Em dez meses, violência fechou um terço das clínicas e dos postos de saúde do Rio

Na semana passada, muitos pacientes que procuraram o Centro Municipal de Saúde Dr. Henrique Monat e a Clínica da Família Wilson Mello Santos, na Vila Kennedy, não conseguiram ser atendidos. O motivo: confrontos entre traficantes rivais e também entre bandidos e PMs da UPP local. Segunda, terça e sexta-feira, as unidades fecharam por volta das 13h por causa da violência. Para piorar, também na sexta, a Unidade de Pronto Atendimento que fica perto da sede da UPP amanheceu fechada: ela havia sido atingida, durante a madrugada de tiroteios, por pelo menos dez disparos, que perfuraram paredes e vidros.

Os constantes confrontos registrados na cidade vêm ferindo gravemente os serviços das 232 unidades básicas de saúde do município. De janeiro a outubro deste ano, 77 delas, ou um terço do total (33,2%), fecharam em algum momento devido a tiroteios. Os dados são da Secretaria municipal de Saúde. E o prejuízo não é apenas para o bem-estar da população: como houve 380 paralisações no período e o custo médio de cada unidade é de R$ 32 mil por dia, a estimativa é que a insegurança tenha provocado perdas de cerca de R$ 12,1 milhões. A rede básica é composta por 114 clínicas da família e 118 centros municipais de saúde.

Um único posto numa comunidade em Santa Cruz — a prefeitura não informa o nome para proteger os médicos — chegou a ficar sem atender 33 vezes, o que equivale a mais de um mês sem funcionar, apesar de terem sido mantidos os gastos com profissionais de saúde, limpeza e energia, entre outros. Além de Santa Cruz, foram registrados problemas em lugares como Pavuna, Madureira, Irajá, Vigário Geral, Penha, Ramos, Maré, Inhaúma e Jacarezinho.

Ações para se proteger da insegurança
No ano passado, a violência também prejudicou pacientes da rede básica: de janeiro a outubro, foram 401 paralisações de atendimento em 72 unidades.

Os números foram obtidos pelo “Globo” no programa batizado pela prefeitura de Acesso Mais Seguro. Ele foi criado pela Secretaria municipal de Saúde em parceria com o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV). A ideia da iniciativa, segundo o secretário de Saúde, Daniel Soranz, é criar um protocolo de ações para orientar os profissionais durante episódios de violência.

— O programa foi pensado para dar mais segurança aos profissionais de saúde e aos próprios pacientes. A ideia é estabelecer regras de como todos devem se comportar em situação de risco dentro e fora das unidades de saúde — afirmou o secretário.

O projeto, que começou a ser implantado em 2009 pela Subsecretaria de Atenção Primária, Vigilância e Promoção da Saúde, estabelece uma série de critérios para avaliação da situação e medidas a serem tomadas. As condições de segurança são representadas por cores semelhantes aos dos sinais luminosos. Verde, por exemplo, representa baixo risco para o funcionamento da unidade (a circulação é possível e o clima não está tenso). O amarelo e o amarelo parcial representam risco médio, com alta probabilidade de que algo aconteça (mas de pequena consequência para o trabalho). Já o vermelho simboliza alto risco (com grande probabilidade de que algo aconteça e tenha consequências graves). É o caso de dias com tiroteios. Nessas ocasiões, a unidade deve ser fechada.

— Outra função do programa é traçar estratégias de saúde e elaborar um diagnóstico real do funcionamento das unidades — disse Fernanda Prudencio, coordenadora do programa Ciclos de Vida, da Subsecretaria de Atenção Primária, Vigilância e Promoção da Saúde.

Fernanda e o médico Guilherme Wagner, superintendente de Atenção Primária, explicaram que o projeto vem sendo aperfeiçoado ano a ano.

— A partir dos sinais do território, as equipes de saúde desenvolvem um plano de segurança local. Elas foram treinadas para informar, todos os dias, a situação de funcionamento da unidade. Antes não havia um critério, e até o barulho do escapamento de um carro podia resultar no fechamento do posto. Agora não: há um critério, que é discutido por todos — informou Wagner.

É como uma estratégica de guerra para uma rotina de conflitos. Na Vila Kennedy, uma funcionária de uma das unidades de saúde revela a tensão que a acompanha no dia a dia:

— A situação é de medo entre funcionários e pacientes. Não sabemos exatamente o que está acontecendo.

Médicos sofrem com problemas psicológicos
Entre médicos ouvidos pelo “Globo”, os relatos de violência são constantes.

— Já passei por situações de extrema gravidade, como quando a unidade onde trabalho foi invadida por homens armados, que exigiam atendimento imediato para uma pessoa ferida a tiro — contou um deles, pedindo para não ser identificado.

O temor se espalha por diferentes áreas da cidade. No Complexo do Alemão, por exemplo, na semana passada, PMs buscaram abrigo numa unidade de saúde durante um confronto com traficantes.

Segundo o presidente do Sindicato dos Médicos, Jorge Darze, a difícil rotina afeta inclusive a saúde mental dos profissionais de saúde.

— Não só dentro do posto de saúde, mas também na periferia da unidade, são vários casos que geram doença mental. Metade dos médicos desenvolve algum tipo de problema psicológico — afirmou Darze.

E o problema não é de hoje. Há seis anos, em setembro de 2010, a violência acabou provocando o fechamento definitivo de uma unidade: o Centro Municipal de Saúde Ruy da Costa Leite, que ficava na Favela do Rola, em Santa Cruz. Ele havia sido inaugurado em 1987. Com isso, moradores agora precisam buscar outras unidades nas imediações da comunidade.

Fonte: “O Globo”.

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