Em 2015, agências de risco já rebaixaram 23 ‘ratings’

Empresas brasileiras sofrem com Lava-Jato e alta do dólar. Corte na nota eleva custo de captação no exterior

No momento em que o Brasil se esforça para manter o grau de investimento, uma espécie de selo de qualidade para investidores dado pelas agências de classificação de risco, uma parcela das grandes empresas nacionais já recebeu o carimbo negativo de Fitch, Moody’s e Standard & Poor’s (S&P) este ano. A combinação de uma economia em desaceleração e as investigações de corrupção na Petrobras levaram ao rebaixamento de nada menos que 23 ratings corporativos, entre eles o da própria petrolífera, em apenas dois meses, segundo levantamento feito por “O Globo”. No mesmo período, nenhum foi elevado. Na prática, isso significa que ficou mais difícil levantar recursos no exterior. Quem for buscar algum recurso lá fora, terá de pagar juros mais altos, já que o rebaixamento aumentou a percepção de risco aos olhos dos investidores internacionais. A avaliação pelas agências é uma exigência dos investidores para quem capta lá fora.

— Este ano poderá ser o pior em termos de classificação de risco das empresas brasileiras, superando inclusive o ano passado — diz Ricardo Carvalho, diretor sênior de Empresas da Fitch.

Em 2014, na classificação da Fitch, 18 ratings de empresas brasileiras tiveram a nota global rebaixada e houve cinco upgrades, uma melhora na avaliação de risco da empresa. Este ano, a agência não elevou nenhum rating e cortou cinco, entre eles o da Petrobras.

Entre os países emergentes, somente a Rússia registrou um número tão significativo de rebaixamentos quanto o Brasil. Considerando as três agências de classificação de risco, foram cerca de 15 rebaixamentos, sendo dez de bancos, já que o país passa por uma crise cambial. O rublo já perdeu mais de 40% de seu valor. A queda do preço do petróleo ao menor nível dos últimos cinco anos também colocou em xeque a capacidade de crescimento da Rússia este ano. Metade das receitas do país vem da venda do petróleo. O mercado estima que a economia russa terá um retração de 5,5% este ano.

Nem mesmo em 2008 e 2009, durante a crise financeira global, tantos ratings haviam sido rebaixadas por essas agências. E o diretor da Fitch lembra que 27% das 72 empresas brasileiras que são avaliadas pela agência já estão com perspectiva negativa em suas notas.

Um grupo de empresas foi rebaixado pelas agências antes mesmo que a nota da Petrobras fosse revisada. São, na maioria, construtoras que trabalhavam diretamente com a petrolífera. Elas estão no centro das investigações da Operação Lava-Jato, da Polícia Federal, e suas operações foram diretamente afetadas. A Petrobras deixou de repassar recursos, e o caixa das empresas ficou apertado. Os bancos também estão dificultando o crédito a essas empreiteiras, o que agravou a situação financeira delas, levando ao rebaixamento.

— Essa crise está em andamento. Mas há um ambiente econômico ruim, que acaba tornando difícil o acesso para empresas brasileiras de diferentes setores ao mercado de crédito internacional — explica Carvalho, da Fitch.

Portas fechadas lá fora

Entre os ratings já revisados para baixo este ano estão os de empresas de construção civil, como a PDG; os de empreiteiras, como Andrade Gutierrez, Mendes Júnior, Camargo Corrêa e OAS — esta, rebaixada por Moody’s e S&P —; o da mineradora Vale; o da siderúrgica Usiminas; e o do Grupo Virgulino de Oliveira, de usinas de etanol.

Este ano, nenhuma empresa brasileira conseguiu, até agora, emitir títulos da dívida no exterior. Nos últimos anos, quem costumava abrir a temporada de captações lá fora, com operações de bilhões de dólares, era a Petrobras. Há quatro meses nenhuma operação desse tipo é realizada por companhias nacionais — o período mais longo desde a crise de 2008. Por ter de pagar juros mais elevados, as empresas estão postergando a busca por dólares.

— Em tese, o mercado externo não está fechado às companhias brasileiras. Mas o preço do dinheiro ficou muito mais alto, resultado desse cenário econômico mais fraco — afirma Alexei Remizov, responsável pela área de renda fixa do HSBC em Nova York.

Ele observa que, já prevendo uma piora nas condições de crédito, uma parte dos emissores tradicionais antecipou as captações para 2015, buscando o dinheiro no ano passado, antes das eleições. Por isso, podem esperar e aguardar o momento mais adequado para garimpar recursos. Remizov lembra que houve também um aumento do custo de captação para as empresas da América Latina, mas não na mesma proporção do que ocorre para os brasileiros.

No mercado secundário, onde os títulos de dívida já emitidos são negociados, o aumento desse custo é mais perceptível. Nos papéis com vencimento em 2014, a Petrobras pagava um spread (ganho acima dos títulos do Tesouro americano de prazo equivalente) de 2,89 pontos percentuais. O spread subiu agora para 5,07 pontos. Nos títulos da Braskem de mesmo vencimento, a taxa subiu de 3,02 para 4,01 pontos, enquanto os da Gerdau passaram de 2,76 para 3,67 pontos. Segundo a Jive Investments, em média, o custo para as empresas brasileiras subiu 3 pontos percentuais. No caso dos títulos das construtoras investigadas na Lava-Jato, os spreads dispararam ainda mais, considerando-se os papéis com prazos de 5 a 10 anos. O spread dos títulos com vencimento em 2018 da Andrade Gutierrez, uma das investigadas, saltou de 2,77 para 10,32 pontos.

Incertezas pesam no curto prazo

O professor de economia Ernesto Lozardo, da Fundação Getulio Vargas de São Paulo, lembra ainda que a desvalorização do real tem impacto direto sobre a dívida emitida no exterior:

— De uma hora para a outra, a dívida em moeda estrangeira de algumas empresas deu um salto e se descolou do faturamento. Muitas dessas empresas não são exportadoras e não têm receita em dólar. Com isso, fica comprometida a capacidade de pagamento, e o rating é rebaixado — diz Lozardo.

Neste ano, o dólar já subiu 14,8% frente ao real.

Para o professor, o ajuste fiscal, desde que funcione, deverá melhorar a situação econômica brasileira, mas em um prazo mais longo. A curto prazo, ainda há muitas incertezas, o que pode levar a novos rebaixamentos.

O advogado Fernando de Azevedo Peraçoli, do escritório Levy & Salomão Advogados, que atua na área de mercado de capitais, observa que a relação entre rebaixamento de nota e aumento do custo de captação é direta. Ele lembra que, nesse cenário, os potenciais investidores interessados em títulos de dívida dessas empresas tendem a diminuir, já que muitos fundos de investimento têm regras que os impedem de aplicar em companhias sem grau de investimento. Peraçoli observa ainda que há casos em que o investidor pede a inclusão da cláusula em que a companhia se compromete a fazer o pagamento antecipado do título se tiver a nota rebaixada:

— É uma forma de se resguardar de uma mudança de rating.

Fonte: O Globo

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