Educação financeira, obrigação que vai da infância à terceira idade

Segundo especialistas, cada etapa exige abordagem diferente

As famílias são um dos temas principais desta Semana Nacional de Educação Financeira. Mas cada componente do núcleo familiar tem necessidades específicas quando o assunto é equilibrar o orçamento. Das crianças aos avós, especialistas recomendam abordar a questão econômica de acordo com um universo etário próprio. Enquanto crianças e adolescentes têm seus primeiros contatos com o dinheiro a partir da mesada e de aplicativos de celular, adultos e idosos estão pensando em objetivos de mais longo prazo ou poupando para dar suporte a filhos e netos.

Conscientização de pai para filho

Segundo Marcela Kawauti, economista-chefe do SPC Brasil, as pesquisas mostram que há ainda descompasso entre a importância que os pais reconhecem na educação financeira e a aplicação desses princípios na prática. Frequentemente, observa ela, os pais não conseguem passar aos filhos esses conceitos porque eles próprios têm suas finanças desequilibradas ou porque agem segundo a lógica “quero dar a eles tudo o que não tive”, o que dificulta o controle dos impulsos de consumo das crianças.

– Se você ensina a seu filho a ter um não quando criança, ele certamente será um adulto que lidará muito melhor com frustrações no futuro. Os pais que querem proteger demais as crianças acabam criando adultos mais vulneráveis e menos tolerantes com os “nãos” da vida – sustenta.

Marcela lembra que, embora esteja crescendo a conscientização financeira na escola, essa parte da formação não deve ser delegada exclusivamente ao colégio. A economista ressalta que é papel dos pais introduzir o tema junto aos filhos. Situações do cotidiano são ideais para isso, afirma:

– Há muitos pais que não falam de finanças no jantar, o que é muito ruim. O dinheiro deve ser debatido no dia a dia. Se é difícil levar às crianças ao supermercado, uma ida à padaria ou a um restaurante já pode ser educativa. Se a família vai para a Disney no fim do ano, por que não estimular também os filhos a economizar para pagar uma parte pequena dos gastos da viagem?

Mesada, ainda importante

A mesada, de acordo com Marcela, continua sendo uma ótima ferramenta pedagógica. A economista afirma que ela deve se adaptar à realidade da criança, tanto em termos de valor como no que diz respeito à periodicidade:

– Para uma criança de seis a sete anos, é melhor começar com uma “semanada”, porque o horizonte da criança é mais restrito. O valor também deve acompanhar essa proporção. Tem que ser pouco, para comprar o lanche na escola, por exemplo. Quando a criança atinge oito anos, a distribuição já pode ser mensal. A partir dos 12 anos, ela deve ser acompanhada de mais responsabilidade etc.

A mesada também suscita armadilhas. Um erro comum, lembra Marcela, é condicioná-la à realização de tarefas, como arrumar o quarto ou lavar a louça.

– Os pais devem passar para o filho que esse tipo de responsabilidade não está ligada a dinheiro. São como os deveres de um cidadão. Caso contrário, a criança pode entender que ela tem o direito de realizar essas tarefas se não receber o dinheiro. E se o pai perder o emprego, o que ela faz? – interroga. – Isso é outra questão importante. Além de a mesada precisar ser condizente com padrão de vida da família, ela também deve ser diminuída se os pais passam por uma dificuldade financeiro. A criança deve saber que essas coisas acontecem na vida.

Os responsáveis também precisam ser duros caso a criança e o adolescente cometam erros na utilização do dinheiro. Eles são pedagógicos, argumenta a especialista:

– O pai deve interferir em caso de uso errado da mesada. Ele tem que aproveitar os erros das crianças para ensiná-las. Se a criança gastar em um só dia o dinheiro da semana inteira, é preciso que ela fique sem o dinheiro. Os pais não podem ser “moles”, senão crescerá pensando que poderá sempre contar com a ajuda dos país.

Apps para adolescentes

Na adolescência, pais e escolas precisam lançar mãos de recursos do universo dos jovens para falar de educação financeira, diz a economista Camille Bemerguy, representante da Fundacion Capital no Brasil. De acordo com a especialista, se a educação financeira na escola é importante, ela ainda assume tom excessivamente professoral e está constantemente associada à matemática.

Para Camille, a saída é trabalhar de forma mais lúdica este conteúdo. Em parceria com o governo do Estado do Rio, a organização internacional criou um aplicativo de celular chamado DinDin Quiz, um jogo de perguntas e respostas sobre educação financeira com foco em jovens. O app permite, por exemplo, desafiar amigos nas redes sociais, como em softwares populares como SongPop. Nesta terça-feira, a Fundacion Capital e o governo do Estado vão promover uma olimpíada com estudantes usando o aplicativo.

O app pode ser baixado nestes links para Android e iPhone.

– Criamos também um jogo digital para explicar como administrar um micro empreendimento do ramo gastronômico, como o EduChef – explica Camille Bemerguy. – Se o jovem tem sonhos, ele também precisa se organizar. Mas é preciso trabalhar esse tema de forma mais lúdica, através de jogos.

De acordo com Camille, a conscientização dos jovens pode ser a chave do equilíbrio econômico para o restante da família.

– O fator de herança familiar é muito forte. Pais que se organizam ensinam isso a seus filhos. Por outro lado, em famílias que não tem tanto conhecimento, há um protagonismo desse jovem que aprendeu o conceito e passa para sua família. Logo, se você capacita o jovem, ele acaba sendo um fator de influência – sustenta.

Idosos: longe do lugar comum

Na terceira idade, alguns lugares-comuns associados a problemas financeiros não valem, segundo a psicóloga e doutora em educação Caroline Stumpf Buaes, que integra o projeto de pesquisas “Propensão ao endividamento de pessoas idosas” na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Não existe, por exemplo, relação direta do problema com níveis de renda ou de escolaridade ou mesmo com características de personalidade, de acordo com Caroline; o consumo irresponsável também não é uma causa preponderante; a violência financeira atinge apenas uma minoria, a dos idosos mais vulneráveis, geralmente mais velhos e doentes.

– Eventos da vida, como uma doença ou o desemprego de um filho, são elementos mais fortes para desequilibrar o orçamento de um idoso. A questão familiar é muito importante. Para o idoso, é muito importante ajudar seus filhos e seus netos. O que passamos para eles é que a questão não é não ajudar, mas o quanto é possível ajudar – observa a pesquisadora.

Segundo Caroline, os principais indícios de problemas financeiros na terceira idade são: comprometimento de pelo 30% da renda com financiamentos e ter mais de um empréstimo consignado simultâneo.

– O consignado é um problema é cada vez maior. Muitas vezes, existe uma dificuldade do idoso em compreender as regras. Eles dizem que o banco explicou, mas é difícil para eles, por exemplo, entender que a renda será comprometida por um longo período de tempo – conta.

Ela lembra que a ex-presidente Dilma Rousseff elevou o prazo máximo para o pagamento do consignado de aposentados e pensionistas de 60 para 72 meses, prolongamento que, segundo Caroline, contribui para maior desequilíbrio orçamentário.

– Esses idosos precisam se esforçar para organizar suas finanças, e isso pode começar a ser feito de um modo simples, como um caderninho. O importante é criar categorias, identificar gastos fixos etc. Seria interessante que profissionais que trabalham em políticas de assistência social, que fazem visitas domiciliares, atuassem na conscientização desse público.

A UFRGS produziu uma cartilha que ensina a organizar o orçamento e pode ser baixada neste link.

Fonte: “O Globo”

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