Economia sentirá impacto do dólar valorizado

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Atividade econômica abaixo do potencial conterá pressão inflacionária, mas ajustes são essenciais para um 2016 melhor

A alta do dólar, que nesta terça-feira atingiu R$ 2,836, a maior cotação desde os R$ 2,837 registrados em 8 de novembro de 2004, certamente terá impactos importantes na economia brasileira. A indústria, num primeiro momento, poderá ser beneficiada, mas, a longo prazo, será necessário fazer ajustes. Economistas ressaltam, porém, que a taxa básica de juros (Selic) em patamar elevado — hoje está em 12,25% ao ano — e a fraqueza da atividade econômica vão amortecer um pouco a pressão do dólar na inflação.

A disparada da moeda americana está relacionada a fatores externos, como a crise na Grécia e a expectativa sobre a alta de juros nos Estados Unidos, e internos. Ontem, no entanto, pesaram mais os problemas locais. As incertezas em relação ao ajuste fiscal, que deve encontrar resistência no Congresso, a desaceleração da economia e a inflação em alta preocupam os investidores. Além disso, o governo sinalizou de que não irá mais intervir no câmbio, deixando a moeda flutuar.

— O Banco Central está deixando nas mãos do mercado a procura de um novo nível para a taxa de câmbio. Os investidores estão bem pessimistas. Agora o mercado acha que o céu é o limite — disse Reginaldo Galhardo, gerente de câmbio da Treviso Corretora.

No fim de janeiro, o ministro da Fazenda, Joaquim Levy, afirmou que o governo não deixaria o câmbio artificialmente valorizado. Foi o primeiro passo para a recente alta do dólar. A cada semana, segundo operadores, os investidores testam novos patamares. Desde então, a atuação do BC está limitada à oferta da “ração diária” de US$ 100 milhões e à rolagem dos contratos de swap (equivalente a uma oferta de moeda).

E não é apenas o dólar que está em alta. Aumentou também a percepção de risco do investidor em relação ao Brasil. Os credit default swaps (CDS), que funcionam como uma espécie de seguro para quem investe em papéis da dívida brasileira, de cinco anos subiram para 235 pontos ontem, o que equivale a uma alta de 16,83% no acumulado do ano e de 5,86% em apenas um dia. Já os CDS de dez anos atingiram 291,7 pontos, alta de 12,48% em 2015. Outro indicador que também reflete o risco maior é o Emerging Markets Bond Index Plus (Embi+), do JPMorgan, que passou ontem de 293 para 302 pontos.

— É um conjunto de fatores que está afetando a percepção dos investidores. A atividade está ruim e com restrição energética e hídrica. Há ainda os efeitos potencialmente negativos da Operação Lava-Jato nos negócios. Isso causa um mau humor com o Brasil — disse Rodolfo Oliveira, economista da Tendências Consultoria.

Na avaliação de Mauro Rochlin, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV), o dólar só não atingiu uma cotação ainda maior devido à Taxa Selic, que está em 12,25% ao ano. O juro elevado acaba atraindo investidores estrangeiros ou, no mínimo, limitando a saída de recursos.

— A aversão ao risco-Brasil ocorre porque as chances de a inflação ficar acima da meta estão maiores, assim como de o PIB crescer menos. E tem ainda o agravante de um possível racionamento de energia e água. Tudo isso se traduz em valorização do dólar, que só não é maior por causa dos juros altos no Brasil — disse Rochlin, acrescentando que a alta do dólar irá beneficiar exportações, o que pode ajudar no equilíbrio do balanço de pagamentos.

Para a indústria, câmbio mais valorizado é bem-vindo

Para a indústria, a alta da moeda americana é bem-vinda e positiva, pois ajudará a recuperar a competitividade perdida nos últimos anos, período em que o real esteve sobrevalorizado.

— Neste momento, o câmbio pode ajudar a indústria — disse Thomaz Zanotto, diretor do departamento de Comércio Exterior da Federação das Indústrias de São Paul (Fiesp), para quem um dólar de “equilíbrio” seria em torno de R$ 3.

Além de poupar reservas, um dólar próximo desse patamar também ajudaria a balança comercial, cujo segmento de manufaturados registrou, nos últimos dois anos, déficit acima de US$ 100 bilhões.

Na indústria, a previsão é de vantagem para os setores exportadores, num primeiro momento. Depois, deve haver impacto negativo para os setores que dependem de insumos importados, explica Guilherme Mercês, gerente de Economia e Estatística da Firjan:

— O cenário para a indústria é apertado. Neste início de ano, o setor enfrenta aumento da carga tributária; alta de juros, que eleva o custo de financiamento; além de haver a possibilidade de escassez de dois insumos básicos: água e energia. O aumento do dólar é uma espécie de gota d’água nesse contexto.

Como máquinas e equipamentos são em larga escala comprados fora do país, devem cair os investimentos no segmento industrial.

— Este ano será difícil e de ajustes. Só chegaremos a 2016 numa posição melhor se não nos furtarmos de fazer as reformas necessárias, como a fiscal, para retomar o crescimento da economia – alertou Mercês.

Economistas ressaltam ainda que a debilidade da economia brasileira deve amortecer os impactos da alta do dólar. Com o desempenho do país abaixo de seu potencial produtivo, há pouca margem para repassar ainda mais custos ao consumidor, explicam, o que forçará indústria e comércio a equilibrarem despesas para fazer os menores ajustes possíveis.

A curto prazo, o fortalecimento do dólar pode ajudar as exportações. A longo prazo, os ajustes serão inevitáveis.

— O impacto da alta do dólar na inflação brasileira será menor que o registrado em outros momentos. Estamos numa situação comparável à da crise de 2009, com grande expansão no valor da moeda americana, mas com a demanda interna enfraquecida — afirmou Mercês.

Carlos Thadeu de Freitas, consultor econômico da Confederação Nacional do Comércio (CNC), concorda:

— A valorização do dólar traz pressão inflacionária. Mas, com a fraqueza da economia do país, ela acaba sendo atenuada. Não há como repassar alta de custos para os preços.

Os empresários do Rio devem sentir impacto do dólar, mas, por ora, se esforçam para trabalhar com uma série de outros fatores que pressionam mais a inflação no estado, defende Christian Travassos, gerente de Economia da Fecomércio-RJ. É que a cidade é intensiva em serviços, e os preços desse grupo têm subido acima da média, puxados por salários, tributação e gastos com aluguel.

— O empresário está com pouca margem de manobra, com a demanda em banho-maria, a planilha de custos mais cara e a concorrência, acirrada — disse Travassos. — Para atravessar 2015, será preciso investir em datas comemorativas, promoções e fidelização da clientela.

No setor de viagens, dólar estável é essencial

O freio no consumo, explica o consultor da CNC, afeta em cheio o resultado do comércio, que vende abaixo do esperado, mesmo recorrendo a promoções.

No setor supermercadista, por exemplo, a estratégia passa pela negociação com a indústria, para manter os preços nos patamares atuais. Se a escalada do dólar persistir, contudo, será preciso alterar os preços, pois alguns produtos importados ou mesmo nacionais que dependem de insumos do exterior terão de ser reajustados, disse Rodrigo Mariano, do departamento de Economia e Pesquisa da Associação Paulista de Supermercados (Apas).

Azeites, vinhos importados, bacalhau, itens de higiene e limpeza, além de massas — parte do trigo usado no Brasil vem de fora — estão entre os produtos que podem ter aumento de preço mais adiante.

— Não é hora de mexer em preço de imediato. O consumidor já está arcando com um grande aumento de despesas. É preciso aguardar para ver se a moeda vai estabilizar, e avaliar a necessidade de ajuste. Se for necessário, poderá ser feito em etapas — destaca Sérgio Leite, diretor comercial do Supermercados Mundial.

No turismo ainda não há registro de queda nas vendas de pacotes em moeda americana, segundo a Associação Brasileira de Agências de Viagens (Abav).

— A temporada atual já estava toda vendida. Em viagens, o problema está na oscilação do dólar. A partir do momento em que a moeda estabiliza, mesmo que num valor alto, o turista consegue programar o quanto pode gastar — conta Leonel Rossi, vice-presidente de Relações Internacionais da Abav.

Não há substituição de viagens internacionais por outras no Brasil, diz ele. O turista que planeja viajar para o exterior opta por ajustar o roteiro de forma a reduzir o preço ou adia o programa.

Fonte: O Globo

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