Em nove estados, pesquisas retrataram quadro longe da realidade

Os resultados divulgados na noite de domingo pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) colocaram em xeque os números apresentados por pesquisas de intenção de voto e de boca de urna realizadas em nove estados tanto pelo Datafolha quanto pelo Ibope — os dois principais institutos do país.

No cenário da disputa presidencial, ambos previram que o candidato Aécio Neves (PSDB) apresentava uma tendência de alta, mas as cifras indicadas por Datafolha e Ibope no sábado e no domingo, respectivamente ficaram mais de três pontos percentuais abaixo dos 33,6% obtidos pelo tucano. Para o Datafolha do dia 4, Aécio tinha 26% das intenções de voto. Segundo o boca de urna do Ibope, seria 30% dos votos.

No que diz respeito às disputas estaduais, as divergências entre pesquisas e resultados ficaram ainda mais evidentes.

Um levantamento feito pelo GLOBO revelou que as sondagens divulgadas pelo Datafolha na última semana de campanha diferiram em mais de três pontos percentuais — a margem máxima de erro das pesquisas — num total de sete estados. Com isso, 11 candidatos a governador foram afetados.

O caso que mais chamou a atenção foi o da disputa do Rio Grande do Sul. No último sábado, o Datafolha divulgou uma pesquisa em que dava 36% das intenções de voto ao governador Tarso Genro, candidato à reeleição pelo PT. Ele aparecia em primeiro lugar na disputa. Seus adversários José Ivo Sartori, do PMDB, tinha 29% das intenções de voto, e Ana Amélia, do PP, 29%.

A apuração revelou, no entanto, que Sartori conquistou o primeiro lugar, com 40,4% dos votos, 11,4 pontos percentuais a mais do que o previsto pelo instituto. A contagem dos votos colocou Tarso no segundo turno, em segundo lugar, com 32,5% dos votos. Esse total está 3,4 pontos abaixo da cifra que havia sido apontada pelo Datafolha. Além disso, a apuração revelou que Ana Amélia estava fora da disputa pelo governo gaúcho, com 21,7% dos votos, 7,2 a menos do que o total que a pesquisa indicava.

Em Pernambuco, as divergências para além da margem máxima de erro de três pontos percentuais se repetiram. Paulo Câmara (PSB) foi eleito governador no primeiro turno com 68% dos votos, sete pontos percentuais a mais do que havia sido constatado pelo Datafolha em seu último levantamento, divulgado na véspera da votação. Seu adversário Armando Monteiro Neto (PTB) obteve 31% dos votos, 6 pontos a menos do que havia sido previsto um dia antes.

Em São Paulo, a sondagem revelada também no dia 4 deu a Alexandre Padilha (PT) um total de 18,2% dos votos. A cifra obtida pelo petista nas urnas foi 5,2 pontos percentuais a acima disso. No Rio de Janeiro, Anthony Garotinho (PR) deixou a disputa pelo Palácio Guanabara com 19,7% dos votos. Esse total está 5,2 pontos percentuais abaixo do previsto pelo Datafolha, que, na véspera, o colocara no segundo turno da disputa fluminense.

Além desses casos, ainda houve diferença de mais de três pontos percentuais entre os resultados divulgados pelo Tribunal Superior Eleitoral e os levantamentos feitos na última semana pelo Datafolha em Minas Gerais, Paraná e Distrito Federal.

O marketing dos institutos

Ao avaliar o desempenho do Ibope, O GLOBO também encontrou divergências de mais de três pontos percentuais (o máximo da margem de erro) entre a votação e as pesquisas de boca de urna feitas em sete estados. Nesse cenário, um total de dez candidatos a governador foi afetado pela discrepância.

Os casos que mais chamaram a atenção também ocorreram no Rio Grande do Sul e em Pernambuco. A boca de urna feita pelo Ibope sobre o desempenho do gaúcho Sartori no dia da votação indicou que ele teria 29% dos votos. Após o fechamento das urnas, o TSE informou que ele teve 11,4 pontos a mais. A boca de urna sobre o desempenho do pernambucano Paulo Câmara informou, por sua vez, que ele teria 58% dos votos, mas, na verdade, ele teve dez pontos percentuais a mais do que o previsto.

A sondagem divulgada pelo Ibope sobre o cenário da disputa do Rio de Janeiro no próprio domingo de eleição também não foi capaz de captar que Garotinho não disputaria o segundo turno. A pesquisa apontava que o candidato do PR passaria à segunda fase da disputa, com um total de 28% dos votos. Garotinho teve, no entanto, oito pontos a menos do que o previsto e foi ultrapassado por Marcelo Crivella (PRB).

A boca de urna do Ibope ainda divergiu em mais de três pontos percentuais nos estados de São Paulo, Minas Gerais, Ceará e Bahia.

Ao falar sobre o assunto, Mauro Paulino, presidente do Datafolha nega a existência de erro. Diz que “as pesquisas da véspera da eleição não tem intenção de acertar o número da urna” e que o eleitor brasileiro decide seu voto “cada vez mais em cima da hora”.

— Entre a noite de sábado, quando saem nossos levantamento, e a manhã de domingo muitos fatores entram em ação: o noticiário, a conversa com os familiares e amigos. Isso não aparece refletido.

Decisão “em cima da hora”

Apesar dessa posição, Paulino faz um mea culpa com relação às discrepâncias:

— Até por marketing, nós mesmos dos institutos de pesquisa tratamos esses números divulgados na véspera da eleição como prognósticos, mas, na verdade, eles são diagnósticos. Eles refletem uma realidade que já passou. Não estão olhando para frente. Olham para trás. Falam do passado, do momento em que o eleitor foi entrevistado, e não do futuro. É importante que os institutos de pesquisa tenham coragem para dizer com toda a clareza que, quando publicam os resultados de uma pesquisa de intenção de voto, o número já é velho.

Procurada para comentar o desempenho do Ibope, a diretora Márcia Cavallari não retornou. Em entrevista ao “Jornal Nacional, ela também defendeu a tese de que os eleitores deixam para escolher seus candidatos em cima da hora.

— As pesquisas medem a opinião, e as opiniões vão mudando. Elas só se consolidam quando o eleitor aperta o botão e confirma seu voto, lá na urna.

Para Márcia, as eleições deste ano foram “mais difíceis” por conta do que ela chamou de “volatilidade” do voto e por um suposto elevado grau de indiferença.

Em entrevista ao “RJTV”, a diretora do Ibope também atribuiu as discrepâncias identificadas ao número de eleitores “não totalmente convictos”. Mesmo assim, Márcia defende o instituto:

— Em média, o Ibope tem um índice de precisão de 95%. Neste ano, ficou abaixo, em 92%.

Fonte: O Globo.

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