Segunda-feira, 5 de dezembro de 2016
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O que fazem os físicos do mercado financeiro?

Os chamados “econofísicos” usam a estatística para fazer análises e contribuir nas tomadas de decisão

Estudar física talvez não seja o movimento mais óbvio para quem pretende trabalhar no mercado financeiro, mas faz sentido. Os físicos lidam essencialmente com informação e, justamente por estarem preparados para conceber modelos, identificar e interpretar dados, também são bastante procurados para atuar na área econômica – em bancos e outras instituições financeiras, por exemplo, eles podem fazer desde análises cambiais e diagnosticar o comportamento dos mercados em crises financeiras históricas, até antecipar os possíveis riscos de um empréstimo para pessoa física ou jurídica. O guia salarial da Robert Half aponta que em média o setor de risco de mercado paga por mês de R$ 4.700 para quem está começando, a R$ 37. 000 para os diretores.

Usar estatística para resolver problema é algo que a física faz há muito tempo. Também não é novidade os físicos serem procurados por outras áreas. O que mudou é que a quantidade de dados agora é maior e a capacidade de processamento também, fazendo expandir a cobertura das ferramentas da física. Ela é necessária no tratamento desses dados e ajuda a mudar o modo como nos relacionamos com as informações, adquirimos conhecimento e tomamos decisões.

“Há, de fato, algumas profissões que exigem formação específica. É o caso de médicos, dentistas, psicólogos, engenheiros civis. Mas a maioria esmagadora de profissionais de alto nível hoje atua em área diferente da “profissão” adquirida da faculdade. São engenheiros, físicos e matemáticos trabalhando no setor financeiro, ou administrando empresas. Bacharéis em direito, estatísticos e economistas atuando no mercado publicitário”, escreve o professor Osvaldo Novais de Oliveira Júnior em seu livro “As Linguagens do Conhecimento”. Para ele, o mais importante na formação de um físico é que ele tem conhecimento suficiente de matemática para poder conceber modelos e por meio deles explicar os fenômenos mais diversos e analisar resultados. Novais é vice-diretor do Instituto de Física da USP de São Carlos (IFSC/USP). “Muitas vezes você vê físicos que se metem em outras áreas, porque tendo esse conhecimento fundamental eles podem aprender sobre outros assuntos e dar suas contribuições.”

O físico que opta por “atacar problemas” longe da vida acadêmica terá de estudar e compreender essas outras áreas de atuação, interagir com profissionais de trajetórias e formações distintas e aí descobrir como contribuir usando suas próprias ferramentas. “Usando a física para estudar a economia o físico vai conceber modelos para fazer previsões. Podemos por exemplo olhar o sistema como se fosse uma rede ou principalmente estudar séries temporais para verificar desigualdades, ver se ações estão subindo ou descendo ou verificar processos de fusão de empresas”, explica Novais. “Se você tem uma série temporal nos últimos quatro ou cinco anos, por exemplo, do tempo em relação a uma grandeza, a uma variável que pode ser o valor de uma moeda ou de uma ação ou qualquer que seja o parâmetro que esteja estudando, você pode depois usar a estatística para fazer previsão do futuro. Na econofísica, o mais importante é entender essas séries temporais. É conceber o modelo, fazer a previsão e ver riscos e vantagens. ”

Resolução de problemas – Quando o paulista Bruno Bessa, de 26 anos, começou a trabalhar no mercado financeiro, surpreendeu-se com a quantidade de conteúdos e produtos negociados pelo setor que ele nem imaginava que existiam – e que teria de conhecer a fundo. Formado em física no IFSC, Bessa fez especialização em precificação de derivativos também pela USP. Hoje atua como analista de risco no mercado financeiro, em uma importante instituição sediada em São Paulo. “O físico é um profissional que tem a formação acadêmica voltada para a solução de problemas do mundo real por meio de modelagem matemática e abstração e com isso adquire familiaridade em tratamento e análise de dados numéricos. As instituições financeiras têm modelos quantitativos que trabalham em cima de grande volume de dados numéricos, que precisam justamente de tratamento e análise. Na formação acadêmica, você trabalha com a simulação computacional de algum modelo, aprende a entender o modelo e a trabalhar os dados numéricos para interpretar os resultados. Vamos para o mercado financeiro com essa familiaridade, só que no lugar de estrelas e planetas, por exemplo, os parâmetros são referentes ao mundo das finanças, às taxas e aos indicadores econômicos.”

Na universidade, Bessa percebeu que teria de escolher entre dois caminhos. Um deles seguia em direção a mestrado, doutorado e ambiente de pesquisa. O outro apontava diversas atividades nas quais as ferramentas oferecidas pela física poderiam ser aplicadas. “Eu não tinha esse interesse na academia e, dentro das áreas que admitiam meu tipo de formação, o que me chamou a atenção foi a quantidade de instituições financeiras que abriam esse espaço. Pouco antes de me formar comecei a tentar os processos de trainee abertos pelas empresas e em seguida fiz o curso de verão de precificação de derivativos na USP de São Carlos, que fortaleceu meu currículo e me deu uma visão mais próxima do que seria trabalhar com finanças.”

Além da leitura de grandes volumes de dados para consolidar em relatórios mais simples e objetivos que vão ajudar numa tomada de decisão, está entre as atribuições de profissionais como Bessa propor modelos e equações que vão trabalhar esses dados brutos para sugerir novos parâmetros de análise. O físico que trabalha no mercado financeiro lida o tempo todo com fatores que influenciam perdas, ganhos e riscos, como a cotação do dólar, a taxa de juros, os índices das bolsas. Uma coisa que pode ser solicitada para o profissional da área é mapear essas possibilidades para uma carteira de clientes, simulando as mais variadas condições.

Ao estudante que deseja estudar física para trabalhar no mercado financeiro, Bessa recomenda basicamente duas coisas: é esperado que você tenha um nível bastante razoável de inglês, inclusive para conversar com profissionais do mercado que sejam de outros países, e também que domine o Excel, as ferramentas de planilha. Além do ferramental e da formação acadêmica, corre por fora a necessidade de procurar conhecer os produtos financeiros e suas modelagens matemáticas. “Para isso, há uma literatura bastante vasta, cursos de especialização em instituições privadas e cursos rápidos disponíveis em universidades públicas. É bastante vantajoso também conhecer linguagem de programação e ter uma noção de banco de dados.” Nada disso a graduação vai trazer, tão pouco uma visão compreensiva da conjuntura econômica, fundamental para identificar oportunidades, riscos e entender o comportamento do mercado.

Fonte: O Estado de S. Paulo, 16/6/2015

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