“Estado” e USP montam a Corrupteca, maior biblioteca digital sobre corrupção

Usuário poderá acessar tudo o que foi publicado sobre tema corrupção no ‘Estado’ desde a fundação do jornal, em 1875

Fruto de parceria inédita entre a Universidade de São Paulo (USP) e o jornal “O Estado de S. Paulo”, a partir desta quinta-feira, 1, todo cidadão brasileiro com acesso à internet poderá frequentar a Corrupteca – traduzindo, a maior biblioteca digital especializada em corrupção do mundo.

E não só: ao ingressar via online na biblioteca, o usuário poderá acessar tudo o que foi publicado sobre o tema corrupção no “Estado” desde a fundação do jornal, em 1875. Além da parceria entre universidade e o jornal, o terceiro pilar deste acervo documental é a Open Archives Initiative (OAI), entidade que se dedica a interligar conteúdos digitais do meio acadêmico, subvencionada por instituições americanas como a Andrew W. Mellon Foundation, a Coalition for Networked Information, a Digital Library Federation e a National Science Foundation.

Voltada para um fenômeno de alta incidência no Brasil e em várias partes do mundo, a Corrupteca nasceu em discussões acadêmicas no Núcleo de Pesquisas em Políticas Públicas da USP (Nupps), por sua vez ligado à reitoria da universidade e dirigido pelo cientista político José Alvaro Moisés. Portanto, será por meio do endereço eletrônico do núcleo -nupps.usp.br/corrupteca – que o ingresso será feito, a partir desta quinta. Ao entrar no site, o usuário da biblioteca também poderá ser direcionado ao Acervo Estadão, com acesso irrestrito para assinantes.

Democracia. “O tema da corrupção vem se impondo aos pesquisadores do Nupps, levando-nos a perguntar: afinal, qual é a qualidade da democracia brasileira? Notamos que, embora a corrupção praticada pelos políticos seja crescentemente condenada pelos cidadãos, ainda assim persistem sinais de sua aceitação como prática social. E por quê?”, indaga Moisés.

Estas e outras questões, imbricadas num fenômeno que atravessa todas as esferas da vida política e administrativa do país, com impacto até nos índices de criminalidade, poderão a partir de agora ser espelhadas com o que anda acontecendo em escala global: a Corrupteca reunirá trabalhos acadêmicos de 1.643 universidades e centros de pesquisas de 63 países, em diferentes idiomas, focalizando o mesmo fenômeno em níveis diversos.

Assim, ao mesmo tempo em que já aparecem os primeiros estudos cruzando corrupção e Primavera Árabe, também se está juntando a produção jornalística em torno do julgamento do mensalão, o que por sua vez levará a novos estudos acadêmicos, ampliando a teia do conhecimento. É o que será feito a partir da hemeroteca digital da Corrupteca, que é o Acervo Estadão.

O desenvolvimento tecnológico do projeto ficou a cargo do pesquisador brasileiro Giovanni Eldasi, especialista em acervos digitais de excelência e um dos autores do protocolo da OAI, que vem balizando a formação de bibliotecas acadêmicas online pelo mundo. “Atuava na Europa como diretor de sistemas de uma rede internacional de universidades quando tomei contato com essa tendência de abertura dos acervos das instituições”, conta Eldasi.

De volta ao Brasil, foi incumbido de criar a Biblioteca Digital da Universidade Gama Filho, no Rio, que hoje soma 39 milhões de textos gratuitos vindos dos 63 países participantes da iniciativa. “Agora lançamos a Corrupteca, que contará com um laboratório de inovação tecnológica em funcionamento já em 2013. Ou seja, esta biblioteca atingirá grau de excelência em poucos meses.”

Para todos. Ao conectar o mundo por intermédio de um tema-chave e dar acesso a parte do Acervo Estadão, todo digitalizado, a Corrupteca nasce como um instrumento de trabalho para estudantes, jornalistas, acadêmicos, operadores da Justiça, líderes sociais, representantes políticos, empreendedores. Ou seja, mesmo sendo uma biblioteca 100% especializada. a ideia é atender o público na sua diversidade.

“Em uma única ferramenta de busca, encontra-se informação e produção científica sobre distintas práticas da corrupção, em diferentes épocas”, diz Eldasi. Para tanto, a tecnologia empregada é a Web 3.0, ou Web Semântica, que funciona por significados em vez de dados.

Num trabalho multidisciplinar entre as áreas da ciência política, do direito e da história, criou-se no Nupps uma espécie de “ontologia da corrupção”, que serve de filtro para garantir precisão ao material pesquisado. Um exemplo: se “lavagem de dinheiro” é uma expressão de uso recente, a busca semântica consegue resgatar casos em que esta prática já acontecia, mas sob outros nomes.

E assim, ao atravessar décadas e décadas de cobertura do “Estado”, a Corrupteca revelará também uma evolução da linguagem, desde os tempos das “malfeitorias” do Império. “O Grupo Estado acolheu de imediato a proposta do Nupps, alinhada com os objetivos do nosso acervo, cuja digitalização colocou conteúdos históricos à disposição do País”, resume Ricardo Gandour, diretor de Conteúdo do Grupo Estado.

Fonte: O Estado de S. Paulo

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