“Governos ruins são a causa da pobreza na África”, diz filantropo

Mohamed Ibrahim aponta revolução nas comunicações como crucial para desenvolvimento da sociedade civil

Aos 67 anos, o bilionário anglo-sudanês Mohamed Ibrahim, ou simplesmente Mo Ibrahim, resolveu dedicar-se exclusivamente a promover o desenvolvimento africano e, para isso, criou uma fundação com o seu nome, que monitora os indicadores da região e premia líderes com desempenho excepcional. Considerado um dos 100 homens mais influentes do planeta pela revista “Time”, com uma fortuna avaliada em cerca de US$ 2 bilhões, segundo a “Forbes”, o ex-executivo de telecomunicações afirma que é preciso construir instituições fortes garantir o crescimento sustentável da África.

O Globo: Por que o senhor abandonou o setor privado para se dedicar à Fundação Mo Ibrahim?
Mo Ibrahim: Eu tinha minha carreira, mas também sou um cidadão africano. Tenho minhas paixões e meus deveres para com meus compatriotas. A questão que sempre me intrigou foi por que a África, o segundo maior continente do mundo, é pobre? A resposta era porque tínhamos governos ruins. São os governos que se encarregam de administrar os recursos humanos e naturais. Não parecíamos ter sido bem-sucedidos em governança. É uma área difícil para atuar, a menos que seja africano. Se você é estrangeiro, vão perguntar quem é você, o que quer e qual a sua agenda. Os africanos estão vendo que estou fazendo a sério, porque não estou fazendo negócios, concorrendo a cargo político nem procurando emprego…

O Globo: Quando podemos esperar uma virada na situação africana?
Mo Ibrahim: Depende do que você considere a virada. Quando vamos parecer a China ou o Brasil? A China levou entre 30 e 40 anos para se tornar o que é. Em 20 anos a África vai ser muito diferente. Sou otimista.

O Globo: O que fazer para que as economias africanas cresçam?
Mo Ibrahim: A África vinha crescendo entre 5% e 6% ao ano. Mesmo na crise global, crescemos entre 4% e 5%. O solo africano é riquíssimo e ainda tem muito a oferecer. Não temos ideia das riquezas que estão ali. E, se conseguirmos desenvolver a governança, não há por que a região não crescer entre 7% e 9%. Precisamos disso. Há um número imenso de jovens que, em breve, será um grande desafio. De onde virão seus empregos? Isso vai exigir boa educação.

O Globo: De onde virá a solução?
Mo Ibrahim: Não há uma bala de prata. Há muito a ser feito. Mas é preciso começar pelas instituições. Elas são importantes para garantir estabilidade e bom funcionamento. São necessários parlamentos fortes e tribunais decentes, independentes, funcionais, ágeis e eficientes. Justiça e Estado de Direito são muito importantes. Prestação de contas e transparência também. Temos de criar espaço à sociedade civil, que não é inimiga do Estado, mas pode ser crucial, ajudar o governo a desenvolver a região. Precisamos de coesão social. Temos que prestar atenção nas crescentes desigualdades na sociedade.

O Globo: Embora ainda esteja longe do ideal, a África melhorou nos últimos 12 anos. O senhor atribui parte disso ao fim da Guerra Fria.
Mo Ibrahim: O fim da Guerra Fria foi crucial para nós, porque as superpotências acabaram com o jogo de patrocinar ditadores. Nesse xadrez, as superpotências só estavam interessadas em ter seus Estados-satélite, e não parceiros. E os satélites são melhores quando têm um ditador. Se estou no meu gabinete no Kremlin, ou na Casa Branca, é só dar um telefone e mandar fazer o que eu quero que seja feito. Não precisa enfrentar Parlamento, imprensa… A justificativa era de que enfrentávamos um inimigo maior. É claro que ainda existem Estados-satélite, mas seus aliados já não se comportam como antes.

O Globo: O que mais ajudou?
Mo Ibrahim: Vimos uma revolução tecnológica incrível, com a disseminação da informação, com celulares, o que é algo totalmente novo na África. O continente inteiro tinha menos de três milhões de telefones. O Congo, com 60 milhões de habitantes, tinha três mil telefones. Isso foi há 15 anos. De repente, o continente inteiro está conectado. Temos mais celulares na África do que na Europa, ou nos EUA. São 650 milhões mais ou menos. Tem a internet… Não é mais preciso pedir autorização na polícia para abrir um jornal. Com essa enorme quantidade de informações, as pessoas sabem tudo sobre os líderes, Orçamentos, para onde o dinheiro vai. Com base nessas informações, protestam, cobram resultados. Isso foi incrível para o desenvolvimento da sociedade civil. Esses foram os principais fatores que ajudaram a revitalizar a África.

Fonte: O Globo

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1 comment

  1. Regina Caldas

    De que adianta informação e comunicação sem Educação? Dos 650 milhões de africanos que possuem celular, qual o percentual de alfabetizados? Qual o percentual inserido no mercado de trabalho? Que eu saiba, um dos fatores que estão revitalizando a África são os investimentos feitos pela China, que geram milhares de empregos e dão renda suficiente aos trabalhadores para adquirirem um celular.
    No Brasil, milhões de cidadãos possuem celular, e alguns milhares estão conectados pela internet. Mas a maioria, embora até saiba o que ocorre no país , não tem capacidade para digerir informações e se tornar agente de mudanças que beneficiem a sociedade. Porque falta Educação.