“Atentado contra a transparência”, diz José Nêumanne sobre misturador de áudio no gabinete presidencial

O Palácio do Planalto instalou no gabinete do presidente Michel Temer um aparelho conhecido como “misturador de voz”, que embaralha o conteúdo de uma conversa gravada por celular ou outro tipo de aparelho eletrônico. Só há uma explicação para isso: impedir que xeretas possam delatar as conversas pouco republicanas que acontecem nos gabinetes. É um atentado contra a transparência para que tudo continue sendo negociado à boca pequena ou, como diz aquele velho sucesso de meus amigos e conterrâneos Antônio Barros e Cecéu, cantado por Ney Magrosso, por debaixo dos panos. E a República da vergonha continua a todo vapor. Esta é mais uma notícia lamentável a destacar no meio de tantas outras.

(Comentário no Jornal Eldorado da Rádio Eldorado – FM 107,3 – na quinta-feira 20 de julho de 2017, às 7h30m)

Ouça o áudio aqui.

Confira abaixo o comentário na íntegra:

Reportagem de Tânia Monteiro, da Sucursal do Estadão em Brasília, revela na página A 8 da edição de hoje que sala do Planalto ganha “misturador de voz”. Ora que isso?
Dada em primeira mão no blog de Gerson Camarotti, no G1 ontem, a informação é que o Palácio do Planalto instalou no gabinete do presidente Michel Temer um aparelho conhecido como “misturador de voz”, que embaralha o conteúdo de uma conversa gravada por celular ou outro tipo de aparelho eletrônico. O aparelho emite uma frequência sonora que danifica as vozes gravadas na conversa. Quem tenta ouvir a gravação, percebe somente um chiado e não consegue entender o que foi dito.

Outras unidades do misturador também foram instaladas nos gabinetes dos ministros. A decisão de instalar o aparelho foi tomada em razão de o presidente ter sido gravado pelo empresário Joesley Batista, dono da JBS, no Palácio do Jaburu (residência oficial da Vice-presidência).

No ano passado, também houve a suspeita de que Temer foi gravado no gabinete pelo então ministro da Cultura, Marcelo Calero. O ex-ministro admitiu somente ter gravado uma conversa telefônica com o presidente.

Quem entra no gabinete presidencial, é obrigado a deixar o celular do lado de fora, justamente para evitar algum tipo de gravação. Mas, diante dos últimos episódios, a segurança foi reforçada.

Só há uma explicação para isso: impedir que xeretas possam delatar as conversas pouco republicanas que acontecem nos gabinetes. É um atentado contra a transparência para que tudo continue sendo negociado a boca pequena ou, como diz aquele velho sucesso de meus amigos e conterrâneos Antônio Barros E Cecéu, por debaixo dos panos. E a República da vergonha continua a todo vapor. Esta é uma notícia lamentável.

Vamos a mais uma notícia a lamentar. O lobista Jorge Luz, preso desde fevereiro no âmbito da Operação Blackout, 38.ª fase da Lava Jato, afirmou, ao juiz Sérgio Moro que foi acertada propina de 11 milhões e meio de reais de desvios da Petrobrás ao ex-líder do PMDB no Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), ao senador Jader Barbalho (PMDB-PA) e ao deputado federal Aníbal Gomes (PMDB-CE). Quer dizer que a fonte da roubalheira da Petrobrás não secou?
Ontem, encontrei-me com Fausto Macedo à saída do jornal e ele me contou esta novidade que está na manchete do portal do “Estado” hoje. A propina teria sido paga em troca do suposto apoio para fortalecer os ex-diretores da área Internacional Nestor Cerveró e de Abastecimento, Paulo Roberto Costa, na estatal.

Ele teria sido informado por Fernando Soares, o Fernando Baiano, apontado como operador do PMDB, que os dois agentes públicos estariam ‘balançando’ em seus cargos por volta de 2005, e, por isso, pediu ajuda aos parlamentares. Em troca da suposta solicitação, os três teriam pedido propinas.

Segundo reportagem assomada pelo próprio Fausto, Luiz Vassallo, Júlia Affonso, muito triste com a defesa de Jailson ontem do pênalti de Diego na Ilha do Urubu, que impediu a vitória do Flamengo dela sobre seu Palmeiras, o lobista alegou que conhecia Jader e Renan “desde os anos 80”, e que voltou a contatá-los após ter recebido um pedido de ajuda de Fernando Baiano para ajudar os dois diretores da Petrobrás, em 2005. Segundo Luz, os agentes estavam “balançando no cargo” e Baiano via nele uma chance de “aproximação com o PMDB”.

Nada a lamentar sobre a informação ter chegado a nosso conhecimento. Tudo a lamentar por tudo continuar como dantes no Congresso de Abrantes, porque o Supremo Tribunal Federal continua mantendo protegidos os chefões da política, protegidos pelo foro privilegiado.

Outra novidade ontem foi a notícia, dada em primeira página e publicada hoje nos jornais é que Marcos Valério, o carequinha de Roberto Jefferson no Mensalão, lembra-se, também vai fazer uma delação premiada. O que ainda dá pra contar a respeito daquele roubo do passado?
O empresário Marcos Valério, operador do Mensalão do PT, “é presumidamente possuidor de inúmeras informações de interesse da Justiça e da sociedade brasileiras”, segundo o juiz Wagner de Oliveira Cavalieri, de Contagem (MG). Valério fechou acordo de delação premiada com a Polícia Federal em Minas, no dia 6. A informação foi divulgada pela Record e confirmada pelo Estado. Ao autorizar a transferência do empresário para um estabelecimento prisional onde os próprios detentos ficam com as chaves das celas, o juiz Cavalieri destacou que “o inegável interesse público em suas declarações sobre fatos ilícitos diversos que envolvem a República”. Valério foi pivô do Mensalão do PT, por isso acabou condenado pelo Supremo Tribunal Federal à maior pena da Ação Penal 470, um total de 37 anos e cinco meses de cadeia. O primeiro escândalo da era Lula levou à prisão quadros importantes do PT, como o ex-ministro José Dirceu (Casa Civil) e José Genoino, ex-presidente do partido.

Valério se compromete, no acordo com a PF, a revelar detalhes de um outro Mensalão, o do PSDB de Minas. Seu advogado, Jean Robert Kobayashi, disse que ele deverá fazer outras revelações sobre outros crimes. Os mandantes do PT e do PSDB estão livres, leves e soltos. Eduardo Azeredo, Genoíno, todos os demais, inclusive o Zé Dirceu. Dá pra comemorar? Pelo menos agora vão deixar o carequinha falar.

E o ex-presidente Lula teve R$ 606.727,12 bloqueados pelo Banco Central nesta terça-feira, 18, por ordem do juiz federal Sérgio Moro na Operação Lava Jato. Qual a explicação para isso?
O confisco dos ativos do petista foi decretado a pedido do Ministério Público Federal. O dinheiro foi encontrado em quatro contas de Lula: R$ 397.636,09 (Banco do Brasil), R$ 123.831,05 (Caixa Econômica Federal), R$ 63.702,54 (Bradesco) e R$ 21.557,44 (Itaú).

Além do dinheiro, Moro confiscou de Lula três apartamentos e um terreno, todos os imóveis em São Bernardo do Campo, grande São Paulo, e também dois veículos.

O bloqueio dos imóveis do petista atinge “a parte ideal de 50% correspondente à meação” – em fevereiro, a mulher do ex-presidente, Maria Letícia, morreu vítima de um AVC.

No pedido, a Procuradoria da República afirma que após assumir a Presidência da República, “Lula comandou a formação de um esquema delituoso de desvio de recursos públicos destinados a enriquecer ilicitamente, bem como, visando à perpetuação criminosa no poder, comprar apoio parlamentar e financiar caras campanhas eleitorais”.

Os procuradores da força-tarefa da Lava Jato queriam o bloqueio de uma fortuna de 195,2 milhões, incluindo multas e acréscimos a título de reparação de danos. A força-tarefa não atribui este patrimônio a Lula. O montante faz parte de um cálculo efetuado por procuradores com base em danos à Petrobrás.

Parece pouco, mas não é, não. Não conheço ninguém com 600 mil no banco, disponível para a feira. E quando conheci Lula, o que ele nega, a família Silva morava numa casinha de vila operária em São Bernardo.

E o Estadão também noticiou dois escândalos em um. Um na Oi, outro da Refis. Pode explicar o que uma coisa tem a ver com a outra?
Matéria do Estadão de ontem, “AGU questiona plano de recuperação da Oi”. Órgão argumenta que há ilegalidade na proposta feita pela operadora, que pretende parcelar suas dívidas em 20 anos.

“A Oi deseja parcelar a dívida em 20 anos, com carência de pagamento de dez anos e com correção pela TR. No entendimento das unidades da AGU, no entanto, as dívidas com o poder público estão sujeitas a outras regras. No processo, a dívida da Anatel é de R$ 11 bilhões. Mas os débitos, segundo a agência reguladora, podem ser de até R$ 20 bilhões.”

A AGU tem de ser aplaudida!

Os ganhadores com o perdão da dívida (Refis) já se conhece. O “Estadão” de ontem tem a lista. Agora Meirelles se uniu a Maia para combater a malandragem escabrosa do relator Newton Cardoso Jr. Será que o contribuinte vai ganhar essa batalha contra os malandrões do Congresso, que terão suas dívidas perdoadas em mais essa tentativa de perdão a quem não paga direito suas dívidas com o Erário?

Ontem comentei aqui a notícia do Estadão de que “Parlamentares que vão votar perdão de dívidas devem R$ 533 milhões à União” . (…) Os R$ 532,9 milhões em dívida dos parlamentares consideram apenas as dívidas em aberto, ou seja, o endividamento classificado como “irregular” pela PGFN. Isso porque deputados e senadores já foram beneficiados por parcelamentos passados. Escândalo! Sabe quem pagará essas benesses? Nós!

Olhe aí em cima de sua mesa a manchete do Estadão: Temer decide elevar imposto para fechar contas do ano”. ´Eles fazem o rombo, ficam no bem bom e nós pagamos a conta.

É o mesmo caso da Oi. O TCU/ CVM / Ministério Público têm de investigar a Oi. Apurar a causa da maior concordata da história do Brasil.

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), declarou ontem que é contra o distritão. Você também é, não é?
“Se você só elege os 70 primeiros, que adianta lançar o candidato que tem 30 mil votos? Acho que o chamado distritão é pior que o modelo atual. É preciso tornar a campanha mais barata”, perguntou Alckmin Alckmin.

Há uma diferença entre a posição dele e a minha. Ele é contra o distritão, mas a favor da reforma política. Eu vou além não vejo motivo para discutir a reforma política agora, a não ser para salvar a pele de parlamentar enrolado na Lava Jato. Pra que campanha cara? Só pode ser para manter os corruptos no poder e, em conseqüência disso, a corrupção que nos aflige.

Como informou o Estado/Broadcast esta semana, deputados de ao menos dez partidos, entre eles o PMDB e o PSDB, já entraram em acordo para incluir a proposta do “distritão” no projeto de reforma política a ser discutido em agosto. Pelo sistema, são eleitos apenas os parlamentares mais votados em cada Estado, sem considerar quociente eleitoral ou voto em legenda. Para esse grupo, a proposta é uma alternativa para garantir a própria reeleição em meio ao descrédito cada vez maior da classe política nos últimos anos.

Fonte: “O Estado de S. Paulo”.

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