Sábado, 3 de dezembro de 2016
Mantenedores mantenedores

Escolas buscam formas de educar em meio a violência

O desafio de ensinar é mais complexo quando elementos como a pobreza e a violência estão presentes. Estudos já demonstraram que o rendimento escolar dos alunos piora quando há presença de confrontos na área onde o colégio está localizado.

Nesta série de reportagens, O Globo mostra as dificuldades e soluções encontradas pelas escolas para amenizar esses problemas.

No Rio, buracos de bala são tampados com adesivos em formato de coração num Ciep na Maré, onde um aluno morreu em 2011. Na mesma cidade, a melhor escola pública se localiza em uma favela controlada pela milícia que possui uma rotina de confronto com outras comunidade capitaneadas por traficantes. Em Manaus, num gesto extremo, uma escola pública foi entregue à Polícia Militar.

Em comum, professores e alunos tentam fazer com que os limites dos muros dos colégios sejam um espaço pacífico para o ensino.

O afeto contra a rotina de violência na Maré

Dois tanques e alguns soldados guardam a entrada do “inferno colorido”. A tentativa do poder público de se mostrar presente na Maré, no entanto, se apaga a poucos metros da barreira do exército, onde à vista de qualquer passante um jovem de bermuda e chinelo ostenta um fuzil numa das esquinas da rua principal, a poucos metros do Ciep Ministro Gustavo Capanema.

— Quando decidi trabalhar aqui, há 30 anos, todos me questionavam: “Mas você vai para o inferno colorido?”. Minha mãe não queria que eu viesse para a Maré, meus amigos eram contra — lembra a diretora da escola, Carmem Lúcia Ferreira.

A rotina de violência que impactava os pátios da escola há três décadas ainda afeta o espaço que hoje abriga cerca de 1.400 alunos da educação infantil, do ensino fundamental e da educação de jovens e adultos. Assim como na Maré, centenas de colégios no país enfrentam o mesmo desafio de encontrar soluções para amenizar o impacto, comprovado por estudos acadêmicos, que a violência e a pobreza têm no desempenho escolar. Essa é a realidade que O Globo retrata a partir de hoje.

No Ciep Gustavo Capanema, uma das estratégias para lidar com as marcas dos conflitos externos é preservar as paredes coloridas, colocando “curativos em forma de coração” naquelas eventualmente feridas por balas. Segundo a diretora, uma tentativa de cobrir com amor marcas que são deixadas pelos tiroteios.

As cicatrizes dos conflitos não se restringem aos tijolos do Capanema. Estão também na memória dos alunos. Na sala da educação especial — uma das mais vulneráveis no espaço físico do colégio — os estudantes com deficiência desenvolveram uma defesa natural e, diante de qualquer som mais forte, se jogam ao chão.

— Às vezes, um barulho diferente já traz uma memória daquela vivência. Uma simples garrafa que estoura lá fora já tem um ressignificado. Qualquer movimento diferente, eles perguntam: “Tem que jogar no chão?” Ou, então, falam do jeito deles: “Chão, chão”, porque alguns não verbalizam — conta Joseli Lima, professora da educação especial, com 15 anos na escola.

No conflito, música para acalmar

Quando a guerra começa na favela, a professora recorre à música para tentar estabilizar as crianças e desviar o foco da violência. Joseli não se permite desesperar. Assim como as outras professoras da escola, já está treinada para segurar o choro.

— No meio da confusão, a gente se joga no chão e vai para o corredor. Muitas vezes fiquei cantando com eles. De pegar o violão e puxar uma música, uma brincadeira de roda. É meio fora de contexto, mas é o momento que temos de resgatar essa criança e acalmá-la, porque se a gente espalhar o pavor fica desesperador — diz.

A relação das crianças com o solo da escola, proporcionada pelo histórico de tensão dentro da Maré, já se tornou tão próxima que o ato de se jogar no chão faz parte até dos momentos de lazer. A diretora adjunta, Gisleide Moura, conta que uma das educadoras já flagrou o gesto durante brincadeiras no pátio.

— Uma professora da educação infantil contou que as crianças estavam no parquinho brincando de casinha e, num dado momento, uma criança falou: “Gente, olha o tiro”. Quando a professora foi olhar, estavam todos abaixados — narra Gisleide, completando que tenta passar para a comunidade escolar que a violência existe, mas não pode afetar a rotina do Ciep, embora, na prática, os conflitos interrompam constantemente a aprendizagem.

O medo do tiro sai da boca dos pequenos em segundos de conversa. Sentados em roda, os alunos — antes mesmo de serem perguntados — já falam o que por eles é citado como defeito da escola.

— Quando dá tiro, a gente fica cheio de medo, se joga no chão e vai para o corredor, mas a tia protege. Tem muita gente que chora também — diz um menino de 9 anos.

Mas nem sempre as “tias” conseguem proteger todos. Em 2011, Josemilton Trindade, de 43 anos, cursava o ensino fundamental na educação de jovens e adultos quando foi atingido na cabeça por uma bala perdida. O episódio foi a consequência mais grave da falta de segurança na escola. Na época, a secretária de Educação chegou a perguntar, segundo a diretora, se ela gostaria de fechar o programa de jovens e adultos, que funcionava à noite. A resposta foi negativa.

— Um tiroteio intenso e eu ligando para todo mundo, as pessoas aqui no corredor. Aí, um grita para mim: “Professora, um aluno foi baleado”. Aquilo ali é uma coisa inesquecível. Era um aluno que estava com a gente há cinco anos. Ele entrou no fundamental e já estava no segundo segmento. Ia para o ensino médio e teve a vida interrompida — conta a diretora Carmem Lúcia, com os olhos marejados. — A gente decidiu ficar, ninguém pediu para sair. Estar aqui é uma decisão, você tem que estar muito decidido para estar aqui dentro. Não é fácil.

Dificuldades para recrutar novatos

Desde então, algumas precauções foram intensificadas. Os funcionários, por exemplo, ligam uns para os outros antes de entrar na comunidade. O mecanismo é necessário para certificar que o terreno “está tranquilo”, orientação também passada à reportagem do Globo, que teve de entrar em contato com a diretora antes de seguir rumo à Maré. Grades foram instaladas aos poucos na parte externa do anexo da educação infantil. A sala de leitura, antes exposta demais, foi transferida para outro local. Na porta da antiga sala, o vidro foi substituído por placas de metal.

A escola mantém um grupo fiel de professores que estão lá há, pelo menos, dez anos, mas ainda encontra dificuldade em recrutar novatos. A queda no último Ideb — de 4.6 para 4.3, depois de uma série de progressos no índice — é um reflexo, segundo a diretora, de que só o investimento na escola não é suficiente para solucionar os problemas. O Ciep faz parte do programa da prefeitura Escolas do Amanhã, destinado a atender instituições de ensino localizadas em áreas conflagradas, e recebe incentivo do município para melhorar a infraestrutura, o ambiente acadêmico e o social.

— Justificar que o índice foi baixo por causa da violência é lógico. O cara que não dormiu porque ouviu tiro a noite inteira no outro dia de manhã não tem cabeça para estar ali sentado. O Ideb vinha crescendo, mas em 2013 teve a greve, a violência foi muito grande, e tivemos pouca participação da família na escola — diz Carmem Lúcia. — O problema é que temos um entorno muito complicado. Por mais que a gente receba algum investimento, ainda não deu um resultado satisfatório. A escola sozinha não faz milagre.

Distante de encontrar a paz na Maré, o Ciep segue com suas atividades e conta, principalmente, com um recurso que não vem pelas mãos do Estado.

— A nossa maior característica é o afeto. Acho que é por isso que os nossos olhos encobrem a violência — diz a diretora.

Notas vermelhas quando a violência é presente

Além da pobreza, relatada já em diversos estudos como um dos fatores mais fortes a influenciar negativamente o desempenho escolar, colégios em áreas de confronto possuem a violência como desafio a ser superado.

Uma pesquisa feita por Joana Monteiro (PUC-RJ) e Rudi Rocha (UFRJ) mostra que o desempenho de alunos em favelas cariocas cai significativamente em anos em que os tiroteios são mais intensos. Em resumo, a violência externa piora o aprendizado, especialmente em escolas dentro de favelas, porque faz os professores faltarem mais, se sentirem mais acuados, e leva os diretores a fecharem mais suas unidades.

Em números, os alunos de escolas que tiveram nove ou mais dias de conflitos durante o ano letivo tiveram desempenho duas vezes pior que os de escolas expostas à violência durante dois ou mais dias. A pesquisa mostra que, quanto mais próxima de uma favela, maior o impacto. Em anos com conflitos na região onde o colégio está inserido, os professores faltam 5,8% mais.

A rotatividade também é destacada como um problema a ser enfrentado. Em épocas de conflito, a chance de um diretor ficar menos de dois anos no cargo aumenta 12%.

Se por um lado fica claro que o cotidiano hostil gera notas vermelhas, as políticas de segurança já mostram melhoras em indicadores de ensino, segundo levantamento feito por Eduardo Ribeiro, pesquisador do Laboratório de Análise da Violência da Uerj.

— A violência tem relação direta com a interrupção de aulas. Vimos que regiões com taxa alta de homicídio tiveram mais dias de aula perdidos — reforça Ribeiro.

O pesquisador afirma que esta realidade começa a mudar com a entrada de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs):

— Dois indicadores muito importantes tiveram variação com a entrada de UPPs. O número de abandono de alunos e de aulas perdidas diminuíram quando o entorno do colégio se tornou mais pacífico.

Em média, escolas no Rio em áreas de conflito perdem dois dias de aula por causa da violência. Porém, quando este número é destrinchado, observa-se uma disparidade: 71% dos colégios não tiveram interrupção em nenhum momento de 2009 a 2013, mas 3% pararam suas aulas mais de 20 vezes devido à violência.

— Quando vemos a notícia de que cinco mil alunos do Complexo do Alemão não tiveram aula por causa da ocupação, achamos que é muito. E é. Mas também é pontual, não reflete o que acontece cotidianamente na rede — afirma o pesquisador.

No meio da favela do Aço, a melhor escola pública

O melhor colégio público do Rio está bem longe da Zona Sul. Fica em Paciência, na Favela do Aço, área onde milicianos estão em constante confronto com traficantes de comunidades vizinhas. O cenário de violência ao redor inevitavelmente impacta o cotidiano de alunos e professores, mas não impediu que a escola municipal Haydea Vianna Fiúza de Castro conquistasse no primeiro ciclo do ensino fundamental, em 2013, a média 8,7 no Ideb, principal indicador do MEC de qualidade do ensino.

Para obter esses resultados apesar do contexto ao redor desfavorável, a diretora Patrícia Gomes de Azevedo conta que a estratégia é não “empurrar problemas com a barriga”. Ela se refere tanto aos pedagógicos quanto aos emocionais. Aliás, numa área onde os conflitos externos ou domésticos são frequentes, o entendimento da equipe é o de que não há como separar uma dimensão da outra.

— Toda aula começa com um momento de receber, de ouvir os alunos. Acaba sendo meio terapêutico mesmo. Se houve um conflito na comunidade, a gente reforça atividades que acalmem os alunos, para que, só depois, eles estejam preparados para aprender — afirma Patrícia.

A professora Maria de Fátima da Costa, reconhecida neste ano pela prefeitura como uma das 11 melhores alfabetizadoras da rede, explica como essa abordagem acontece na prática:

— Às vezes, temos mesmo que parar de trabalhar o pedagógico para cuidar do emocional. Dar um abraço forte em cada aluno. Acalmá-los primeiro, deixá-los à vontade para que possam falar sobre o que aconteceu.

Capacitação dos professores

Essa estratégia é fruto não apenas do aprendizado cotidiano dos professores. A escola trabalha com alguns projetos específicos que preparam a equipe para lidar com crianças em situações de risco. Um deles é o Uerê Mello — desenvolvido pela linguista e filologa Yvonne Bezzerra de Mello a partir de um trabalho com crianças na Maré —, que procura capacitar os professores para amenizar traumas causados pela violência, que levam a dificuldades de aprendizado.

Outro programa adotado para trabalhar o lado emocional das crianças se chama Amigos do Zippy, criado pela Associação pela Saúde Emocional de Crianças. Numa aula acompanhada pelo Globo neste mês, a professora Maria Lúcia de Oliveira contava para seus alunos histórias que abordavam sentimentos comuns das crianças, e incentivava a reflexão sobre essas situações.

— Falamos de raiva, respeito, morte. Não há tema proibido. Valorizamos atitudes positivas, incentivando os alunos a se respeitarem e a buscarem falar coisas legais para os amigos — explica Maria Lúcia.

Para que os professores possam trabalhar bem com o emocional dos alunos, é preciso também que eles estejam preparados. Para isso, a escola acabou desenvolvendo rotinas para proteger todos nos momentos de crise.

— A gente procura manter os professores calmos, para que eles possam acalmar as crianças. Mas ninguém sai daqui em hora de tiroteio. Até os pais eu tranco. Botamos um DVD para as crianças, fazemos atividades de pintura. Se ficarmos calmos, o aluno não vai sentir nada. Esperamos a situação acalmar, e nos organizamos para que todos possam sair da escola com segurança — diz a diretora.

Por causa da rotina de tiroteios frequentes, a escola teve que fazer algumas adaptações. Apesar de dispor de boa área externa, o parquinho das crianças foi transferido para uma sala interna, climatizada. Foi a maneira encontrada para não expor os alunos ao risco de uma bala perdida.

Há a preocupação em trabalhar não apenas com traumas causados pela violência externa. Situações de violência doméstica também precisam ser conversadas. Há casos em que o conselho tutelar precisa ser acionado. Em outros, os professores tentam orientar os alunos a como se proteger.

— Quando percebemos que os pais são mais agressivos, a gente tenta também orientar a criança a evitar situações que possam gerar alguma reação negativa dos pais — afirma Maria de Fátima da Costa, a professora com bons resultados na alfabetização.

Para que o contexto de violência externa não afete a relação entre alunos, a escola procura ainda monitorar as crianças o tempo o todo, ajudando a evitar conflitos mesmo nos momentos de lazer. No recreio, por exemplo, em vez de os alunos ficarem completamente livres, eles são incentivados a participar de jogos e atividades com regras.

Trabalho pedagógico direcionado

O forte trabalho de apoio emocional às crianças é visto como essencial para o trabalho numa área de conflito. Mas, sem a parte pedagógica, os bons resultados não apareceriam. Uma das estratégias apontadas pela direção para explicar o desempenho é a avaliação constante dos alunos, para não deixar problemas se acumularem, garantindo o aprendizado de todos. No 5º ano do ensino fundamental, 99% de seus alunos avaliados no Ideb tinham aprendizado considerado adequado em português, segundo critérios do Movimento Todos Pela Educação. Em matemática, o percentual era de 97%.

Também há troca frequente de experiências entre os docentes, e expectativas claras do que se aguarda de cada um deles. No mural da secretaria, há cartazes afixados indicando o que é esperado, para cada turma, que os alunos aprendam ao final do bimestre.

Os professores novatos também recebem atenção especial da equipe nos primeiros meses. A escola, como tantas outras em áreas violentas, já sofreu com alta rotatividade do corpo docente. Hoje, são poucos os que trocam de colégio.

O bom clima se traduz num melhor ambiente escolar. Não há pichações, as paredes são limpas, e foram recentemente pintadas com ajuda dos pais. As salas de aula são coloridas, repletas de livros e materiais didáticos à disposição dos alunos.

— Quando o aluno chega e vê tudo bem arrumado e colorido, isso faz a diferença — conta a diretora.

Escolas com excelentes resultados em áreas de conflito são exceção, e não a regra. Mas, no caso da Haydea Vianna Fiúza de Castro, a equipe se beneficiou também da troca de experiências com escolas vizinhas, igualmente com bons resultados, casos dos Cieps 1º de Maio e Heitor Maestro Villa Lobos. A iniciativa indica que as estratégias que deram resultado numa escola conseguiram ser replicadas em outras que enfrentam as mesmas situações.

Melhorias nas Escolas do Amanhã foi maior no 9ºano
Desde que foi criado, em 2009, a maior evolução verificada no programa Escolas do Amanhã aconteceu no 9º ano do ensino fundamental. A iniciativa previa investimento ampliado em 155 unidades, que hoje atendem 105 mil alunos em áreas vulneráveis.

Os resultados do Ideb, principal indicador de qualidade de ensino do MEC, mostram que, no 9º ano do ensino fundamental, a média aumentou de 3,1 em 2009 para 4,0 em 2013. Em 2011, a média foi de 4,1. O avanço foi menor no 5º ano do ensino fundamental. A média saiu de 4,7 para 5,1 de 2009 a 2011, e em 2013 ficou em 4,9. No total dessas escolas, de 2008 para 2013, houve redução do percentual de alunos evadidos de 5,0% para 3,8%.

— Identificamos na época que as escolas em áreas conflagradas precisavam ter um tratamento específico. Era difícil de segurar o professor, e era preciso um trabalho muito forte com mediação de conflitos. Investimos em capacitação e materiais específicos para elas, e, quando a escola bate a meta, os professores recebem um bônus e meio a mais. Isso fez a escola se tornar mais atraente — afirma a secretária municipal de Educação, Helena Bomeny.

Segundo ela, hoje, das 165 escolas, há 24 que estão precisando de um apoio mais forte.

— Nas demais, vemos que elas já estão em outro patamar, com o professor ficando mais na escola, tendo resultados tão bons quanto no restante da rede.

Para Eduardo Ribeiro, pesquisador da Uerj, é necessário ter cautela na análise dos índices.

— As Escolas do Amanhã, na maioria das vezes, foram implementadas em unidades que já eram consideradas boas. É importante o investimento nos colégios em comunidades, mas não dá para afirmar que os rendimentos destas unidades diferem do que o restante da rede está tendo de forma natural — analisa Eduardo.

“Vou lá falar como chefe da boca”

Quando o chefe da boca “apita” a briga entre dois alunos, fica fácil enxergar que os muros da escola não foram capazes de barrar a influência do tráfico. Em um colégio público da Zona Norte do Rio, localizado no asfalto, o fato de estar fora da comunidade não tornou as coisas mais fáceis para educação. Local de trabalho da professora X., a escola recebe alunos de diversas favelas da região e vive uma rotina caótica que, de acordo com ela, é reflexo do contato ininterrupto dos estudantes com a violência.

— No turno da manhã, um aluno montou uma gangue dentro da escola para bater em quem não era do morro dele. O pai do menino agredido foi chamado e dissemos que o filho dele não poderia mais ir à escola, porque estava sendo ameaçado na hora da entrada e da saída. Esse senhor falou ‘não vai ficar assim, eu também moro em comunidade, vou lá falar com o chefe da boca.’— narrou a professora— Então ele foi e falou com o dono da boca, que disse ‘Fulano é meu sobrinho, pode deixar que a gente dá o corretivo’.

Além de ver a autoridade ofuscada pelo poder paralelo, a equipe de direção do colégio também precisou lidar com os danos físicos causados pelo comportamento dos alunos. A diretora adjunta, que tentou apartar a briga, acabou acuada no chão sob chutes e, após expulsar o agressor da escola, passou a ser ameaçada. Hoje, é escoltada quando chega e quando sai do trabalho.

“Tem certeza que quer ser professora?”

Essas aflições fazem com que muitos professores do local não sonhem com outra coisa que não seja abandonar as salas de aula. Agonia registrada nas páginas de uma diário feito por X desde que chegou na escola neste ano. Nas folhas do pequeno caderno, a professora em início de carreira descreve a frustração dos colegas: “não quero ser professor nunca mais, se existir reencarnação não quero voltar como professor”. Enquanto anota o cotidiano, ela também se questiona, temerosa, sobre o seu futuro na profissão.

— Será que daqui a 20 anos estarei assim? Os professores já começam avaliando os alunos por baixo. Tem alunos que têm uma história complicada. O que mais escutei dos professores foi ‘você tem certeza que quer ser professora? Ainda dá tempo, você é nova’.

Curiosa, a novata tenta desvendar o que está por trás da hostilidade presente no trato dos alunos que, segundo uma passagem do diário, dizem “até mesmo um simples ‘dá licença’ com agressividade”. A questão é respondida aos poucos, com olhos e ouvidos atentos em um contexto no qual os escritos nas carteiras e nas portas são reveladores. Nomes de facções criminosas escritos a lápis irrompem na estrutura do colégio, ao mesmo tempo em que a professora descobre casos de violências diversas na história dos alunos.

— Fomos fazer uma atividade com um texto do João do Rio sobre a rua. Então pedi que descrevessem a rua onde moravam. Muitos disseram ‘mas eu nem moro em uma rua’. Então insisti e saíram narrativas muito interessantes. Todos eles são marcados pela violência. Peguei vários trechos como ‘já vi muita gente morrer nesta rua’, ‘meu primo morreu na minha rua’, ‘o que eu queria era ter um pouquinho de paz’— conta.

Nem todos os professores que vivenciam situações como essa conseguem resistir. Foi o que aconteceu outra docente, Y, que também pediu para não ser identificada. Após sofrer assédio em plena sala de aula, presenciar brigas entre os alunos, ver colegas de profissão em armadilhas humilhantes, entre outras situações, ela desenvolveu as síndromes do pânico e de Burnout, consequência do esgotamento profissional. A professora de 34 anos teve de buscar ajuda médica para superar os traumas. Hoje, após alta, voltou a lecionar, mas num colégio particular.

Ela explica que tem medo em relação aos ex-alunos. E afirma que não podia retomar à rotina de antes, na escola estadual onde dava aula. Contou que já voltou para casa debaixo de tiroteio. E que muitas vezes teve de interromper as aulas a mando de algum traficante.

— Já peguei muito tiroteio na Linha Vermelha e fiquei em estado de choque da última vez. Meus dois últimos anos foram inúteis. Chegava a acordar de manhã, me arrumar, entrar no carro e não conseguir dirigir. Tinha de voltar para a cama — conta a professora, que tinha pavor de trabalhar nos turnos da noite. — Também já dirigi na Linha Amarela com uma barra de ferro dentro do carro para qualquer eventualidade. Penso muito em pedir exoneração porque não tenho vontade alguma de voltar a dar aula em lugares assim.

A professora trabalhava na Praça Seca, em Jacarepaguá, São João de Meriti e Belford Roxo. Tinha de cumprir 12 períodos por semana, em três escolas públicas diferentes. E quando as turmas eram agrupadas, chegando às vezes a 60 alunos cada, precisava somar mais uma sala para cumprir a carga horária semanal.

— Todas as escolas do Estado, com raras exceções, estão em locais mais perigosos. Em Belford Roxo, um aluno colocava uma arma em cima da mesa dele todas as noites. Não há como não se sentir ameaçada — lembra ela. — Na escola em São João de Meriti, um aluno atirou uma maçã na cabeça de outro professor. Ele acabou brigando com o aluno, na mão mesmo, e a polícia foi chamada. Claro que meu colega foi punido. E o aluno nada sofreu. Quando algo assim acontecia, sempre pensava que a próxima seria eu. No dia seguinte, o carro da diretora apareceu pichado.

‘Gosto quando você fica de costas’

Nessa mesma escola, ela diz que sofreu assédio de um aluno de 17 anos, maior do que ela. E que passou a se sentir impotente.

— Ele esperou que eu me virasse para escrever na lousa. Se levantou, foi até mim e disse no meu ouvido: “Gosto quando você fica de costas”. Confrontei o aluno e ele se virou, olhou para os colegas de classe, e disparou, no maior deboche: “Pô, ela é maluca, não gosta de elogio”.

A professora contou que chamou a polícia e que o aluno não esperava essa reação. Ele não a ameaçou verbalmente, mas a professora lembra, com riqueza de detalhes, os olhares que lançou em sua direção.

— Eram de raiva. Nunca mais voltei para esta escola e procurei ajuda de psiquiatras por causa do quadro de ansiedade e síndrome do pânico — contou a professora, que agora entrou para a estatística dos que pediram para sair.

Segundo a Superintendênccia de Perícia Médica da Secretaria de Estado de Saúde, entre janeiro e maio deste ano, foram 4.765 docentes licenciados (média mensal de 953). A maioria por transtornos mentais e comportamental (caso de Y), doenças do sistema osteomuscular e lesões e outras causas externas.

Peritos ouvidos pela reportagem dizem que os quadros de transtornos mentais e comportamentais são resultado de estresse e ansiedade, típicos de quem trabalha em áreas violentas. Em 2013, 14.744 docentes pediram licença médica no Rio (média de 1.228 por mês). No ano passado, foram 13.828 (média mensal de 1.152 licenciados).

Diretora briga para tirar traficantes de escola

Não é mera força de expressão dizer que o tráfico tomou o controle do Centro de Ensino Fundamental 4, localizado em Ceilândia, uma das áreas mais violentas do Distrito Federal. Montados a cavalo, dois rapazes que costumavam pular o muro da escola para usar e oferecer drogas aos alunos passaram a decidir quem entrava ou não no local. O terror imposto pela dupla, aparentemente armada, tinha um alvo específico: a vice-diretora que dias antes havia chamado a polícia para tirar os invasores do colégio.

Dando voltas no pátio da escola em cima dos cavalos, eles ameaçavam matar a servidora com “um tiro na cara”. A invasão da escola ocorreu em uma tarde de maio. Os rapazes só deixaram o local quando a polícia foi chamada. O colégio, que atende 1.258 alunos do 6º ao 9º ano e turmas de jovens e adultos, passou um dia de portas fechadas, reabrindo com a condição de ter a Polícia Militar na frente da unidade de ensino, situação que continua até hoje.

A diretora Maria Madalena Araújo de Arruda sabe que o auxílio dos policiais é provisório. E teme pela segurança de alunos e servidores. Em março, ela teve de segurar o portão da escola para impedir a entrada de dois traficantes que insistiam em cobrar uma dívida de droga de um aluno dentro do colégio:

— Chamei a polícia para acompanhar o aluno até a casa dele. A partir daí, vi que a situação estava muito comprometida, pois eles tentaram invadir mesmo a escola, o que acabaram conseguindo — conta.

O estudante escoltado pela polícia foi transferido da escola a pedido da mãe. Assustados com os relatos de uso e venda de drogas, assaltos na porta e intimidações, pais de outros 69 alunos tiraram seus filhos do colégio em apenas 20 dias.

A diarista Nilem Doris Amorim de Carvalho planeja fazer o mesmo assim que o semestre letivo acabar. Ela teme que a filha de 16 anos, Nayane Ketlen, estudante do 6º ano, seja agredida e até morta dentro da escola.

— A gente já mora numa área de risco. E não tem segurança nem dentro da escola. Quando a polícia for embora, volta tudo de novo — reclama Nilem.

Nayane conta que, no dia da invasão dos traficantes, teve “medo de passar pelo menino no cavalo”, na porta da escola, e entrou por uma brecha no portão do estacionamento. Nem sempre ela está acompanhada da mãe, que trabalha com faxinas. Nesses dias, o melhor é não olhar para ninguém, ensina a menina.

— Eu passo de cabeça baixa, sem olhar para trás nem para os lados. Fico com medo, porque eles andam com faca, com arma — diz a garota.

Solução além da polícia

Alunos que preferem não serem identificados relatam que os assaltantes da redondeza preferem atacar os estudantes mais novos, que oferecem menos resistência. Celular e tênis são os objetos visados. Os problemas do lado de dentro também são muitos. Segundo alunos, a escola não pede nenhuma identificação no portão de acesso. Qualquer um entra, reclama uma estudante do 8º ano.

Segundo a diretora Maria Madalena, falta funcionário na guarita. Depois da tarde de terror, a Secretaria de Educação do DF propôs um remanejamento de servidores para suprir demandas de vigilância, além do controle de entrada e saída. Para Marcos Antonio de Sousa, coordenador da Regional de Ensino de Ceilândia, a solução vai mais além:

— Não é colocar vigia, subir muros ou chamar a polícia que resolve o problema da violência. Escolas dessa região que conseguiram vencer o desafio estão implantando projetos para que a comunidade se aproprie da escola.

Ceilândia, a área de ensino coordenada por Marcos, é campeã no DF em armas ilegais. No primeiro quadrimestre de 2015, foram 133 artefatos apreendidos. No mesmo período, ocorreram 57 homicídios, 48 tentativas e 641 lesões corporais dolosas e 3.102 roubos.

Colégio foi invadido pelo tráfico e só retornou um dia depois com a presença da polícia, que ainda permanece no local.

Em Manaus, PM assume escola

Pintados de branco e azul, os muros da Escola Estadual Professor Waldocke Fricke de Lyra, na zona oeste de Manaus, em nada lembram as pichações que antes estampavam as paredes. Os alunos só saíam para o intervalo com a mochila nas costas, por medo de serem roubados pelos próprios colegas. Nos banheiros, vasos entupidos com o descarte das carteiras de dinheiro furtadas. Brigas no pátio, armas brancas circulando e uso de drogas completavam o cenário.

A violência que sempre marcou o bairro Tarumã, fruto de invasões e considerado hoje uma “área vermelha” da capital amazonense devido aos altos índices de criminalidade, havia ultrapassado os muros do colégio. Em 2012, a pedido do governo estadual, a Polícia Militar assumiu o controle da escola, que passou a se chamar 3° Colégio Militar da PM Professor Waldocke Fricke de Lyra, que atende cerca de 2 mil alunos dos ensinos fundamental e médio.

A mudança veio acompanhada de uma reforma na estrutura física e de uma gestão “linha dura”. Farda e horário rígido para entrar. Para sair, só quando todas as tarefas forem finalizadas. A ordem é tirar a bateria do celular depois de entrar na escola. Se flagrado usando o aparelho, o aluno terá que esperar até o bimestre seguinte para reavê-lo. O coronel aposentado Rudnei Caldas, responsável pela implantação das regras, diz que pais e professores chiaram no início, mas ele não arredou pé.

Hoje, ao passarem pelos policiais armados que atuam como inspetores nos corredores, estudantes endireitam a coluna e batem continência. A rotina nos rígidos moldes militares inclui gritos de guerra antes de iniciar a jornada, além de distribuição de distintivos e de patentes para quem tem notas de destaque. Indisciplinas reiteradas levam à expulsão. Só nos cinco primeiros meses de 2015, cinco foram desligados por não se adequarem. O corpo docente também mudou, e a maioria dos professores antigos deixou a escola.

— Sei que há uma corrente na educação resistente ao nosso modelo, mas acho que, para o nosso público, vindo de uma desestrutura familiar e carência social muito grande, ele faz a diferença — diz o coronel.

De 2011 para 2013, a escola deu um salto no Ideb. Nos anos iniciais do ensino fundamental, a média passou de 3,3 para 6,1. Nos finais, foi de de 3,1 para 5,8. O índice de reprovação, de 15,2% em 2012, foi zerado no ano passado.

A melhoria no desempenho apareceu também nas Olimpíadas de Matemática das Escolas Públicas (Obmep). Órfã de pai desde os 8 anos e filha de uma motorista de ônibus, Jennyfer da Silva Veloso, de 16 anos, levou o bronze e uma menção honrosa na competição. Ela foi aprovada em primeiro lugar no vestibular da Universidade Estadual do Amazonas (UEA), onde começou a cursar matemática este ano.

Ela conta a dificuldade de se adaptar na transição da escola para o regime militar e lembra do primeiro dia da mudança.

— Eu estava com o cabelo pintado, usava piercing no nariz, tinha franja. Fomos levados para a quadra, nos explicaram tudo. Tive que tirar esmalte, prender a franja. Com o tempo, me acostumei e percebi que, aqui, realmente o que importa é o conhecimento, e não a aparência. A escola melhorou muito no novo modelo.

Outro medalhista foi Yuri Macedo Michele, que garantiu a primeira medalha de ouro da escola na Obmep. Tímido, o garoto de 13 anos, aluno do 8º ano, fala da felicidade dos pais — a mãe dona de casa e o pai vendedor em uma fábrica de sorvetes — com a conquista. Entre os colegas, a popularidade do “aluno olímpico”, como são chamados os estudantes que se preparam no contraturno das aulas para as competições, aumentou.

Poucos professores permaneceram

Parte da equipe de aproximadamente 60 professores efetivos que atua nos três turnos, Maria do Rosário de Almeida Braga, de 54 anos, diz que é uma das poucas educadoras que continuaram no colégio depois que a PM assumiu o controle.

— Aqui só fica professor que quer trabalhar. Há exigências para o aluno e para o professor também. Mas o retorno é muito grande, inclusive financeiro — diz Maria do Rosário.

A professora se refere a dois salários extras pagos pelo governo amazonense a todos os funcionários caso a escola atinja metas de qualidade do ensino, alcançadas desde o primeiro ano de administração militar. Além da recompensa individual aos servidores, o colégio recebeu, em 2015, R$ 170 mil do estado em virtude dos resultados conquistados no último Ideb.

Os recursos vão para a Associação de Pais e Mestres e Comunitários (APMC) do colégio e são destinados a bancar projetos, comprar equipamentos e contratar professores. Hoje, há 23 educadores pagos pela associação que reforçam o quadro efetivo da escola, além de dentista, assistente social, psicóloga. Cada aluno contribui com R$ 20 por mês para a entidade, a menos que a família peça isenção por não ter condições financeiras.

Cruz vermelha ensina escolas a se protegerem

Em 2013, um tiroteio no Complexo do Lins, zona norte do Rio, colocou os alunos e professores da Escola Estadual Antônio Houaiss no meio da linha de tiro. O medo gerado pelo episódio fez com que a direção da unidade fizesse uma parceria com a Cruz Vermelha para a implementação de dois programas para dar mais segurança ao local.

— Nosso colégio tem 1.100 estudantes de diferentes comunidades. Eles vinham e traziam as disputas das facções para aqui dentro. Isso tudo foi mudado com muito trabalho — afirma Ana Claudia, diretora que assumiu a instituição em 2012.

A iniciativa da Cruz Vermelha se divide em duas frentes. Um deles, o“Comportamento mais seguro”, mapeou as áreas do colégio e definiu novas rotinas.

— Começamos a fechar algumas áreas que eram usadas pelo público como acesso a comunidade e, uma vez, uma delas chegou a ser utilizada como rota de fuga. Temos uma política para a entrada e saída de cada área, que ficam fechadas a maior parte do tempo — afirma a diretora.

A unidade, hoje, utiliza um terço do seu espaço total e controla a entrada e saída de todos que frequentam a escola. Além disso, o colégio possui instruções claras para seus funcionários para quando episódios de tiroteio, como o de 2013, ocorram novamente.

— Os alunos são levados para uma área central, para ficarem preservados, e, sem alarde, passamos uma atividade. Muitas vezes eles nem percebem que aquilo foi feito por causa de um conflito — conta a professora Ambrosina Gomes, que também participa do segundo projeto da Cruz Vermelha.

Através do “Abrindo Espaço Humanitário”, docentes foram treinados pelo grupo para elaborarem aulas que dialoguem sobre a realidade social dos alunos.

— Não adianta só limitar espaços. É na conversa, no dia a dia, ouvindo o que eles querem falar que conseguimos construir uma relação de confiança. Eles sentem que não estamos aqui para punir, mas para ajudá-los quando eles precisarem— conta Jupira Paes, professora participante do projeto.

Nestas conversas, os alunos contam os problemas nas suas comunidades e como eles impactam no cotidiano escolar. Em uma das aulas, assistida pelo Globo, um aluno comentava sobre seu sono devido um tiroteio na noite anterior enquanto outro afirmava que se um amigo seu começar a se envolver com o tráfico, ele iria ajudá-lo a sair desta realidade.

— O nosso esforço é para que os alunos vejam que este espaço é um campo neutro, que podem confiar na gente para o que precisarem e que estamos aqui para que eles melhorem cada vez mais — afirma Ana Claudia.

Fonte: O Globo.

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