‘Inflação da Páscoa’ chega a 25% em um ano

Bacalhau está 30% mais caro. Pressionados pela seca e pelo dólar, preços ainda devem subir mais até abril

As guloseimas da Páscoa estão com um ingrediente amargo neste ano: preços bem mais altos que os de 2014. Levantamento da Fundação Getulio Vargas (FGV) feito a pedido do GLOBO mostra que a inflação de dez dos produtos mais procurados durante a festa chegou a 25,03% nos 12 meses encerrados em fevereiro, de acordo com o Índice de Preços ao Consumidor (IPC), calculado pela instituição. Em igual período do ano passado, os preços dos mesmos itens caíam 0,26%. E o cenário tende a piorar até a reta final do feriadão. Segundo o economista André Braz, responsável pelo estudo, a pesquisa ainda não captou o peso do dólar mais caro sobre os importados, mas lojistas ouvidos nesta semana avisam que está difícil não repassar o efeito do câmbio aos preços de produtos como vinho e azeite. E no caso do bacalhau, já há aumentos de mais de 30%.

No supermercado Zona Sul, por exemplo, as compras dos produtos de Páscoa foram feitas com antecedência, antes da recente disparada da moeda. Ainda assim, o quilo do bacalhau sai por R$ 66, contra R$ 49 no ano passado, uma diferença de 34%. Já os chocolates estão 7% mais caros.

— O bacalhau Gaduas Morhua, de melhor qualidade, teve redução de oferta na Noruega. Então esse preço já subiu em dólar. E ainda temos a alta da moeda americana — explica o vice-presidente comercial do Zona Sul, Pietrangelo Leta.

Pedro Pereira, diretor comercial da Brascod, importadora do bacalhau Bom Porto, calcula avanço de 30% no preço do pescado. Segundo o executivo, pelo menos dois terços desse aumento são decorrentes da alta do dólar.

— Estamos vivendo um cenário pessimista. Pegou muita gente de surpresa — afirma Pereira.

Nos dados da FGV, por enquanto, os vilões da inflação da Páscoa são os in natura, afetados pela seca. Liderando o ranking, a batata registrava inflação de 63,49% até o mês passado. Já a cebola avançava 30,44%. Em 2014, as taxas dos dois produtos haviam ficado negativas.

— As condições climáticas não favoráveis estão se prolongando por um período grande de tempo. Esse efeito se acumulou com o verão seco — explica Braz.

Entre os produtos da pesquisa da FGV que sofrem mais impacto do câmbio, o vinho e o chocolate registraram aceleração frente ao ano passado, subindo 15,84% e 9,32%, respectivamente. O bacalhau chegou a recuar 3,36%, mas o número inclui preços do peixe produzido no país, mais barato.

‘Se repassar, para de vender’

Além disso, as importadoras calculam que os produtos que vão para as mesas dos consumidores em abril chegaram ao país há pelo menos três meses, quando o dólar estava a R$ 2,70.

O Grupo Pão de Açúcar, do supermercado Extra, informou ter encomendado 4 mil toneladas de bacalhau, em uma negociação feita há mais de um ano. A estratégia ajudou a evitar o dólar mais alto e deve permitir que os preços fiquem nos mesmos níveis de 2014, promete a empresa.

Nas delicatessens e no pequeno varejo, o esforço também é para segurar preços, mas repasses existem. Na Cosa Nostra, em Ipanema, por exemplo, os produtos estão até 5% mais caros.

— Se repassar, para de vender. A fluência de compra continua, mas as pessoas estão ácidas, não estão felizes— diz Hélio Casagrande, dono da loja, que vende o bacalhau importado dessalgado por R$ 99 o quilo.

Na Casa Pedro da Tijuca, onde o quilo do pescado salgado sai por R$ 48,80 e o azeite, por R$ 19,90, a aposta é na adaptação do consumidor à nova realidade.

— O cliente de classe média até leva, mas reclama. Se antes comprava um quilo de bacalhau, agora leva apenas meio quilo — diz Luciano Gilmar, funcionário da empresa.

Fonte: O Globo

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