Instalações olímpicas não podem ser abandonadas – editorial de “O Globo”

O 2 de outubro de 2009 foi um dia histórico para a cidade. Em Copenhague, na Dinamarca, o Comitê Olímpico Internacional (COI) anunciou que a capital fluminense sediaria os Jogos de 2016. Nos sete anos seguintes, o Rio seria transformado num canteiro de obras. Embora a candidatura tenha sido apoiada pela população desde o primeiro momento, havia preocupação com o legado. Até porque, nesse aspecto, os Jogos Pan-Americanos de 2007 deixaram a desejar. Terminada a competição, não sobrou muito além do Estádio Nilton Santos (Engenhão), do Parque Aquático Maria Lenk e da Arena Multiuso — posteriormente adaptados para a Olimpíada. O afundamento de áreas comuns da Vila do Pan, na Barra, ajudou a cristalizar a ideia de um legado indesejado.

Por isso mesmo, no planejamento da Rio 2016, priorizaram-se as obras de legado, que representavam cerca de 70% do orçamento geral. É verdade que algumas não se concretizaram, como a despoluição da Baía de Guanabara — motivo, aliás, de pesadas críticas da mídia internacional — e a limpeza das Lagoas de Jacarepaguá e Barra. Mas o ganho foi expressivo. Para citar apenas alguns, estão aí a Linha 4 do metrô (Ipanema-Barra), os BRTs Transoeste (Barra-Campo Grande-Santa Cruz) e Transcarioca (Barra-Ilha); o corredor expresso Transolímpico (Deodoro-Recreio); o novo Elevado do Joá; o Veículo Leve sobre Trilhos (VLT); o Museu do Amanhã — hoje o mais visitado do país —,e a revitalização da Zona Portuária, que resgatou para o Rio uma área que, durante décadas, permaneceu degradada.

No entanto, hoje a preocupação recai sobre as instalações esportivas. O Parque Olímpico de Deodoro, onde aconteceram as competições de canoagem slalom, BMX e mountain bike, está fechado. O contrato com a empresa que fazia manutenção do lugar teria expirado ainda na gestão passada. O complexo de 500 mil metros quadrados e capacidade para 3 mil pessoas por dia, dotado de um lago artificial com três níveis de profundidade, poderia estar sendo usufruído pela população.

O destino do Parque Olímpico da Barra — coração dos Jogos de 2016 — também é uma incógnita. A gestão de parte das arenas foi assumida pelo governo federal, que pretende usá-las para treinamento de atletas de alto rendimento. Outras terão de ser desmontadas pela prefeitura, que alega não ter dinheiro para isso. A subsecretária de Esporte do Rio, Patrícia Amorim, chegou a dizer que, por falta de recursos, a Arena do Futuro não será mais transformada em quatro escolas, como previsto.

Entende-se a escassez de recursos diante da crise. No entanto, a Rio 2016 não foi projeto de um governo, mas de uma cidade. Por isso, é fundamental que a prefeitura preserve as instalações, dando-lhes destinação adequada. O Rio venceu barreiras para organizar, no “padrão COI”, a primeira Olimpíada da América do Sul. Não pode perder a medalha agora, após o apagar da pira.

Fonte: “O Globo”.

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