público no fim da tarde. Um ministro do Planalto chegou a confirmar a “O Estado de S. Paulo” a informação, sob a condição de anonimato. Se não mudar de ideia, porém, a presidente deve primeiro dar uma entrevista a um grande jornal, para só depois fazer um pronunciamento, que pode ser em 8 de Março, Dia Internacional da Mulher.

A estratégia para driblar a temporada de más notícias foi discutida ontem por Dilma com o núcleo duro do governo. Em almoço no Palácio da Alvorada com os ministros Aloizio Mercadante (Casa Civil), Pepe Vargas (Relações Institucionais), Miguel Rossetto (Secretaria-Geral), Jaques Wagner (Defesa), José Eduardo Cardozo (Justiça) e Ricardo Berzoini (Comunicações), ela disse que não ficará na defensiva.

O governo está preocupado com a queda expressiva de popularidade após o ajuste fiscal e o escândalo na Petrobras. Após o desgaste sofrido ao vetar a correção de 6,5% na tabela do Imposto de Renda, com a base aliada dividida e pressionada por adversários, que querem abrir uma nova CPI da Petrobras, Dilma decidiu partir para a ofensiva.

Contrariado, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pediu a emissários que alertem Dilma sobre a necessidade de viajar mais pelo país e dar mais entrevistas, com o objetivo de defender sua gestão. Na festa de 35 anos do PT, em Belo Horizonte, na sexta-feira, os dois apareceram juntos diante das câmeras, mas não conversaram reservadamente.

Fonte: O Estado de S. Paulo

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