Os economistas Alexandre Schwartsman, Luiz Carlos Mendonça de Barros e Delfim Netto podem ter pontos de vista distintos sobre muitos assuntos econômicos, mas em um aspecto eles concordam: a desaceleração da economia brasileira nos últimos anos não está de forma alguma relacionada a fatores internacionais, mas, sim, a fenômenos domésticos. Foi o que defenderam durante o 9º Seminário Internacional da Acrefi realizado hoje (06/11) em São Paulo. A crise internacional e seus possíveis efeitos têm sido justificativa recorrente do governo e do ministro da Fazenda Guido Mantega para explicar por que a economia foi de um crescimento médio de 4%, no governo Lula, para uma projeção abaixo de 1% em 2014.

Os fenômenos, no entanto, são distintos para cada um deles. Schwartsman argumenta que a desaceleração da economia está relacionada à queda de produtividade, causada por mudanças na dinâmica do mercado de trabalho. “O problema da economia brasileira não é cíclico. É o esgotamento do mercado de trabalho, que reduz exponencialmente a produtividade, pressiona os salários, eleva o custo da indústria e aperta a inflação”, afirmou. Já Luiz Carlos Mendonça de Barros acredita que vivemos o “fim de um ciclo de ouro do crescimento”. Para ele, Dilma teria utilizado em seu primeiro mandato os mesmos estímulos aplicados no governo Lula, de aumento do crédito e do gasto público. “A interferência do governo tirou um pouco o lucro das grandes empresas. Vivemos sete ou oito anos de um período de ouro de crescimento. Isso acabou inebriando o governo, que não viu o ciclo terminar”, disse.

Para Delfim Neto, o baixo crescimento do Brasil tem uma outra explicação: a queda da indústria. “Não tem a ver com fatos externos. Desde 2009, deixamos de acompanhar o mundo. A produção industrial se estabilizou, enquanto as vendas reais do varejo cresceram”. Segundo Delfim, entre 2004 e 2006, a indústria cresceu 12%, o mesmo patamar do comércio. Porém, entre 2007 e 2009, o comércio teve alta de 25,5% enquanto a indústria caiu para 7,9%. “O que notamos é a falta de produtos industriais brasileiros, não a diminuição da demanda. Isso não é um fenômeno recente. Vem desde 1994, quando o Brasil abandonou o esfoço exportador e foi perdendo espaço nas exportações mundiais”. Delfim cita dados mostrando que, entre 1983 e 1984, o país respondia por 0,9% do comércio mundial de manufaturas, enquanto a China estava com 1%. Hoje, os chineses detêm 16%, enquanto o Brasil caiu para 0,7%.

A elevação dos juros e a valorização do real nos últimos anos geraram um déficit na balança comercial, defende o ex-ministro. “Em 2005, exportávamos sapato da Zona Franca de Manaus para a Alemanha e, poucos anos depois, estavámos comprando sapato da China. O país se transformou em importador”.

Entre outros fatores que impediram o crescimento, Delfim cita também o excesso de burocracia, a condução atrapalhada das concessões de infraestrutura e um clima de negócios muito ruim. “Faltou também uma política cambial previsível. Faz 30 anos que o Brasil usa o câmbio como substituto da política monetária para combater a inflação”, disse. Para Schwartsman, há um abuso na “intervenção maçiça no câmbio, por meio da política de swaps cambiais”. “O país não está em uma situação desesperadora, mas com crescimento do déficit da conta corrente (cerca de 4% do PIB) e com a iminência de mudanças nas condições monetárias, pode piorar”, afirma o economista.

O que fazer?

Além da necessidade da retomada da confiança e da credibilidade, os economistas citaram outros fatores para o Brasil voltar a crescer. Para Delfim, a prioridade precisa ser uma política industrial que valorize as exportações. “Hoje, dois terços do comércio de bens industrais se fazem intra-firma. Das 500 maiores multinacionais, 400 estão no Brasil. É com elas que precisamos conversar”. O ex-ministro defende que o “maior erro que se pode cometer” é acreditar que política industrial se faz “restringindo as importações”. “A política industrial não deve ser feita para proteger o mercado interno, mas sim para aumentar as exportações”. Recuperar as contas públicas e diminuir o déficit de conta corrente é uma outra necessidade, afirma Schwartsman. O economista acredita que as mudanças não são aplicáveis a curto prazo, mas é preciso ter um “plano de voo”.

No curto prazo, Delfim defende que uma reforma no ICMS, por exemplo, mudaria “as expectativas de imediato e atraria os investidores e empresários”. Além disso, ele fala na “aprovação da proposta da CUT”, que coloca a relação entre empresas e trabalhadores acima da lei.

Já Mendonça, que defendeu uma visão mais otimista durante o seminário, afirmou que o Brasil precisa se concentrar em manter um grande número de pessoas na economia formal. “Em 1993, dois terços dos brasileiros viviam na economia informal e dependiam do governo. Em 2016, a projeção do Itaú é de que 70% dos brasileiros estarão trabalhando na economia formal. Que país emergente tem isso? Não é um país muito melhor?”. Para Mendonça, o desafio agora é preservar esse cenário. “Com mais gente na formalidade, melhorará a percepção da população sobre aquilo que ela ganha efetivamente e aquilo que o estado dá. Ela começará a perceber o peso dos impostos”. Segundo ele, só essa percepção irá levar, no longo prazo, a pressões para mudar a constituição, reequilibrar o papel do Estado e ter outra agenda de transformação para o país.

Fonte: Pequenas Empresas & Grandes Negócios.

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