Futuro presidente do BNDES defende ‘desapego a subsídio’

Integrantes do governo admitem que troca de comando no BNDES não resolve problema de oferta de crédito

O futuro presidente do BNDES, Paulo Rabello de Castro, afirmou ontem que o país precisa “praticar o exercício do desapego ao subsídio”, sinalizando que deve manter a política adotada na gestão de Maria Silvia Bastos Marques, que pediu demissão na última sexta-feira, após forte pressão de empresários, insatisfeitos com travas na liberação do crédito. Paulo Rabello disse ainda que pretende manter a diretoria do banco e, a pedido do presidente Michel Temer, buscará dar ênfase às micro e pequenas empresas. Sua posse está prevista para a próxima quinta-feira.

Integrantes da equipe econômica admitiram, porém, que a troca de comando no BNDES não conseguirá resolver o problema da oferta de crédito para o setor produtivo. Eles afirmam que, apesar das acusações de que Maria Silvia estaria dificultando o desembolso de recursos, o menor volume de empréstimos não tem apenas um motivo. Vai de razões como a própria burocracia interna do banco até os efeitos da Operação Bullish, que investiga fraudes no apoio financeiro do BNDES à JBS.

— Uma administração como a da presidente Maria Silvia dificilmente terá descontinuidade. (A mudança) pode ser uma questão de agilidade na resposta aos pleitos (do empresariado). Devemos fazer o exercício do desapego ao conceito de subsídio. Temos que fazer o Brasil convergir para a normalidade. O principal apoio que o BNDES pode dar ao mercado é a disponibilidade — disse Paulo Rabello, ao participar de evento em comemoração aos 81 anos do IBGE.

Quebra de sigilo bancário no BNDES
O futuro presidente do banco disse lamentar ter sido “convocado inopinadamente para uma missão que não estava no radar” e chegou a pedir aos funcionários que rezassem por ele nessa nova etapa. Ele se encontrou com Temer na manhã de ontem, quando foi orientado a dar atenção a micro e pequenas empresas. Quanto às suspeitas de favorecimento em aportes na JBS, afirmou que ainda não sabe o que fará com a fatia de 21% que o banco tem na empresa.

Um integrante da equipe econômica disse que há quase 40 funcionários do BNDES com bens indisponíveis em função de contratos concedidos ainda na gestão de Luciano Coutinho. São pessoas que participaram de decisões sobre a concessão de crédito para operações que são investigadas no âmbito da Lava-Jato.

— Isso gerou uma inação no banco — disse essa fonte, lembrando que essa era uma reclamação não apenas dos empresários, mas da própria Maria Silvia. — A troca (na presidência) não resolve nem 10% dos problemas.

Para interlocutores, o que Paulo Rabello pode fazer é reativar linhas de crédito já aprovadas e que estavam paradas por decisão da ex-presidente. Ela havia bloqueado, por exemplo, linhas elevadas para a concessão de capital de giro para empresas, argumentando que os recursos do BNDES devem ser destinados a operações de longo prazo.

O novo presidente poderia “abrir essas torneiras”. No entanto, isso poderia ser um problema para a atuação do Banco Central (BC), que tem se posicionado sistematicamente contra o aumento do crédito direcionado, que enfraquece sua estratégia de combate à inflação. Atualmente, o BC só tem poder de fogo para influenciar diretamente menos da metade do crédito no país.

Há R$ 3,1 trilhões em contratos de crédito na praça. Mais da metade desse dinheiro é de crédito direcionado, ou seja, que tem subsídios dados pelo governo e que não é controlado diretamente pelo BC. Quando este aumenta ou diminui a taxa básica de juros (Selic) para controlar a inflação, isso não afeta diretamente R$ 1,546 trilhão de crédito direcionado, que segue outras regras, definidas pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

Outro agravante está no efeito que a Operação Bullish pode ter sobre o corpo técnico do banco. Segundo fontes da PF, os investigadores pedirão a quebra de sigilo fiscal e bancário dos funcionários envolvidos na aprovação de financiamentos para a JBS. Os investigadores já identificaram indícios de vínculos de técnicos com o esquema de corrupção. Agora, estão atrás de provas de que algum deles teria recebido vantagem indevida.

Maria Silvia deu expediente no banco normalmente ontem e deve ficar ao menos até a posse de Paulo Rabello. Possivelmente, no mesmo evento será anunciado o novo presidente do IBGE. Segundo fontes, Roberto Olinto, atual diretor de pesquisas da instituição e que está no IBGE desde 1980, deve substituir Paulo Rabello.

Fonte: “O Globo”

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