Indústria criativa movimenta R$ 110 bilhões no Brasil

Depois de trabalhar com o pai em uma tapeçaria, como office-boy em uma agência de publicidade e estagiar em um banco, Eduardo Kobra viu que gostava mesmo era de pintar. Para desgosto dos pais, abandonou todas as alternativas de carreira antes testadas para grafitar. O início não rendeu nem dinheiro para pagar o aluguel, mas, hoje, sua arte está espalhada pelo mundo e algumas de suas telas chegam a valer 40 mil euros.

Kobra é um exemplo que soube transformar a criatividade em negócio e ajuda a movimentar a indústria desse tipo no País, um núcleo formado por 243 mil empresas e que sustenta um Produto Interno Bruto (PIB) equivalente a R$ 110 bilhões – ou 2,7% do total produzido no Brasil –, segundo dados de 2011 levantados pela Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (Firjan).

“Trata-se de um mercado muito promissor. Temos alguns fatores da sociedade que favorecem a criatividade: vivemos em um ambiente democrático, o entretenimento é uma vocação brasileira e isso reflete na economia criativa. Qual o benefício disso? A geração de produtos com maior valor agregado”, afirma Gabriel Pinto, coordenador do Programa Indústria Criativa do Sistema Firjan.

Mas na avaliação da diretora da consultoria Garimpo Soluções, Ana Carla Fonseca, ainda existem pelo menos três grandes desafios para a economia criativa avançar no Brasil. Um deles é a carência de dados, que impossibilita um diagnóstico mais preciso do setor e, consequentemente, a dificuldade de traçar políticas mais certeiras e monitorar seu desenvolvimento. Completam a lista: a dificuldade de estabelecer uma integração de políticas e de acesso ao crédito, tudo isso devido a impossibilidade de oferecer garantias reais como retorno.

Entre as características do empreendedor criativo, Ana Carla aponta a “necessidade quase visceral de conseguir colocar a ideia em prática”. “É uma coisa positiva, mas traz um risco embutido do empreendedor achar que tem uma belíssima ideia e esquece da parte de gestão do negócio.

Não só a gestão financeira ou de marketing. Nos setores criativos você mexe com um olhar que é o direito de propriedade intelectual. Às vezes, por desconhecimento, eles não tomam as devidas precauções para se resguardar da cópia, da pirataria.”

Como muitas vezes o empreendedor criativo tem dificuldades com as questões burocráticas, a saída é contar com a ajuda de quem entende do assunto. “Eu nunca foquei diretamente na questão de ganhar dinheiro, mas sempre quis ver meu trabalho bem resolvido. Isso fez com que eu criasse um time que suprisse minhas dificuldades”, conta Kobra, que tem uma equipe com 12 pessoas.

Marca

A pesquisadora do Centro de Empreendedorismo e Novos Negócios da FGV, Laura Pansarella, defende a valorização do patrimônio cultural. “É preciso gerar algum valor aqui dentro, um orgulho nacional. Não estou falando que seja um estereótipo. Mas é importante acreditar no seu potencial de criar e de exportar essa marca.”

Ao explorar uma linguagem divertida, a marca Meninos Studio, do Rio de Janeiro, conseguiu firmar-se internacionalmente. Os produtos criados pelos sócios Bruno Warchavsky e Diogo Magalhães são exportados para mais de 60 países e comercializados em 500 pontos de venda somente no Brasil.

No início, os designers trabalhavam voltados para serviços. Mas após o sucesso das capas de HD estampadas com desenhos inspirados em embalagens e personagens de filmes, a dupla resolveu investir nos produtos. Hoje, a empresa tem três centros de distribuição (no Brasil, nos Estados Unidos e em Hong Kong), e registrou faturamento de R$ 3,2 milhões no ano passado.

Entre os produtos vendidos pela marca está, por exemplo, um organizador de sacolas plásticas no formato de saco de pancada e uma caneca com desenho que imita uma caixa de remédio ‘Relaxotril’. “O que a gente faz é agregar valor através do design. Pegamos uma coisa que todo mundo pode fazer e o desafio é transformar em algo diferente, que em vez de R$ 1 vai valer R$ 10”, afirma Diogo Magalhães.

Fonte: O Estado de S.Paulo.

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