Gustavo Franco: “Impactos da crise serão duradouros”

Gustavo Franco

Para Gustavo Franco, a crise de 2008 mudou a maneira de atuar dos bancos centrais e alterou permanentemente a maneira como as pessoas enxergam o sistema financeiro

A quebra do Lehman Brothers, então o quarto maior banco de investimento dos Estados Unidos, não entrará para a história apenas como o dia D da crise financeira que levou a economia mundial à recessão e as bolsas ao redor do mundo a despencar num ritmo aterrorizante. Com a queda do símbolo americano, em 15 de setembro de 2008, começa também uma nova fase para o sistema financeiro internacional. “Claramente, o escopo de atuação dos bancos centrais mudou mundo afora. Antes da crise, o papel dos BCs vinha sendo diminuído e mantido restrito quase exclusivamente à prática da política monetária”, diz Gustavo Franco, ex-presidente do Banco Central e sócio da Rio Bravo Investimentos.

No entanto, as instituições não foram as únicas a mudar. “Eu não me lembro de outro evento econômico produzir tantos filmes e livros como esse. Eu não tenho dúvida de que isso terá um impacto permanente na maneira como as pessoas enxergam o sistema financeiro e o capitalismo”.

Em entrevista a “Época Negócios”, o economista comenta os cinco anos da crise, as consequências da turbulência internacional para o Brasil e o mundo, e opina sobre o que esperar pela frente da economia mundial.

Época Negócios: Quais foram as mudanças mais importantes trazidas pela crise de 2008 para a economia mundial?
Gustavo Franco: Vou repetir o famoso comentário de Mao Tsé-Tung sobre a revolução francesa: está muito cedo ainda para sabermos. Mas, claramente, o escopo de atuação dos bancos centrais mudou mundo afora depois da quebra do Lehman Brothers. Antes da crise, o papel dos BCs vinha sendo diminuído e mantido restrito quase exclusivamente à prática da política monetária. Depois, o escopo aumentou. Tivemos BCs fazendo empréstimos para montadoras de automóveis, como nos EUA, ou subscrevendo ações de companhias. Que foi necessário, não há dúvida. Porém, essa é uma revolução que ainda terá que encontrar um termo de convivência com a sabedoria estabelecida de como devem se comportar os BCs. Além disso, houve uma enorme pressão por parte da sociedade em cima dos BCs em termos de regulamentação. Eles precisaram ampliar e melhorar a capacidade de intervir e regular as instituições financeiras.

Negócios: As mudanças feitas na regulamentação do setor financeiro foram suficientes para impedir uma nova crise?
Franco: Que mudou para melhor não há dúvidas. Lições foram aprendidas, mas os ciclos econômicos e as crises financeiras têm se repetido a cada dez, 15 anos pelo menos nos últimos dois, três séculos. Portanto, isso não vai impedir uma nova crise financeira. É da natureza do sistema. Toda vez que há inovação, encontra-se um novo jeito de cometer excessos. E esses excessos se transformam em crise.

As crises financeiras têm se repetido a cada dez, 15 anos pelo menos nos últimos dois, três séculos

Negócios: Você concorda com a tese de que o Fed e o Tesouro americano erraram ao deixar o Lehman Brothers quebrar?
Franco: Concordo e acho que eles próprios talvez concordem. O que eu ouço das pessoas que estiveram envolvidas com isso diretamente é que simplesmente não foi possível. Eles tiveram que resolver dois, três casos parecidos num horizonte de poucos dias. Portanto, não houve capacidade de resolver o caso Lehman Brothers em tempo hábil. Não foi possível mobilizar os recursos dos investidores, dos potenciais compradores, para resolver tantos problemas de uma vez. Seguramente, não foi uma questão de escolha.

Negócios: Para combater a crise, os países desenvolvidos injetaram trilhões na economia mundial. A crise fiscal em que se encontram os EUA e a Europa é resultado disso?
Franco: Não creio que houvesse alternativa ao que foi feito, mas isso sobrecarregou, sim, o endividamento público de muitos países. E, em muitos casos, levou nações de uma situação confortável para a extrema insolvência. Houve uma transferência da crise do terreno bancário para o fiscal. Quando temos uma crise bancária, as consequências são mais imediatas e perversas. O número de vítimas inocentes é muito maior. O que foi feito foi socializar o custo da crise, ao elevar o endividamento público.

Negócios: Os responsáveis não tiveram que pagar a conta.
Franco: Os banqueiros que fizeram os excessos não têm patrimônio para pagar a crise. No caso americano, não foi possível sequer tirar alguma coisa de muitos dos principais protagonistas da tragédia, o que é muito triste e muito irritante. No Brasil, o banqueiro que quebra responde com seus bens pessoais pelos prejuízos que causa. Às vezes, não dá para pagar por todas as perdas, mas pelo menos o cara fica sem nada.

Houve uma transferência da crise do terreno bancário para o fiscal. O que se fez foi socializar o custo da crise, ao elevar o endividamento público

Negócios: A crise já terminou?
Franco: Sim e não. Sim, porque seus efeitos mais danosos e que caracterizaram a situação toda como crise já ficaram para trás. Não, porque ela deixou dívidas. E vários agentes, o começar pelos próprios governos, terão que lidar com elas ao longo do tempo. Portanto, os impactos ainda serão duradouros. Uma outra questão é o imaginário da crise. Eu não me lembro de outro evento econômico produzir tantos filmes e livros como esse. Eu não tenho dúvida de que isso terá um impacto permanente na maneira como as pessoas enxergam o sistema financeiro e o capitalismo. A narrativa dominante é uma narrativa contra os bancos. Isso é ruim, porque os bancos são instituições importantes para o desenvolvimento de qualquer economia moderna. Vários dos profetas do fim do capitalismo e pensadores marxistas que estavam esquecidos lá na sarjeta dos mundos das idéias aparecem hoje com autoridade imensa para falar que o capitalismo é uma máquina de crise. Daí é dose. Os impactos ideológicos da crise são horríveis.

Negócios: Apesar de ter sido o epicentro da crise, os EUA se recuperaram mais rápido do que a Europa. O que explica isso?
Franco: No caso americano, você tem uma economia forte que teve um problema localizado – ainda que gravíssimo – no sistema bancário. Depois lidar com ele, a vida pôde ser retomada. Já a Europa passou pela mesma história, mas enfrentou outras várias complicações adicionais relacionadas com o fato de que alguns países da região tinham graves problemas fiscais. A Grécia é o caso mais sério.

Negócios: A viabilidade do euro no longo prazo tem sido muito debatida. Você acredita no futuro da moeda comum europeia?
Franco: Sim, acho que ficou para trás o período de maior pessimismo, sobretudo depois de ficar claro que o problema não é tanto com euro, mas sim com se um país como a Grécia fez tudo o que deveria para fazer parte dessa união monetária. Hoje, os membros da união estão tão interessados quanto a Grécia em fazê-la voltar a ser uma economia dinâmica e se manter dentro da zona do euro.

Negócios: Olhando em retrospectiva, a crise foi para o Brasil só uma marolinha?
Franco: Claro que não. Excessos verbais das autoridades se tornam prosaicos. Para o Brasil, ela não foi uma crise tão séria como foi para os EUA, mas deu muito trabalho, custou muito dinheiro e causou muito dano. Ela foi parecida aos outros choques externos que sofremos, como a crise na Rússia, Ásia, México, não tendo tido muito a ver com a economia brasileira em si.

Nós não somos uma máquina de crescimento, nem uma máquina de geração de igualdade, nem um grande modelo inovador de coisa nenhuma

Negócios: O Brasil e os demais emergentes sofreram menos e saíram mais rápido da crise. A imagem do país saiu fortalecida da turbulência internacional?
Franco: Essa foi uma crise dos países desenvolvidos. Isso criou a impressão de que haveria um grande reequilíbrio da economia mundial. A atenção se voltou para países como China, Brasil e Rússia. Houve um certo exagero. No caso do Brasil, não foi tanto um mérito nosso. Nós não adiantamos coisa nenhuma no tocante aos nossos problemas de ambiente de negócios, liberdades econômicas, qualidade das instituições, eficiência da educação, qualidade da saúde, taxa de investimento e competitividade. Em todos esses aspectos, o Brasil estacionou. Nós não vivemos para cumprir as promessas que muitos enxergaram no Brasil e nos Brics naquela ocasião. Nós não somos uma máquina de crescimento, nem uma máquina de geração de igualdade, nem um grande modelo inovador de coisa nenhuma. Nós tivemos uma demografia favorável que explica muita coisa que aconteceu aqui de bom no âmbito da desigualdade e do mercado de trabalho, mas as nossas políticas públicas não foram nada demais.

Negócios: A Bovespa, ao contrário da economia, sofreu mais e nunca voltou a atingir o patamar pré-crise de 70 mil pontos.
Franco: Quando a crise bateu aqui, estávamos vivendo um período de bolha no mercado acionário brasileiro. Hoje, percebe-se com muita clareza que houve um excesso em aberturas de capital de empresas que não tinham nem a solidez, nem a escala para serem listadas em bolsa. Mas a febre dos IPOs continuava e não sei o que teria acontecido se não tivesse havido a interrupção causada pela crise. Hoje, os 70 mil pontos parecem uma coisa fora do alcance à luz do que é projetado para os resultados das companhias, mas esses resultados poderiam ser muito melhores se a economia estivesse crescendo mais. As políticas de governo estão equivocadas.

Negócios: O que está errado com as políticas do governo?
Franco: O crescimento brasileiro tem sido medíocre. A culpa não está no fato de o Brasil estar sendo atacado por tropas hostis vindas de Marte. A intervenção estatal exagerada e descasamento entre a política fiscal e monetária prejudicam. O governo desenhou um modelo para o petróleo que foi uma tragédia para a Petrobras e para os investimentos no setor. Depois, foi fracassando em outros setores, como os das concessões em infraestrutura e nas PPPs. E veja o que aconteceu no setor elétrico. Os acionistas da Eletrobras também podem responder o que eles acham sobre a qualidade das políticas do governo para o setor. O país é bom, as oportunidades são maravilhosas, mas infelizmente a gestão é ruim.

Negócios: O crescimento da economia brasileira deve se acelerar um pouco este ano, após um resultado melhor do que o esperado no 2° trimestre?
Franco: A média das previsões para o ano é alguma coisa levemente superior a 2% e inferior a 2,5% . É um número muito ruinzinho.

Negócios: Você vê condições de crescermos mais do que isso no curto prazo, no ano que vem?
Franco: Não, porque o modelo está destinado a produzir crescimentos medíocres. O crescimento depende de investimento, que por sua vez depende da acumulação de capital. Você não conseguirá acumulação de capital, se tratar mal o capital, que é o que esse governo faz. Enquanto estivermos nessa configuração, onde as autoridades têm uma relação hostil com o capital, não vai haver aumento relevante da taxa de investimento e, portanto, não vai haver aumento relevante da taxa de crescimento. É simples assim.

Negócios: O Fed já anunciou que em breve irá começar a diminuir os estímulos à economia usados para combater a crise. Desde então, o real sofreu uma forte desvalorização. O Brasil deve sair prejudicado nessa nova fase?
Franco: Isso não é um problema para nós. Se os EUA efetivamente deixarem para trás a crise, isso é uma boa notícia. As mudanças serão muito pequenas e lentas. Acho que os mercados claramente exageraram o tamanho de sua reação. Não há motivo para provocar essa ansiedade toda. Para o Brasil, a desvalorização não é nem positiva, nem negativa, é um dado de realidade. Parece-me que ela foi um tanto exagerada, mas não há nenhuma teoria hoje em dia que nos aponte qual o câmbio certo. O câmbio correto é o que está no mercado e a gente tem que viver com ele.

Fonte: Época Negócios

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1 comment

  1. Rafael

    Ótima entrevista!