Escritórios de advocacia criam bancas de atendimento a clientes estrangeiros

Relatório da agência da Organização das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad), divulgado em junho de 2014 pela Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), revela que o Brasil ocupa o 5º lugar no ranking de ingresso de investimentos estrangeiros diretos. De olho nesta fatia do mercado, os escritórios de advocacia vêm criando bancas de profissionais formados em Direito que falam a língua dos investidores para facilitar a comunicação com os clientes estrangeiros, que, em geral, costumam apresentar dúvidas em relação à legislação brasileira.

Mário Nogueira (Advogado do Demarest & Almeida)

Mário Nogueira

Desde o final do início dos anos 2000, quando algumas empresas estrangeiras começaram a se instalar no Brasil, os escritórios perceberam a necessidade de melhorar a comunicação com os clientes que vêm de outros países para fazer negócios no Brasil — principalmente em relação aos asiáticos, cuja cultura e legislação são muito diferentes da ocidental. “Os desks ocidentais foram criados pra tentar centralizar um pouco o conhecimento, fazer um diferencial e trazer um conforto adicional para o cliente, mas é um luxo. Já as bancas orientais, não. Eu não conheço um escritório de Direito que tenha participação efetiva de clientes orientais sem contar com profissionais daquele país, que falem a língua deles”, diz o advogado Mário Nogueira, sócio do Demarest Advogados, um dos maiores escritórios de advocacia da América Latina.

Além de prestar atendimento referente à sua área de atuação, os profissionais das bancas agem como intérpretes e intermediários entre os clientes e os demais advogados do escritório. Falando a mesma língua e atentos às diferenças culturais, fica mais fácil elucidar dúvidas em relação à legislação brasileira, comuns principalmente entre os orientais, cujo sistema legal se difere muito do brasileiro, mais semelhante ao da Europa Central e dos EUA. “Eles se assustam com a complexidade que são os impostos no Brasil e com as leis trabalhistas. E uma coisa que assusta a todos, indistintamente, é a nossa burocracia”, diz Nogueira.

O Demarest conta com cinco bancas de atendimento a clientes estrangeiros: Korea Desk, French Desk, German Desk, Spanish Desk e China Desk, a mais nova banca, criada há cinco meses, depois que o escritório contratou um advogado chinês que estava no Brasil fazendo pós-graduação. A banca coreana é a mais antiga, surgiu no ano 2000. “Tivemos a coincidência de ter no escritório um professor coreano, poliglota, que falava mandarim e japonês. Começamos a formar um grupo de pessoas, alguns nascidos na Coreia, que tinham total domínio da língua, tanto falada quanto escrita, e serviam de tradutores intermediários entre o resto do escritório e os clientes”, explica Nogueira, acrescentando que, atualmente, a banca coreana reúne quatro advogados coreanos e filhos de coreanos. O investimento valeu a pena. “Quando a Hyundai chegou ao Brasil, em 2009, junto vieram várias outras empresas coreanas. A gente saiu de uma carteira de 10 para 80 clientes”, disse o advogado. No Demarest, as bancas de atendimento a clientes estrangeiros contam com um total de 25 profissionais, dos 270 que atuam no escritório. “Agora, estamos procurando um profissional japonês”, revela Nogueira.

Everton Monezzi (Braga Nascimento e Zilio Advogados Associados)

Everton Monezzi

O Braga Nascimento e Zilio Advogados Associados, com sede em São Paulo, escritórios em Campinas, Brasília e Goiânia e representação em todo o Brasil, conta com o German Desk, há um ano e meio, e com o China Desk, criado há seis meses. “Foi uma necessidade que a gente sentiu de que as empresas precisam entender melhor a legislação brasileira”, explicou o diretor jurídico do escritório, Everton Monezzi. Segundo ele, as maiores dificuldades dizem respeito às legislações tributária e trabalhista brasileiras. “Eles sentem receio em relação a isso, chegam com o pé atrás, com dúvidas sobre como a empresa vai enfrentar essas questões no Brasil”, diz, acrescentando que alguns investidores optam por “esperar um pouco mais para saber a hora certa” de atuar no país.

O escritório realiza estudo de onde seria o melhor local para a empresa se instalar, de viabilidade econômica e ambiental, entre outros atendimentos, e conta com 100 advogados. O China Desk é liderado pelo advogado Tang Wei, que nasceu na China, mas mora no Brasil desde os 19 anos. O profissional responsável pelo German Desk trabalhou em empresas na Alemanha, fala alemão fluente e tem trânsito nas empresas alemãs. “A banca de atendimento aos clientes da Alemanha tem filial em Campinas, onde há muita empresa de origem alemã”, conta Monezzi. Para melhorar atender os clientes, o grupo conta com uma parceria em Paris e estuda a possibilidade de abrir um escritório em Pequim.

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