Estado do Rio suspende maioria das obras em execução

Vendedor de coco que há 15 anos estaciona diariamente o seu caminhão às margens da RJ-104, em São Gonçalo, Ronaldo Chiste garante que, não fosse ele, o esqueleto do que deveria ser o Hospital da Mãe, a primeira maternidade estadual no município, já teria sido invadido. A construção, interrompida há quase dois anos, é uma da lista de 36 obras a cargo da administração direta do estado, que somam R$ 2,1 bilhões e que tiveram de ser paralisadas por causa da crise financeira. Apenas duas obras para despoluir a Baía de Guanabara — em Alcântara e na Cidade Nova —, que têm recursos do Banco Interamericano de Desenvolvimento, estão sendo tocadas pelo governo, embora em ritmo muito lento. Mas também elas poderão parar em março, se a União não prorrogar o prazo dos contratos.

Orçado em R$ 37,2 milhões, segundo a Secretaria estadual de Obras, o Hospital da Mãe não está nem com 30% prontos. Vizinho à UPA de São Gonçalo, no Colubandê, o prédio cercado por tapumes parou no terceiro pavimento e está pichado. A única placa que restou informa sobre a proibição de estacionar em frente ao portão de acesso ao canteiro de obras, sob o risco de reboque.

— Voluntariamente estou tomando conta do prédio, que não tem um único segurança. Faço isso de dia, porque trabalho aqui e, para mim, não seria nada bom a área do hospital ser invadida. Mas, de noite, não sei o que acontece — diz o vendedor de coco.

Moradora de São Gonçalo que tem uma barraca de comida e bebida em frente à UPA, a cearense Maria do Socorro Nascimento, de 45 anos, lamenta que o hospital não tenha ficado pronto:

— Gastaram muito dinheiro nesse prédio, e o que foi feito está se deteriorando. Enquanto isso, as mulheres grávidas de São Gonçalo só têm um hospital público, da prefeitura, para procurar. Fico preocupada com a minha filha e minha futura nora.

Buracos em estrada asfaltada
Perto dali, na RJ-100 (a antiga Estrada de Maricá), que cruza Niterói e São Gonçalo, são poucos os vestígios de que 30% das obras de terraplanagem, drenagem e pavimentação da rodovia foram executados. Mesmo no trecho pavimentado, há pouco mais de um ano — entre o viaduto de Maria Paula e Paciência —, o que não falta é buraco.

— A estrada está cada vez pior. Colocaram uma camada de asfalto, mas não colocaram a segunda. Com isso, toda hora aparecem buracos na pista. A prefeitura de Niterói, vez ou outra, faz uma operação tapa-buraco. Mas é paliativo. Com tantos solavancos, são muitos os acidentes, principalmente nos trechos em que a rodovia tem uma só faixa em cada sentido — reclama Márcio Ramos, que mora há 40 anos no local e trabalha com transporte escolar.

Se para os carros é difícil trafegar pelos 13,5 quilômetros da RJ-100 — que sequer ganhou sinalização horizontal —, para os pedestres os riscos são ainda maiores. Como não foram feitos o meio-fio e as calçadas, sobra caminhar pelos cantos da pista. Para os ciclistas, também não é nada fácil.

— Temos que ficar desviando dos buracos e dos carros — conta Luiz Carlos de Jesus, que usa bicicleta para seus deslocamentos no bairro.

As obras que começaram em seis rodovias estaduais estão paradas. A mais cara, na RJ-186, na divisa dos estados de Minas e Rio (Pirapetinga), foi orçada em R$ 280,6 milhões e está com pouco mais da metade concluída. Na mesma situação está a RJ-105 (antiga Estrada de Madureira), em Nova Iguaçu, cuja recuperação custa R$ 35,8 milhões. A RJ-105 chegou a ser recapeada, porém não ganhou meio-fio nem teve a sinalização da pista pintada.

— Fica todo mundo desorientado. Como não fizeram meio-fio, se formaram buracos nos cantos da pista. É um absurdo começarem uma obra e deixarem pela metade — queixa-se o frentista Ronaldo Teixeira, morador de Nova Iguaçu.

A única obra executada pela Secretaria estadual de Transporte, a conclusão da Linha 4 do metrô depende de dinheiro para prosseguir. Faltam R$ 500 milhões para concluir a estação da Gávea (restam 58% para fazer) e escavar 1,2 quilômetro de túnel a partir do Alto Leblon.

Da Secretaria estadual do Ambiente, está paralisado o projeto de recuperação ambiental das lagoas da Barra e de Jacarepaguá. Dos R$ 673 milhões previstos, apenas R$ 11 milhões foram investidos. Entre os serviços calculados, estão a limpeza de resíduos sólidos de grande porte do fundo das lagoas e manguezais, o plantio de 30 mil mudas de mangues e a instalação de sete quilômetros de cercas de proteção na faixa marginal de Camorim e Tijuca.

Anunciado com toda pompa, em maio do ano passado, as obras da construção da sede do Parque Estadual dos Três Picos, em Teresópolis, pouco andaram. Apenas 20% ficaram prontos. Com área total de 3.811 metros quadrados, o empreendimento prevê sede administrativa, centro de visitantes, apoio ao lazer, casa do pesquisador, alojamento de guarda-parques, camping com administração, restaurante, estacionamento, banheiros e lavadores. Ficaria pronto em maio de 2017. Porém, no Vale da Revolta, no quilômetro 84,5 da Rio-Teresópolis, só restam placas, fundações e entulho.

Entorno da Baía em foco
Apesar do ritmo lento, a Secretaria do Ambiente assegura que duas obras do Programa de Saneamento Ambiental dos Municípios do Entorno da Baía da Guanabara (Psam), com recursos do BID, estão sendo tocadas: a implantação do Sistema de Esgotamento Sanitário de Alcântara, em São Gonçalo, no valor de R$ 354,9 milhões, e a instalação de 4,2 quilômetros de coletor-tronco para a captação do esgoto lançado diretamente no Canal do Mangue, que seria levado para a Estação de Tratamento de Esgoto de Alegria, em Benfica, com investimentos de R$ 81 milhões. No entanto, se o contrato com o BID não for prorrogado, as duas obras serão paralisadas em março.

— Os recursos do BID estão disponíveis. Apelo à sensibilidade do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, para que aprove a renovação do empréstimo com o banco. A não continuidade do Psam representa um prejuízo ambiental e social inestimável para o Rio, já que essas intervenções reduzirão o lançamento de esgoto in natura na Baía de Guanabara, beneficiando milhares de moradores do entorno — afirma André Corrêa, secretário do Ambiente, que está licenciado.

Entre as 36 obras públicas do estado paradas, estão ainda intervenções para melhorar o abastecimento de água e o escoamento de esgoto, reformas de delegacias e colégios, e a ampliação e a construção de unidades de saúde. O Rio Imagem 2 — novo Centro de Diagnóstico por Imagem —, por exemplo, que está sendo implantado em Niterói, não passou dos 13% de execução.

Mas, com a aprovação do acordo de socorro financeiro que o estado firmou com a União, o secretário de Obras, José Iran Peixoto Junior, vê luz no fim do túnel. Pelo menos, a médio prazo.

— Acredito que o plano de recuperação fiscal do estado pode permitir, a médio prazo, a retomada das obras. Certamente, teremos de avaliar a disponibilidade financeira e estudar as obras que poderão ser retomadas em prioridade — avalia o secretário.

O governador Luiz Fernando Pezão também manifesta otimismo:

— Tem recursos que vamos liberar. Com isso, vamos poder continuar nossas obras, principalmente aquelas que têm financiamentos internacionais.

O que parou:

Linha 4. A Estação Gávea do metrô está com 42% concluídos. Falta a escavação de 1,2 km de túnel entre o Alto Leblon e a Gávea (cerca de R$ 500 milhões).

Lagoas. Dos R$ 673 milhões para as lagoas de Barra e Jacarepaguá, só R$ 11 milhões foram gastos.

Teresópolis. Apenas 20% das obras da sede do Parque Estadual dos Três Picos ficaram prontos. O projeto é de R$ 11 milhões.

Estradas. Das obras de R$ 16,7 milhões na RJ-100 (antiga Estrada de Maricá), só 30% ficaram prontos. Na RJ-186, divisa entre Minas e Rio (Pirapetinga), os serviços (R$ 280,6 milhões) pararam com 65%. Na RJ-101, a Avenida Kennedy (R$ 126,9 milhões), chegaram a 90%. A recuperação da RJ-105 (Estrada de Madureira), em Nova Iguaçu (R$ 35,8 milhões), parou com 60%. No Contorno de Aparecida, em Sapucaia (R$ 24,7 milhões), estão com 70%. E no km 4 da RJ-160,entre Cordeiro e Cantagalo (R$ 2,6 milhões), estão com 35%.

Saneamento. Só estão com 21% prontos o projeto de levar água para Zona Oeste (R$ 149,1 milhões). Obras parecidas em Inoã/Itaipuaçu (R$ 53,9 milhões) e São Gonçalo (R$ 26,4 milhões) pararam com 98% e 35%, respectivamente. As de esgotamento sanitário nas bacias do Sarapuí (R$ 24 milhões) e Pavuna pararam com 54,9% e 73,5%.

Polícia. As obras da Delegacia de Homicídios da Baixada (R$ 10,7 milhões) pararam com 90%.A reforma de postos de Polícia Técnica em Caxias, Nova Iguaçu e Campo Grande ( R$ 1,1 milhão) parou com 55%. A da Delegacia Especial de Atendimento à Mulher de Campo Grande (R$ 2,3 milhões) está com 31%. A das delegacias de Neves, Icaraí e Fonseca (R$ 1,1 milhão) parou com 63%.

Contenção. No Vilage, em Friburgo, 90% das obras em encostas (R$ 17,8 milhões) ficaram prontas. No Bairro Caleme, em Teresópolis (R$ 9,3 milhões), chegaram a 70%.

Rocinha. A complementação da urbanização do Mercado Popular da Rocinha (R$ 14,4 milhões) parou com 95% executados.

Dona Marta. A construção de 64 casas para reassentamento e de um centro comunitário na favela de Botafogo (R$ 10, 1 milhões) foi suspensa com 57,1% prontos.

Petrópolis. Implantação de rede elétrica de distribuição subterrânea na Rua do Imperador (R$ 6,2 milhões). Parou com 18,9%.

Interior. Reforma do Teatro Municipal Rosinha de Valença (R$ 1,1 milhão) parou com 22,3%. E chegou a 59,7% a urbanização do Lote 10 em Visconde de Mauá (R$ 2,7 milhões).

Hospitais. A ampliação da unidade de oncologia da Região Serrana (R$ 51,5 milhões) parou com 11,6%. A construção do Rio Imagem 2 (R$ 23,2 milhões) teve 13% executados. A construção do Hospital da Mãe, em São Gonçalo (R$ 37,2 milhões), parou com 27%. E a reforma do Hospital de Valença (R$ 12,6 milhões) chegou aos 91%.

Colégio. A reforma do Paulo de Frontin, na Praça da Bandeira (R$ 5,9 milhões), parou com 22%.

Fonte: “O Globo”.

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