Onze empresas se inscreveram no certame, bem menos que as 40 esperadas pela diretora geral da ANP, Magda Chambriard

Forte interferência estatal aliada a incertezas regulatórias, exigência de investimentos bilionários e demora na realização de leilões levaram quatro gigantes do setor a desistirem de participar do leilão de Libra, na avaliação de empresários e especialistas. As americanas Exxon e Chevron, primeira e segunda maiores petrolíferas do mundo em valor de mercado, e as britânicas BP e BG ficaram de fora do certame, o primeiro do pré-sal, que será realizado em 21 de outubro. Ao todo, 11 empresas se inscreveram no leilão, segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP), bem menos que as 40 esperadas pela diretora geral da agência, Magda Chambriard.

Entre as inscritas estão apenas duas gigantes tradicionais: a anglo-holandesa Shell e a francesa Total. A espanhola Repsol se associou à chinesa Sinopec (as duas têm operações conjuntas no Brasil). Na lista estão ainda as chinesas CNOOC e China National Petroleum e a indiana ONGC. Da América do Sul, estão Petrobras e Ecopetrol (Colômbia). Surpreendeu o mercado a portuguesa Petrogal, que já atua no pré-sal brasileiro e que não figura sequer entre as 20 maiores do setor, segundo ranking da Bloomberg. A japonesa Mitsui e a malaia Petronas também se inscreveram, totalizando seis asiáticas.
A diretora geral da ANP não escondeu a frustração. Afinal, Libra vem sendo divulgada como a maior área já oferecida no mundo, com reserva estimada entre oito bilhões e 12 bilhões de barris — as reservas brasileiras hoje têm 15 bilhões.

— Recebi telefonemas de Exxon, BP e BG e elas me disseram que não participariam do leilão por questões muito específicas. Mas reafirmaram o interesse no Brasil — disse Magda.

Espionagem dos EUA e ausência russa
Para o presidente do Instituto Brasileiro do Petróleo (IBP), João Carlos França de Luca, um conjunto de fatores levou à desistência das quatro grandes:

— O que me surpreendeu foi a Exxon não participar. Mas cada empresa tem sua estratégia. Libra é muito grande, exige investimentos elevadíssimos, com alto risco e muitas incertezas regulatórias do modelo de partilha. Não se sabe como será a atuação da PPSA (estatal que participará do comitê operacional) na gestão dos campos. É uma grande dúvida.

O consórcio vencedor terá de desembolsar R$ 15 bilhões em bônus, fora investimentos em exploração. Com o desembolso e forte interferência estatal, o ex-diretor geral da ANP David Zylbersztajn não se surpreendeu com as desistências:

— A Petrobras (que será operadora em todos os campos do pré-sal) não dá medo. Mas haverá uma estatal (a PPSA) que dará as cartas. Isso gera incerteza regulatória.

Soma-se a isso o fato de que seis anos se passaram desde que a descoberta do pré-sal, em 2007. Desde então, o governo teve uma longa discussão sobre o marco regulatório a ser adotado e só retomou os leilões este ano — em 2008 chegou-se a fazer uma licitação, mas os blocos do pré-sal foram excluídos. Enquanto o Brasil debatia que rumo tomar, outras áreas foram desenvolvidas ao redor do mundo. As empresas comprometeram seus recursos e, agora, não dispõem de tempo ou dinheiro para rever suas estratégias.

Nenhuma das empresas explicou a razão da desistência. Exxon e Chevron disseram que continuam a avaliar oportunidades no país. A BG ressaltou que já está no pré-sal, em blocos concedidos no passado, onde investirá US$ 3 bilhões anuais em quatro anos. A BP não se manifestou.

No Palácio do Planalto, houve surpresa pela ausência de empresas russas. A presidente Dilma esteve na Rússia há poucos dias, e as conversas teriam indicado presença de pelo menos uma petroleira russa no leilão. Para o governo, a ausência dos americanos reduz o risco de questionamentos de que a espionagem feita pela agência americana traria vantagens às empresas dos EUA.

Os analistas acreditam que o leilão será marcado pela forte presença das chinesas. Por serem estatais, estariam dispostas a obter um retorno mais baixo em prol de um projeto de Estado.

— A China precisa garantir seu abastecimento futuro — afirma Walter Devitto, analista de petróleo da Tendências.

O governo está preocupado ainda com parlamentares que querem suspender o leilão. Eles contestam a legalidade da oferta pelo modelo de partilha e o acesso a informações privilegiadas pelos EUA.

Por meio de nota, o ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, disse que “o governo está satisfeito com a qualidade das empresas” habilitadas ao leilão.

Fonte: O Globo

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