Gasto da Petrobras com importações deve subir 24% este ano, para R$ 18,8 bi

Projeção de consumo total de combustíveis é de 2,3 milhões de barris por dia, contra 2,2 milhões de barris de 2013

O aumento do consumo de combustíveis, estimado pelo mercado em cerca de 4% neste ano, vai se traduzir em mais gastos com as importações de derivados, principalmente de gasolina e diesel. Segundo projeções feitas pelo Centro Brasileiro de Infra Estrutura (CBIE), os custos com a compra desses produtos podem subir 24,5% em relação ao ano passado. O montante pode chegar a US$ 18,8 bilhões, maior que os US$ 15,1 bilhões de 2013, já descontados os cerca de US$ 4,5 bilhões referentes às compras externas de 2012 contabilizadas apenas no ano passado.

O Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP) estima que a demanda por gasolina e óleo diesel crescerá 4%, mesmo nível do ano passado. O diretor do CBIE, Adriano Pires, diz que a expectativa é que as importações de derivados somem 462,2 mil barris por dia, 23,3% a mais que os 374 mil barris médios por dia de 2013. O consumo total de combustíveis deve ficar em 2,3 milhões de barris por dia, contra 2,2 milhões de barris um ano antes.

Se por um lado a expansão das importações de derivados ainda pesará nas contas da Petrobras, por outro o aumento de 7,5% na produção de petróleo esperado para este ano vai melhorar a geração de caixa da estatal. E para alcançar essa meta, considerada “agressiva” pelo mercado, a Petrobras vem trabalhando desde o ano passado para a instalação de 11 novas plataformas.

Segundo a Petrobras, as 11 unidades, que começaram a ser instaladas em janeiro de 2013 e serão concluídas até o fim deste ano, ampliarão a capacidade instalada em 1,3 milhão de barris de petróleo por dia. Esses novos sistemas produzirão até dezembro mais de 650 mil barris de petróleo por dia. A estatal adiantou que somente os campos do pré-sal atingirão a produção recorde de 500 mil barris médios por dia neste ano, chegando a picos de 600 mil barris diários. O recorde de produção no pré-sal, de 470 mil barris diários, foi registrado no último dia 11.

— Pode ser que a Petrobras consiga atingir o aumento da produção previsto, de 7,5%, o que vai significar, na realidade, a produção voltar aos patamares de 2011, de cerca de 2 milhões de barris por dia. O governo conta com esse aumento da produção para melhorar o caixa da companhia, para compensar a falta de reajuste de preços dos combustíveis — explica Pires.

Especialistas lembram ainda que a Petrobras também tem investido para aumentar a capacidade de refino. Eles citam a primeira unidade da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, que tem início de operação prevista para o fim deste ano, com capacidade de refinar 115 mil barris de petróleo por dia. Segundo Ernani Filgueiras, gerente executivo de Abastecimento e Petroquímica do IBP, os investimentos são essenciais para equilibrar o aumento no consumo nacional de combustíveis.

— O ritmo de crescimento vai continuar na mesma proporção do ano passado, quando as vendas da gasolina subiram 4,2% e as do diesel, 4,6%. As importações vão continuar crescendo em 2014 e em 2015. Só com a entrada das novas refinarias é que haverá uma redução nesses volumes. Abreu e Lima vai produzir diesel e já começa a plena carga — diz Filgueiras.

Para Alísio Vaz, presidente do Sindicato Nacional das Empresas Distribuidoras de Combustíveis (Sindicom), a venda será impulsionada este ano pelo aumento da demanda por gasolina, diesel e óleo combustível:

— No caso da gasolina, haverá aumento das vendas por causa dos novos carros zero, que devem ter uma desaceleração, mas ainda assim vão ter alta. O diesel está associado à agricultura; e os óleos combustíveis, às térmicas.

Segundo o Plano Estratégico 2030 da Petrobras, somente a partir de 2019 é que o Brasil caminhará para a autossuficiência em derivados, com a entrada da primeira unidade do Comperj (RJ) e da segunda unidade de Abreu e Lima, além de parte das novas refinarias no Nordeste, ainda em licitação.

Meta agressiva de aumento de produção: 7,5%

A meta de aumento de 7,5% da produção para este ano vem sendo classificada como agressiva por parte dos especialistas. No primeiro trimestre deste ano, a produção atingiu 1,922 milhão de barris por dia, alta de 1% em relação ao mesmo período do ano passado e queda de 2% em relação ao quarto trimestre de 2013. Alexandre Calmon, sócio da área de óleo e gás do Veirano Advogados, diz que o crescimento só será possível se não houver nenhum tipo de problema operacional.

— Crescer 7,5% é claramente uma meta agressiva. Se não houver contrapontos, é factível. Mas há muitas variáveis, como as condições do meio ambiente. Manter o cronograma é como os estádios para a Copa: quanto mais fica em cima (da data de entrega), menor é a margem para administrar imprevistos. Além disso, imprevistos podem acontecer, pois esse é um negócio de risco — destaca Calmon.

Por sua vez, a economista Paula Barbosa, especialista em óleo e gás, não acredita que a produção de petróleo cresça 7,5% neste ano. No entanto, ela reconhece o esforço que a companhia vem fazendo para aumentar a produção:

— O mercado viu com bastante apreço o esforço que vem sendo feito pela gestão atual para reduzir custos, otimizar a produção em campos antigos e aumentar a produção. Mas acredito que, na melhor das hipóteses, a produção neste ano aumentará em torno de 4%.

A economista lembrou que imprevistos sempre ocorrem, como atraso na entrega de equipamentos e problemas inesperados em sistemas e plataformas.

— É claro que a gente quer que a Petrobras atinja suas metas, e está realizando ações boas, como o aumento da produtividade em alguns campos na Bacia de Campos. Mas a meta deste ano é ver um céu de brigadeiro em um céu que está com nuvens escuras — afirma Paula.

Já o professor Edmar Fagundes, do Grupo de Economia da Energia, do Instituto de Economia da UFRJ, acredita que a Petrobras vai atingir o objetivo de crescimento deste ano, pois a companhia vem trabalhando em ritmo acelerado desde o ano passado. O desafio, segundo ele, é atingir a meta de produção de 3,2 milhões de barris por dia em 2018.

— Acredito que, com todos esses sistemas que estão sendo colocados em operação, com a interligação de um número cada vez maior de poços com alta produtividade, como os do pré-sal na Bacia de Santos, ela (Petrobras) conseguirá aumentar a produção neste ano. Mas creio que o desafio maior é depois, saltar de cerca de 2 milhões para 3,2 milhões de barris diários a partir de 2018 — destac.

PDV pode comprometer novos projetos

Para o ex-diretor da Petrobras Wagner Freire, a produção crescerá em 2014, mas menos do que o projetado pela empresa. Segundo ele, o plano de demissão voluntária (PDV) pode dificultar o gerenciamento de novos projetos:

— Apesar de ter ótimos diretores, a dificuldade é o gerenciamento de seus projetos. Com o PDV, em dois anos haverá menos profissionais. E isso pode levar a dificuldades.

André Donha, diretor da KPMG no Brasil, também ressalta a questão operacional como fator determinante para permitir o aumento da produção:

— As paradas programadas, que vêm sendo feitas, são essenciais e já estão incluídas no cronograma da empresa. Essa programação é justamente para evitar as paradas corretivas, que são as piores e afetam a produção.

Já Claudio Duhau, analista da corretora Ativa, prevê que a produção apresentará melhora nos próximos meses.

— Crescer 7,5% é muito difícil, mas dá para chegar. Acho que se crescer 6% neste ano o mercado já vai gostar bastante — diz Duhau.

Fonte: O Globo

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